Hamnet, da realizadora Chloé Zhao, é um filme que nos dá uma pista para responder a uma pergunta filosófica recorrente. Qual o sentido da Arte? Por que a Arte é necessária?
O Cinema pode ser considerado como Arte quando consegue transcender o mero entretenimento e criar uma conexão com o espectador através das emoções. Há filmes que não são necessariamente compreendidos de uma forma racional. Eles são sentidos. E não são esquecidos.
Hamnet é um desses filmes, uma obra que joga o espectador para dentro de sua história, de seu ambiente, de sua época. Somos transportados para a vida da família protagonista desse drama e levados a compartilhar o desenrolar de uma tragédia íntima de proporções desumanas.
Chloé Zhao realiza um filme com uma sensibilidade única e um respeito ao livro da escritora irlandesa Maggie O´Farrell. Hamnet, o livro, é um romance ficcional baseado em um episódio da vida de William Shakespeare. Entretanto, Shakespeare aqui é um coadjuvante. A protagonista da história é a sua esposa Anne Hathaway, muitas vezes referida como Agnes, como nessa história. Eles tiveram 3 filhos: Suzanna e os gêmeos Judith e Hamnet. A morte de Hamnet, aos 11 anos, é o ponto de virada, um acontecimento que irá mudar a vida de todos e inspirará o jovem dramaturgo a criar sua peça mais famosa – Hamlet.
A grande sacada da história, do livro e do filme, é estabelecer esse evento como conceito base da trama. Hamnet e Hamlet são a mesma pessoa, mas numa estrutura dramática simétrica. Em Hamnet, o pai perde o filho, em Hamlet o filho perde o pai, mas são duas experiências em que a tragédia marca as famílias, que devem buscar o sentido para suas vidas reais e sobrenaturais. Tal inspiração funciona como pressuposto ficcional claro, porém, sem registos oficiais, nunca saberemos a verdadeira fonte criativa de Hamlet.
Chloé aposta em contar sua história como uma testemunha ocular, reservando um espaço em cada cena e cada ambiente para o espectador. Parece teatro, mas é mais do que isso. É um documentário onde a câmera parece desaparecer e proporcionar uma profunda imersão. É uma decisão corajosa da realizadora porque, se conseguimos tal conexão com a vida e o tempo dos personagens, perdemos talvez o tempo cinematográfico, ou seja, o ritmo a que estamos acostumados aos filmes. A aposta é válida e muito bem-sucedida.
Mais do que mergulharmos na história familiar, o filme nos transporta para a Inglaterra do final do século XVI. A fotografia, a ambientação cenográfica, os sons, enfim tudo contribui para embarcarmos nessa máquina do tempo chamada cinema e desembarcarmos em Stratford-upon-Avon e em uma Londres com ruas de terra, esgoto a céu aberto, miséria e assolada pela peste. Podemos quase sentir o cheiro daquele ambiente. O filme nos agarra por todos os sentidos.
A primeira cena de Hamnet, na floresta, já nos cativa. A metáfora visual em que Agnes emerge das raízes de árvores majestosas vai caracterizar sua personagem como a bruxa da floresta, uma mulher com dons místicos. Seu poder, naquela época e circunstâncias, era, na verdade, sua fortaleza como mulher e mãe, cuja sensibilidade compartilharemos ao longo da história.
Jessie Buckley, ao interpretar Agnes, atinge todas as altas notas que compõem a complexidade desse personagem. Que atuação! Seus parceiros de cena Paul Mescal, como Will e Jacobi Jupe como Hamnet completam o trio principal, condutor da história com desempenhos que carregam sem falhas todas as emoções da história.
A direção de atores é um dos pontos altos de Hamnet, sem dúvida. No entanto, a forma de contar a história é muito própria e pessoal de Chloé. O ritmo da história é lento, mas necessário, afinal, estamos imersos numa época em que a vida acontecia numa velocidade diferente. A fotografia é escura, com uso majoritário de iluminação natural. Mesmo as cenas de interiores são iluminadas por velas, com alto contraste entre claro e escuro. São pinturas em movimento. Várias cenas são mais percebidas do que vistas.
A edição de som é extremamente sofisticada, na qual percebemos o ambiente sonoro dos espaços abertos, da floresta e dos interiores com uma tridimensionalidade espacial. A trilha sonora empurra-nos e conduz-nos nas emoções, na dor e na redenção.
A direção de arte nos permite sermos testemunhas presenciais em um mundo próprio. A casa de Agnes é um elemento vivo na história; transmite o calor e a frieza, emite sons de madeira estalando no piso e nas lareiras. O filme consegue transpor visualmente e sensorialmente a riqueza das descrições presentes no livro. O trabalho de adaptação de roteiro, feito pela própria Chloé Zhao e pela autora do livro, Maggie O´Farrell é fiel ao texto original, mas não literal, com liberdade de criação de sequências e alterações de texto que funcionam muito bem na linguagem mais sintética do cinema. Este será sempre um desafio das adaptações literárias, uma vez que são mídias muito distintas, que geram obras totalmente independentes.
A câmera de Chloé não se permite coreografias de movimentos elaborados. Não esqueçamos de que é uma história que envolve o maior dramaturgo da História, onde o teatro é a base da vida. Estamos no teatro de Chloé, mas desta vez, no palco, como observadores. Seus planos são estáticos, com poucos movimentos. A fotografia busca a simetria sempre que possível. Os atores por vezes saem de quadro e voltam ou a câmera gira para um ponto fora da ação. Ela não está preocupada em pontuar cada gesto, mas em compartilhar aquela vida. Ao convivermos com aqueles personagens, criamos uma intimidade dolorosa à medida em que a história caminha para a tragédia anunciada.
A cura para aquela dor profunda é a Arte. Pelo menos sob o ponto de vista de Will (Shakespeare) e de Chloé. Nós, espectadores, seremos curados quando nos distanciarmos daquele universo e concebermos o filme como obra criativa. Agnes e Will só encontrarão a redenção de suas dores e vidas destroçadas através do teatro, da criação de Will – Hamlet – que trará à vida seu filho.
O que Maggie O´Farrell faz no livro é criar ficção de qualidade e empatia com qualquer um que tenha a experiência de uma família e de filhos. Hamnet nos conduz como espectadores pela alegria, pela felicidade, pela dor extrema e pela esperança. É catártico em certo ponto, mas também acolhedor e reconfortante.
A importância de Hamnet talvez esteja na proposição da discussão da Arte como elemento fundamental do desenvolvimento humano. Não falo da cultura de uma civilização ou de transmissão de valores de uma sociedade. Estas são funções importantíssimas da Arte. Falo da perspetiva do indivíduo, de como a Arte é importante para a compreensão de cada um de nós, através da maneira como nos relacionamos com ela, seja como criadores ou espectadores.
Shakespeare não é o protagonista dessa história, mas nos guia na transformação da dor mais intensa que um ser humano pode sentir em uma beleza que perdurará por séculos. A Arte é, no fundo, o encontro do mundo real com a beleza, a perceção de que a sensibilidade é uma camada de linguagem que pode ser compreendida se nos entregarmos de coração aberto.
Obrigado, Hamnet.















