Desde os primórdios da civilização, a música tem sido uma força poderosa na narrativa da humanidade. No entanto, com o advento da inovação tecnológica, o cenário musical passou por uma transformação radical. Saiba como a evolução tecnológica impactou a criação, consumo e compartilhamento de música, levantando questões sobre sua identidade em uma era digitalizada.
A humanidade sempre foi regida pela música. Em sítios arqueológicos com mais de 40 mil anos, podem ser encontradas formas rudimentares de flauta. O homem usou da música como uma de suas primeiras expressões culturais, surgindo antes mesmo da agricultura ou da escrita. Em todas as sociedades do planeta, vemos a música presente em formatos diferentes e funções sociais variadas.
Com o desenvolvimento de novas tecnologias de informação e comunicação, a cultura consumida pela sociedade passou por um processo de fragmentação e desmassificação. Desse modo, a arte pode ser considerada como um dos elementos sociais que se transforma e modifica cada vez mais. Isso porque, historicamente, a arte é um fenômeno que se apropria tanto de técnicas, como de tecnologias do seu tempo presente. E a música, por sua vez, dentro da arte, é a que mais se comunica com a tecnologia, portanto, a que mais se altera conforme a evolução tecnológica.
O sistema de gravação, nos últimos 130 anos, interferiu na criação de novos estilos musicais, trouxe consigo novas possibilidades criativas e a massificação da música pela indústria, que com o passar dos anos, afetou sua diversidade, e hoje nos leva a consumi-la de outras maneiras.
Evolução histórica
Por muito tempo na música, era necessário a presença da performance instrumentista, o músico. Na história, percussionistas acompanhavam o exército, escravos se alternavam em cantos de sofrimento, soldados marchavam em guerras de expansão e imposições religiosas abriram caminho para trocas culturais. Alguns equipamentos autônomos, como pianolas e caixas acústicas, foram utilizados, mas sem substituir de fato o musicista como elemento central. Foi com a criação do rádio e do disco que se possibilitou a distribuição e audição de sons pré-gravados, e esse processo fez com que a humanidade mudasse a maneira de conviver com a música.
O som analógico foi marcado pela invenção de Thomas Edison, em 1877, com o fonógrafo. O aparelho possuía um cone acústico com uma agulha na ponta que riscava um cilindro de cera em movimento. E, de forma mecânica, com o disco girando e a agulha vibrando, o som era amplificado. O cone acústico de gravação era pouco sensível e só captava sons mais altos. Com a intenção de equilibrar o volume dos diferentes instrumentos era necessário, durante a gravação, distanciá-los de acordo com a sua potência sonora. Na hora do solo de trompete, por exemplo, o cantor sai da frente e dá lugar ao sopro, e assim, numa coreografia complexa, a gravação surgia de forma definitiva e sem possíveis correções.
Com a chegada de inventos baseados na eletricidade, o acesso à música se modifica novamente. Tecnologias de captação, microfonação e também a popularização dos rádios como sistema de distribuição de notícias e músicas, se tornam mais acessíveis, qualquer um que tivesse um receptor em casa podia ouvir, porém, a performance ainda era baseada na apresentação de instrumentistas em tempo real dentro do estúdio das emissoras.
Já com a chegada e evolução da fita magnética, desenvolvida pelos alemães na segunda guerra mundial, tornaram-se as captações tão reais que colocava em dúvida se eram realmente gravações ou orquestras tocando ao vivo.
No final da guerra, os Estados Unidos estudaram a tecnologia e comercializou. Logo, estúdios não precisavam mais da presença constante de músicos, e surgia, assim, o estúdio de gravação.
Em 1948, é lançado o disco de vinil e esse é adotado pelo mercado como mídia de reprodução caseira para as gravações feitas em estúdio. Logo, todos se acostumaram e se tornaram compradores vorazes desse novo meio de ouvir música.
Já o processo de gravação e distribuição ficava nas mãos de um novo tipo de empresa, as gravadoras, os selos.
Inicialmente, para o acesso a estúdios de gravação, era necessário desembolsar um grande valor, devido toda tecnologia que estava envolvida, além dos especialistas necessários para posicionar os microfones nos músicos, e também, para tratar o áudio captado. No começo da indústria musical, os artistas lançavam singles e compactos com duas canções, uma de cada lado. Elvis Presley baseou toda sua carreira com a venda desses formatos.
Ao longo dos anos 60, artistas como Beach Boys e Beatles começaram a utilizar formatos maiores, possibilitando se expressar com uma seleção de músicas mais coesas, os chamados discos conceituais. Assim, o pop e o rock tornaram o disco o principal produto da sua indústria.
Num primeiro momento, a música norte americana e inglesa passa a ser distribuídas como produto de consumo e ferramenta de domínio cultural. O rock começa a ser ouvido no Brasil e dá início ao movimento tropicalista que se apropria de elementos estrangeiros da música pop, e apresenta uma releitura em moldes brasileiros. Também surge aí a categoria “world music”, ou seja, tudo que não é originário dos mesmos países das gravadoras de origem. Os ritmos latino-americanos e africanos tomam sua vez. Gilberto Gil toca guitarra com Mutantes e David Byrne é acompanhado por uma orquestra de músicos latinos.
