Dezesseis anos depois de “O Convite”, a cantora Iveth regressa ao centro da cena com a serenidade de quem nunca deixou de caminhar, ainda que fora dos holofotes imediatos. O anúncio da abertura das pré-reservas de “Entre(Tanto)”, segundo álbum de estúdio com lançamento marcado para março de 2026, não surge como um simples comunicado promocional, mas, antes, como um gesto simbólico que convoca tempo, memória, amadurecimento e posicionamento artístico. Num tempo em que o mercado exige urgência, Iveth faz do intervalo um lugar de discurso e transforma a espera em narrativa.

O intervalo entre um álbum e outro poderia ser lido como ausência, mas a própria artista recusa essa narrativa. “Estes 16 anos não foram de silêncio, mas sim de lapidação”, diz, desmontando a ideia de hiato com a precisão de quem viveu cada etapa como construção. A palavra não é escolhida ao acaso. Lapidar implica tempo, fricção, paciência e intenção. Implica retirar excessos, aceitar imperfeições, ganhar forma. O álbum “Entre(Tanto)” nasce precisamente desse processo contínuo de polimento humano e artístico.

Na verdade, o que existiu foi um percurso feito de camadas: a artista que continuou a lançar singles; a mulher que estudou, trabalhou, viajou, colaborou com outros músicos; a advogada que enfrentou casos reais de violência e injustiça; a docente que ensinou e pesquisou; a mãe, a esposa, a cidadã atenta. Um corpo em movimento constante. “O intervalo de 16 anos não foi propositado. Foi um período em que aconteceu. Deveria lançar outro álbum, entretanto, aparece o entretanto”, confessa.

Esse “entretanto” – palavra que carrega contingência, desvio e amadurecimento – é a chave conceptual de “Entre(Tanto)”. “Foi um período de vários entretantos transformadores. Continuei a fazer música. Fui lançando alguns singles em 2014, em 2016, em 2019, em 2023. Fui vivendo muita coisa. Continuei a estudar, continuei a trabalhar. Tive várias experiências a nível jurídico. Colaborei com vários artistas a nível da música. Viajei e também dei vários passos pessoais, desde casar, ser mãe, construir. Tornei-me advogada, criei empresa”, conta.

O título do álbum, “Entre(Tanto)”, sugere interstícios, passagens, zonas de transformação. E é precisamente nesse espaço que Iveth se instala enquanto narradora do seu tempo. A jovem rapper de “4 Estações” dá lugar a uma mulher que escreve a partir da experiência vivida, não da observação distante. “Hoje falo com propriedade”, afirma. “Não de alguém que está do outro lado e é observadora, mas de alguém que viveu, passou, percebeu estas questões todas”.

A maturidade anunciada não se esgota no discurso. Ela manifesta-se na densidade lírica, no rigor temático, na escolha das palavras e na forma como a artista se posiciona enquanto mensageira social. “Para além de cantar e interpretar, eu escrevo, eu componho. E as ideias para estas composições vêm destas minhas longas vivências”, explica.

O álbum constrói-se a partir da escuta do quotidiano, da observação da sociedade, do acompanhamento atento das dores, silêncios e resistências do seu povo. Iveth não canta apenas o que sente; canta o que vê, acompanha, escuta e analisa. “É ser mensageira e trazer uma mensagem através destes olhos, desta maneira de ser e estar que vive por mim, pelos outros”.

Em “Entre(Tanto)”, a voz artística já não se ancora no ideal, mas no real. “Eu saí do ideal para o real e este real mostrou-me com muita profundidade aquilo que é feito de um povo, aquilo que é feito de mim”. Essa deslocação é central: o álbum assume-se como um documento de transição – da juventude para a maturidade, da promessa para a responsabilidade, do discurso genérico para a palavra situada. Iveth canta como mulher, mãe, advogada, cidadã, ativista. E não tenta hierarquizar essas identidades; elas coexistem, dialogam, friccionam-se.

