Seguindo a linha de escritos sobre filmes, trago neste texto o filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson.

O Filme “A Paixão de Cristo” foi lançado em 2004. A Igreja passava por fortes momentos de crise, principalmente com a explosão dos casos de Boston. Contextualizando, ainda, vale ressaltar que o Papa João Paulo II, papa na época do lançamento do filme, também passava por sérios problemas de saúde, principalmente o agravamento do Parkinson (o Papa João Paulo II morre em abril de 2005). O enredo do filme, na teoria, já era conhecido, pois bastava uma leitura atenta dos 4 evangelhos para saber o desfecho de toda a história.

Mel Gibson, a meu ver, não fez somente um filme. Ele gerou no espectador uma experiência sensorial e espiritual de intensidade quase insustentável. "A Paixão de Cristo" é, antes de tudo, um trabalho de cinema radical, um filme que usa todas as ferramentas da sétima arte – da fotografia à edição, do design de som à maquiagem de efeitos especiais. Todo esse movimento foi feito não para contar uma história de forma convencional (e aqui vale ressaltar que existem muitos filmes referentes à vida de Jesus Cristo, inclusive contando sobre sua Paixão, Morte e Ressurreição), mas para mergulhar o espectador no evento central da fé cristã: as horas finais da vida de Jesus de Nazaré.

O site Rotten Tomatoes, renomado site sobre críticas cinematográficas, traz a seguinte sinopse do filme:

Nesta versão da crucificação de Cristo, baseada no Novo Testamento, Judas acelera a queda de Jesus (Jim Caviezel) entregando-o aos oficiais cuidadosamente selecionados do Império Romano. Para horror de sua mãe, Maria (Maia Morgenstern), Madalena (Monica Bellucci), a quem ele salvou da condenação, e de seus discípulos, Jesus é condenado à morte. Ele é torturado enquanto arrasta um crucifixo para o Calvário, onde é pregado na cruz. Ele morre, mas não antes de um último ato de graça1.

A meu ver, uma das escolhas mais audaciosas e definidoras do filme é a utilização das línguas consideradas mortas (Hebraico, Aramaico e Grego), com legendas. Esses idiomas eram falados no tempo de Jesus. Contudo, esta não é uma mera busca por realismo arqueológico ou preciosismo histórico, mas uma decisão estética de inteligência ímpar. Ao remover a familiaridade das línguas modernas (inglês, espanhol, italiano, francês...), Gibson força o espectador a uma posição de estranhamento, exigindo maior concentração. A comunicação passa a residir não no diálogo, mas no olhar, nos sentimentos, nos sons (gemido, respiração...), no sangue e na expressão física. O som das línguas antigas, aliado à trilha sonora cativante e, ao mesmo tempo, beirando o sobrenatural de John Debney, cria uma textura sonora que contrasta a humanidade e a divindade de Jesus.

A narrativa nada mais é do que uma via-crúcis cinematográfica. O enredo é esquelético, quase inexistente no sentido tradicional, isto é, não fica somente no campo linear da história, mas perpassa por outros momentos da vida de Jesus.

O que o diretor nos oferece é uma exploração prolongada e quase obsessiva do sofrimento físico. O corpo de Jim Caviezel, ator que interpretou Jesus Cristo, torna-se um quadro dentro do filme, ou seja, parte da narração passa diretamente pela transformação corpórea do ator. A maquiagem é peça chave, quase que com papel de protagonista. Cada chicotada, cada gota de suor e sangue, cada ferida exposta é filmada com um realismo cru, chegando a ser algo impensável e, ao mesmo tempo, com caráter de filme de terror.

Outro aspecto que trago é a filmagem. As imagens vão se aproximando dos momentos, das feridas, das marcas. Quase que colocando quem assiste dentro dos fatos.

No entanto, o filme não é apenas um catálogo de cenas fortes. Seus momentos de maior genialidade estão nos flashbacks que pontuam o caminho do Calvário, fazendo menções diretas à vida de Jesus, inclusive com insinuações a fatos que antecedem a sua vida pública. A cena da Última Ceia, onde Jesus ri e ensina aos discípulos, o momento em que ele está trabalhando com madeiras, ou o momento tocante em que, carregando a cruz, ele lembra de sua mãe o ensinando a caminhar, são contrapontos essenciais. São essas memórias que banham o sofrimento de significado, transformando um homem torturado no Cristo que, por amor, escolhe passar por tudo isso.

"A Paixão de Cristo" é, portanto, um filme que causa divisão por natureza. Não se pode ser ingênuo e não criticar sua violência gráfica, seu foco quase exclusivo nas ferramentas de tortura, e suas leituras de certas passagens do texto bíblico, alinhadas à teorias históricas de como se davam as condenações, flagelos e crucificações da época.

Contudo, não se pode, ingenuamente, negar seu poder como obra cinematográfica. Gibson, com primaz visão e domínio da técnica, criou um dos filmes religiosos mais visceralmente impactantes já realizados. Ele não convida à discussão teológica; ele convida à experiência – uma experiência de horror, piedade e, para muitos, de fé renovada, toda ela construída através da potência da imagem em movimento.

Nota

1 In this version of Christ's crucifixion, based on the New Testament, Judas expedites the downfall of Jesus (Jim Caviezel) by handing him over to the Roman Empire's handpicked officials. To the horror of his mother, Mary (Maia Morgenstern), Magdalen (Monica Bellucci), whom he saved from damnation, and his disciples, Jesus is condemned to death. He is tortured as he drags a crucifix to nearby Calvary, where he is nailed to the cross. He dies, but not before a last act of grace.