Todo e qualquer agrupamento humano que já existiu na história precisou de uma premissa fundamental, um ponto de partida indiscutível para que a convivência fosse possível. Essas premissas não nasceram em árvores e não caíram do céu; elas foram forjadas na forma do que chamamos de convenções sociais. Falamos aqui das regras de etiqueta, das leis morais, dos sistemas jurídicos e dos costumes. No entanto, é preciso ter a coragem de admitir um fato incômodo: a convenção social é, em sua essência, apenas um acordo imaginário. Ela não carrega em si nenhuma verdade universal ou incontestável.

O grande drama da condição humana é que a verdade absoluta, assim como a ontologia das coisas — ou seja, a essência real e profunda de tudo o que existe —, é um território inalcançável para nós. Nossos aparatos biológicos são limitados. Os sentidos humanos, por mais aguçados que pareçam, são capazes apenas de captar estímulos e transformá-los em representações. Nós não tocamos a realidade pura; nós apenas criamos representações linguísticas sobre ela. Damos nomes, inventamos conceitos e estruturamos narrativas para tentar domar um universo que, no fundo, não compreendemos totalmente.

Nesse esforço desesperado e contínuo para conhecer a realidade que nos cerca, a humanidade foi obrigada a realizar elucubrações formidáveis. Precisamos criar e recriar constantemente essas convenções, premissas e amarras linguísticas para dar sentido ao caos. E a regra histórica é muito clara: quanto mais complexo se torna um agrupamento humano, mais densa e intrincada precisa ser essa teia de convenções. Uma tribo de cinquenta pessoas exige poucas regras para sobreviver; uma metrópole de dez milhões de habitantes precisa de um emaranhado de leis, códigos e etiquetas para que as pessoas consigam conviver de forma minimamente harmoniosa e não se destruam mutuamente.

Com o passar do tempo e com o inevitável aumento da complexidade social, algo fascinante e sombrio acontece com as nossas convenções. Elas deixam de ser vistas como acordos temporários e passam a se transformar em mentiras sofisticadas. Aquilo que era apenas uma trama linguística útil para a organização do grupo consolida-se em um autoengano coletivo. As regras inventadas passam a ser tidas como verdades sagradas e inquestionáveis, sendo aceitas de forma absolutamente cega pelas gerações seguintes.

É nesse ponto que precisamos encarar a realidade com crueza: a mentira não é um desvio de caráter da sociedade; ela é o seu elemento constitutivo. A mentira estrutural serve para reduzir as insuportáveis complexidades ônticas do mundo. Se tivéssemos que questionar a essência de cada regra, de cada instituição ou de cada comportamento diário, a vida em comunidade seria paralisada. A ilusão compartilhada é o cimento que mantém os tijolos da civilização unidos. Sem essa narrativa artificial, a estrutura inteira desmorona.

A verdade é que as pessoas precisam desesperadamente da mentira e do autoengano para funcionar, trabalhar, procriar e se desenvolver. Do ponto de vista biológico e psicológico, a mentira social é primorosamente projetada para garantir a sobrevivência do nosso cérebro e do nosso sistema mental. O cérebro humano é uma máquina focada em poupar energia. Processar a realidade nua e crua o tempo todo geraria uma sobrecarga letal. Esse sistema sombrio, que troca a verdade pela segurança, é o que torna a convivência social algo palatável, previsível e relativamente pacífico.

Por mais doloroso que seja admitir, as pessoas querem e preferem viver na mentira. A ilusão é quentinha, familiar e protetora. A vasta maioria dos indivíduos precisa da convenção social travestida de verdade para sobreviver psiquicamente. Arrancar essa cortina de ilusões de forma abrupta não traria iluminação para a massa, mas sim tragédia. Sem o amparo do autoengano, muitos entrariam em estado de choque, sofreriam colapsos nervosos severos ou mergulhariam em surtos psicóticos irreparáveis. A mentira, portanto, atua como um escudo profilático contra a loucura.

Se a mentira é tão confortável e necessária, pouquíssimos são aqueles que ousam ou desejam sair desse sistema fechado. As grandes exceções ao longo da história humana são figuras singulares: os profetas e os místicos. O místico possui uma constituição interna que o impede de se acomodar na ilusão. Ele sente a necessidade visceral de se livrar do autoengano, de rasgar o véu das convenções e de conhecer a verdade, ou pelo menos chegar o mais perto possível dela.

O preço dessa lucidez, contudo, é altíssimo. Por não compactuarem com a farsa coletiva, profetas e místicos são empurrados para as margens da existência. Eles são historicamente rotulados como loucos. E há uma ironia cruel nisso: a verdadeira loucura social, a neurose coletiva de viver uma mentira, é psicologicamente projetada em cima dessas figuras. A sociedade precisa se autoenganar para sobreviver, e o mecanismo de defesa do grupo é implacável. Qualquer indivíduo que não se submeta à ilusão obrigatória será rapidamente classificado como louco, excêntrico, subversivo ou perigoso.

Querer saber a verdade gera um problema crônico de relações públicas para a alma. A busca pela realidade profunda resulta, quase invariavelmente, na expurgação daqueles que ousam questionar o teatro. Enxergar profundamente a verdade não traz aplausos; gera exclusão, isolamento e estigma. A sociedade não tolera espelhos que reflitam a sua própria falsidade. O indivíduo lúcido torna-se um corpo estranho no organismo social, e o sistema imunológico da cultura agirá rapidamente para isolá-lo ou destruí-lo.

Diante da ameaça real de aniquilação social, muitos místicos e buscadores da verdade acabam sendo forçados a adotar uma vida dupla. Para não serem esmagados pela engrenagem, eles precisam fingir. Passam a aceitar superficialmente as mentiras diárias para poderem transitar na sociedade, pagar suas contas e conviver com os pares, mesmo sabendo, no íntimo, a verdade sobre o grande teatro. É uma adaptação dolorosa para evitar a exclusão total. No silêncio de suas mentes, porém, sabem que a mística continua sendo o caminho mais autêntico e legítimo para tatear o real.

Essa tensão profunda entre a convenção social aceita e a busca mística pela verdade não é apenas um debate filosófico; ela moldou a história da psicologia moderna. Esse foi, de fato, o epicentro do grande e doloroso dissenso entre duas das mentes mais brilhantes do século XX: Sigmund Freud e Carl Gustav Jung. A amizade e a parceria intelectual entre eles ruíram justamente por causa dessa fronteira.

Freud, fortemente ancorado nos paradigmas de sua época, acreditava firmemente na ciência pura. Ele desejava que a psicanálise fosse um edifício estritamente racional, materialista e alinhado com as convenções científicas aceitas. Ele via qualquer flerte com o oculto ou com a mística como uma ameaça à credibilidade de sua teoria. Freud queria dissecar a mente dentro dos limites do que a sociedade considerava "seguro" e cientificamente palatável.

Jung, por outro lado, possuía a alma de um místico. Ele compreendeu profundamente que a psique humana é vasta demais para caber em uma caixa metodológica. Jung entendia que não era possível separar a experiência humana da sua dimensão mística, dos símbolos e do inconsciente coletivo profundo que transcende as meras convenções sociais. Ele preferiu arcar com o estigma da comunidade científica a trair a complexidade da verdade que enxergava. A ruptura entre eles é o reflexo perfeito da eterna batalha humana: o conforto da convenção racional contra a perigosa, porém libertadora, jornada rumo à verdade mística.