A advocacia surge como uma das fontes mais densas dessa matéria-prima criativa. Casos de violência doméstica, desigualdade estrutural, reprodução inconsciente de comportamentos violentos, silêncios sociais – tudo isso atravessa o álbum não como slogan, mas como experiência processada. “Hoje falo de violência doméstica porque defendo casos de violência doméstica”, afirma, lembrando que a música se torna extensão da prática jurídica, espaço de denúncia e, simultaneamente, de humanização.

A artista não fala de violência como conceito abstrato; fala a partir de processos, histórias, corpos feridos, narrativas interrompidas. Essa vivência confere densidade ética à sua palavra. A docência, por sua vez, imprime rigor. Pesquisa, clareza, método. Iveth não romantiza a inspiração: ela estuda, compara, investiga. Conta que, para escrever “4 Estações”, precisou revisitar livros de geografia para compreender as dinâmicas climáticas e traduzi-las em metáfora afetiva.

Noutras faixas, mergulhou na história dos direitos humanos, revisitando desde a Carta de Mandinga, em África, até ao Código de Hammurabi. A oralidade africana dialoga com a investigação académica, criando uma escrita que informa sem perder pulsação poética. Esse cuidado com a construção do discurso reflete-se também na relação com o hip-hop enquanto género.

Iveth não foge à tensão entre globalização e autenticidade. Pelo contrário, enfrenta-a. “É importante valorizar as nossas origens, de onde a gente vem”, defende. A sua estratégia passa por “moçambicanizar o hip-hop”: incorporar línguas locais, padrões rítmicos tradicionais, instrumentos, temáticas do quotidiano. Não para fechar fronteiras, mas para dar densidade ao global. “Não abandonamos o local e também não somos apenas globais”.

A opção por priorizar o suporte físico no lançamento de “Entre(Tanto)” inscreve-se nessa mesma lógica de resistência. Em plena era do streaming, Iveth aposta no CD como objeto de permanência. “É uma forma de lutar contra o descartável”, explica. A pré-reserva cria um vínculo direto com o público, fideliza, devolve valor material à música e ao gesto de ouvir. O álbum circulará nas plataformas digitais, mas o símbolo está no objeto que fica, que se guarda, que se revisita.

O álbum posiciona-se, assim, como afirmação do hip-hop feminino consciente, num campo onde a presença feminina sempre teve de negociar espaço. O regresso de Iveth carrega, inevitavelmente, um peso simbólico no contexto do hip-hop feminino moçambicano. A artista recusa a ideia de falta de qualidade e aponta para a questão da representatividade numérica. “Somos poucas, mas representativas”.

“Entre(Tanto)” afirma-se, assim, como continuidade de uma luta que não terminou. “Ainda há muito por dizer”, reconhece. O álbum não surge como ajuste de contas, mas como reafirmação de presença.

No plano político e social, o álbum não se esquiva ao confronto. Iveth assume o hip-hop como linguagem de denúncia e reflexão. Fala de governação, justiça, corrupção, brutalidade policial, decadência moral. Em “Marcha”, critica a violência contra quem reivindica direitos; noutras faixas, expõe a facilidade com que se premia a subserviência em detrimento da ética. Mas também recusa o discurso apocalíptico. “Dizer que tudo não está bom não é verdade”, reconhece. Há nuances, avanços, contradições. A crítica vem acompanhada de empatia.

“A Luta Continua”, última faixa do álbum, funciona como síntese e projecção. Não é um ponto final, mas um compromisso. “Depois do lançamento, há que continuar”, afirma Iveth.

Mensageira e mensagem seguem juntas, em movimento. “Entre(Tanto)” apresenta-se, assim, como um marco narrativo, não apenas na carreira da artista, mas no próprio hip-hop moçambicano contemporâneo.

Ao regressar, Iveth não reivindica apenas um lugar na indústria. Reivindica o direito ao tempo, à complexidade e à palavra situada. E oferece ao hip-hop moçambicano – e à música moçambicana em geral – um álbum que nasce do intervalo, mas fala com clareza sobre o presente e o futuro. “Os fãs podem reservar o álbum pelo preço promocional de 1.250 Meticais até ao dia 6 de Fevereiro”, conclui a artista.