Antes do livro... ao lado de outras faces da história que me ocuparam outro texto, eis, agora, uma vocalização feminina de uma história do imaginário português: Terra de heróis e sombras (Edições Esgotadas, 2026), de Luísa Paolinelli!
Afinal, nos velhos ‘álbuns da tribo’ (Eric Havelock), registam-se factos e personagens que fizeram a história e que marcaram indelevelmente as identidades colectivas, matéria por excelência das epopeias, onde tudo tende a adquirir o brilho das estrelas e a névoa dos mitos.
Desde antes dos homens (do Génesis bíblico e do que a antiguidade greco-latina elaborou na Teogonia / Genealogia dos deuses, de Hesíodo (séc. VIII-VII a. C.) até à história destes em cenários mediterrânicos (Ilíada, Odisseia, As argonáuticas, etc.) e à sua revisitação medieval (com as “matérias” de Roma, da Bretanha e de França).
Depois, a cultura renascentista também revisitará essa memória colectiva em artes e letras, vertida na sua busca de uma nova enciclopédia do saber promovida pela ciência e pelas viagens. Por um lado, retomando os heróis militares: com Orlando furioso (1516), de Ludovico Ariosto, fiel aos temas de cavalaria, que veste de elementos fantásticos e humanistas, ou com a Jerusalém libertada (1581), de Torquato Tasso, focada nas cruzadas e conciliando elementos clássicos e cristãos, tentando conciliar a estrutura clássica da epopeia com os valores da moral cristã. Por outro, legitimando poderes monárquicos com o imaginário mais tradicional, como com A rainha das fadas (1590), de Edmund Spenser, onde a alegoria exalta a britânica Isabel I e a moralidade protestante. Mas também rasgando fronteiras continentais e oceânicas, globalisadoramente, como Os lusíadas (1572), de Luís Vaz de Camões, elegendo a viagem às Índias como símbolo da ação de um povo e da sua contribuição para a cultura mundial, até então fragmentada pelo desconhecimento recíproco.
Agora e aqui, a matéria de epopeia nacional portuguesa é refundida e revisitada por um olhar feminino (Luísa Paolinelli) que no-la oferece em metamorfose, não sincopada por episódios como Ovídio nos propõe, mas num contínuo encantatório que serpenteia a vivência comunitária na linha da história: Terra de Heróis e Sombras.
No início, eram a noite e as brumas…
Depois… fiat lux (Gén., 1:3)! E facta est lux (Gén., 1:3)!
E surgiram luz, vida e… mito, esse “nada que é tudo” (Fernando Pessoa) brilhando em ígnea obsidiana.
Só depois a matéria da história das comunidades: as nações.
E Portugal, “nação [que] nasceu como poema.”1, ritmada pelo vento e pela utopia, agitada pela vontade e pela memória dos homens:
Era um país ainda por dizer
e uma flauta cantava. Nos salgueiros pendurada
ou na palavra. Uma flauta
a tanger
a língua apenas começada. Subia
pelo nervo e pelo músculo
como quem assobia no acento agudo
e no esdrúxulo. Algures por dentro
do país mudo. Uma flauta floria
sôbolos nomes que vão
para nenhures. Algures
contra o vento. Com seus cântaros
e alegrias suas câmaras
da memória. Uma flauta ainda
sem história. Chamavam por ela
os antigos e os apelos ecoavam.
Uma flauta com sua estrela
no alto dos seus castelos em suas altas
escarpas. Nos salgueiros velhas harpas
perguntavam: onde nos levas?2(Manuel Alegre)
Soprados pela paixão, os heróis! “[H]ome[ns] [de] um reflexo com cosmos dentro” que se “sonhava[m] a si mesmo[s]” “[n]os sonhos dos que iriam vir” (p. 5) e nas epopeias “a florir em cada letra”3 cantadas pela “tuba canora e belicosa” (Camões), entrecortada pela “voz enrouquecida” (Camões) n’ “o rugir da nossa tempestade” (p. 5), “[e]sper[ando] o traço que [os] desenhe e que vá ao sabor dos ventos” (p. 6)…
Por isso, era Portugal, Porto-Graal, “lugar /…/ escolhido pelas deusas e deuses vissaieigenses” (p. 39), “Terra de Heróis e Sombras”, de metamorfose, como antecipou Ovídio, de diferentes Idades cujos protagonistas se transfiguram: Viriato em Simão, Afonso, Henrique e Joana Viriata, Teresa Regina em Teresa amante, Mariana ao colo e Mariana apaixonada, Aldonça-Ausenda-Urraca, Grão Vasco e da Gama, mulheres com cabelos de lágrimas (p. 33) e povo “derrama[do] na batalha” (p. 40), “feio[s] f[eitos] belo[s], /…/ velho[s] f[eitos] jove[ns] /…/ mouro[s] f[eitos] cristão[s]” (p. 48)… transmutações de alquímico sangue “ferve[ndo] em gotas mercurianas” e confundindo os tempos, as acções, os lugares, as personagens e as lendas que os envolvem, as histórias, os “cantares de amor” e de amigo por jograis e acrobatas. Tudo “cumpri[ndo] a profecia” (p. 50) da “Herança ancestral” (p. 56).
“A sinfonia do céu tocada em carne/ Resplendente” (p. 55) por um sujeito reconfigurado em cada imagem, eu vertendo-se em múltiplos eles que convoca e interpela, em diálogo esboçado para leitor, quiçá, “sem perceber que somos um” (p. 58)… Portugal! Onde se “nas[ce] com alma de pássaro” e se “[q]uer ver a sua sombra desenhada na terra” (p. 68)…
Eis como Luísa Paolinelli atravessa a cultura portuguesa por caminhos de sonho e lenda identitários em cujas curvas (ir)reconhecemos outros “grãos de voz”, outros timbres genológicos e episódios de uma convivência comunitária carnavalizando-se e entretecendo-se de antes das origens até aos nossos dias. Porque, sendo os mitos “formas de chorar os mortos e os vivos,/ E de fazê-los crescer à nossa imagem” (p. 76), é esta inclassificável, surpreendente, emocionada e brilhante escrita poética que os reflecte em nós, leitores. Portugal ao espelho de Portugal! Num livro, também ele, obsidiana “terra de heróis e sombras” mutantes, poemas e imagens transmórficas… em chiaroscuro! Convidando a que se vejam nele…
Referências
1 “Nação [que] nasceu como poema.” Manuel Alegre. Vinte Poemas para Camões, Lisboa, Dom Quixote, 2016, poema 1, p. 12.
2 Perguntavam: onde nos levas? Manuel Alegre. Vinte Poemas para Camões, Lisboa, Dom Quixote, 2016, poema 2, p. 13.
3 “A florir em cada letra” Manuel Alegre. Vinte Poemas para Camões, Lisboa, Dom Quixote, 2016, poema 1, p. 12.