A música clássica, após certa resistência, também foi utilizada como imposição cultural. Compositores de séculos anteriores foram resgatados, difundidos e solidificados como um coletivo de obras clássicas.
Novos métodos de composição são criados com novas tecnologias. A música eletroacústica surge, utilizando-se de rolos de gravação e efeitos com instrumentos tradicionais, ampliando os formatos e versões que são lançados.
O som digital surge e faz a indústria da música se reinventar, acarretando na queda das vendas dos discos de vinil. A inovação tecnológica salvou as gravadoras neste momento tão recente da história. O som que era representado de forma analógica, ganha novo formato com a chegada do CD. A música pop aquece o consumo deste novo formato e expande o mercado, fazendo com que o público aceite pagar o dobro pela nova mídia, além de possibilitar que as pessoas passem a colecionar seus álbuns preferidos na versão disco digital.
Num estúdio analógico, o som captado é convertido em onda elétrica, percorrendo fios e equipamentos. No mundo digital, o som se representa por uma sequência numérica que mapeia o comportamento da onda sonora. Com a evolução, os computadores passaram a participar dos processos de gravação simulando e barateando muitos custos no processo de criação musical em um estúdio.
O que antes era inacessível, vai se tornando popular e tornando cada vez mais viável a aquisição de equipamentos. As mesas de som foram para dentro do computador, microfones barateados, e o que antes dependia de um grande estúdio para gravar, passou a ser possível ser produzido inteiramente em um notebook.
O som virtual surgiu com a popularização da internet nos anos 90 e a interface de comunicação acabou tendo papel fundamental nos métodos de transmitir a informação pela internet. O mp3 surge como um algoritmo que reduz drasticamente o tamanho do arquivo de áudio e, consequentemente, sua qualidade. Entretanto, essa perda era muito menos importante para os ouvintes do que a capacidade de ouvir e trocar músicas online com o mundo todo.
Em pouco tempo a internet se transformou no pesadelo das gravadoras, iniciando aí, de forma estrondosa, a pirataria digital e o declínio dos selos. Além da pirataria, a internet, pela primeira vez, permitia o contato entre o artista e o público, ou a troca de informação de um músico russo com um ouvinte no interior do Brasil.
Com a evolução dos sites, blogs e redes sociais, o mercado viu seu público consumidor se alterar completamente. Novos maneiras de consumir a música ampliaram também a criação musical. Álbuns que antes eram tradicionalmente vendidos, passam a dar lugar a singles e EPs lançados com maior frequência e distribuídos por sites de streaming.
Mais uma vez a indústria da música teve que se adaptar à evolução tecnológica de acordo com o hábito de consumo do novo ouvinte. Processos legais de registro fazem os grandes labels se reinventarem e começarem a comercializar além da obsoleta mídia física, mas também arquivos para download, acessos por assinatura e inúmeras músicas via canais digitais.
Toda essa evolução também modificou os tipos de músicas criadas. Elementos eletrônicos, sons mais digitais, sintetizadores, ferramentas de distorção e correção sonora se tornaram mais presentes na música atual. O mercado da música eletrônica, que até 30 anos atrás não era tão disseminado, hoje é tendência mundial, permitindo inclusive músicas eletrônicas ocuparem as primeiras posições em vendas no mundo todo.
A modernidade sonora alcançou o produtor e também o consumidor. A música que antes só podia ser apreciada se ouvida ao vivo, em moldes mais clássicos e acústicos, hoje é possível ser apreciada em qualquer lugar, como no celular, ou também ser totalmente produzida em um computador, seguindo timbragens e beats mais eletrônicos.
Toda a instantaneidade musical em que vivemos tornou as músicas com prazos de validade, além de ter gerado uma certa homogeneidade criativa. Hoje, dia após dia, o artista se vê na necessidade de inovar as formas de expressão, além de criar sua arte utilizando diversos formatos de captação, mixagem e finalização sonora, com o intuito de se mostrar, hoje, num meio tão facilitado e popularizado de produção, uma identidade musical que o diferencie no cenário tão acessível e instantâneo.
Diante de toda essa evolução tecnológica que revolucionou a forma como criamos, consumimos e compartilhamos música, surge a indagação: até que ponto a instantaneidade e a acessibilidade estão moldando a identidade musical de nossa era? Em um mundo onde a música pode ser produzida e apreciada em qualquer lugar, como os artistas estão se adaptando para se destacar em meio à homogeneidade criativa e atender às demandas de um público cada vez mais diversificado e exigente? A inovação tecnológica trouxe inúmeros benefícios, mas também desafios significativos para a indústria da música. Como será o futuro da música em um mundo cada vez mais conectado e digitalizado?















