Dentro da sétima arte existem poucas unanimidades, cinéfilos se dividem entre apreciadores de vários estilos diferentes e têm gostos diversificados. Alguns apreciam o humor involuntário de um Ed Wood, outros o refinamento artístico de um Stanley Kubrick. Pode se tanto achar que os melhores filmes são os trabalhos ágeis e cheios de ação de John Woo quanto os filmes lentos e reflexivos de Michelangelo Antonioni. Entretanto, um dos poucos temas que são consenso está na apreciação pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock. O cineastas inglês foi um dos mais bem-sucedidos dentro do cinema, sendo visto por muitos como um dos melhores ou mesmo o melhor cineasta de todos. Mas qual a razão para tamanha apreciação?

Hitchcock realizava um cinema feito para ser apreciado por diferentes públicos, algo que tivesse contato com todas as tribos. Ainda que fossem filmes muito sofisticados, ele não buscava criar obras difíceis de serem compreendidas ou que mudassem a maneira de pensar do público. Era apenas entretenimento, um muito bem polido e bem cuidado, mas ainda assim puro entretenimento. Hitchcock dizia que enquanto outros filmes eram pedaços de vida, os seus eram pedaços de bolo.

Não fazia sentido pagar para ver filmes contendo partes do mundo cotidiano, pois as platéias poderiam conseguir isso do lado de fora do cinema. O realismo extremo não era importante, desde que não soasse tolo como ele dizia, o filme poderia ser inverossímil, mas nunca banal. Hitchcock representava a supremacia da forma sobre a substância. Seus filmes eram ocos, pois não tinham grandes reflexos dentro deles, apenas o suspense, mas eram conduzidos de modo tão eficiente que eram inegavelmente muito bons. Ainda que focasse no entretenimento ao invés da mensagem, Hitchcock nunca descuidou da complexidade e da criatividade em suas obras, era provavelmente o cineasta comercial que mais experimentou e inovou. Outros diretores de Hollywood que tentavam ir mais longe se arriscando tiveram suas carreiras prejudicadas por excesso de experimentalismo como Orson Welles.

Hitchcock começou a desenvolver seu estilo ainda na era muda, o que acabou marcando sua carreira. Ele focava antes de tudo em narrativas que usavam poucas palavras, como era adequado para um filme sem som, tudo ou pelo menos quase tudo, tinha que ser mostrado pelas câmeras com imagens e não com texto. Isso era o que Hitchcock chamava de cinema puro. O inglês tinha preferência por cenas curtas filmadas com precisão e que se encaixavam na história que ele tinha imaginado nos storyboards. Esse estilo de filmagem às vezes lhe dava problemas com alguns produtores, pois preferiam que filmasse muitas cenas para que pudessem editar mais livremente.

O cineasta inglês não se importava muito com atuação em seus filmes, achando o trabalho do ator secundário dentro das obras, em alguns de seus filmes é possível ver o ator virando rosto para não ter que expressar emoção, mostrando a preguiça de Hitchcock com esse aspecto técnico. O menosprezo pelos atores era tão grande que ele teria dito “atores são gado”. A indiferença à mensagem da obra ou as interpretações fizeram com que o diretor recebesse críticas de outros cineastas, Orson Welles foi um deles que dizia que Hitchcock seria esquecido com o tempo, o que é claro que não aconteceu. Ainda que Hitchcock sofresse limitações, dificilmente se aventuraria fora do seu estilo característico e sempre trabalhando dentro do seguro. Ele não se restringia a apenas realizar os mesmos trabalhos sempre. Longe disso, em cada uma de suas obras tentava inovar de alguma forma.

Apesar de suas limitações, Hitchcock era muito eficiente em seu estilo próprio de fazer filmes, sendo provavelmente o melhor diretor de suspenses de todos os tempos. A sua influência no gênero é tão grande que vários cineastas até os dias atuais são marcados por seus estilo, mesmo diretores renomados como Roman Polanski e Brian DePalma beberam fartamente da fonte hitchcockiana. O segredo do diretor inglês era prolongar as cenas de suspense o máximo possível para “torturar” o espectador preso em um momento de tensão. Muitas vezes ele confinava a cena, ou mesmo toda a duração do filme em um único recinto para aumentar a angústia das plateia, como em “Disque M para Matar” quase todo ambientado em um apartamento.

Um dos filmes em que Hitchcock usou com maestria essas técnicas foi no clássico “Festim Diabólico”, na obra dois amigos assassinam um colega de classe e depois decidem dar uma festa para os parentes e colegas da vítima. O corpo está dentro de um baú em cima do qual está posta a comida e bebida. Durante toda a duração da festa, os dois assassinos falam longamente sobre se seria lícito assassinar alguém e por que alguns indivíduos são superiores a outros. Todo o filme se passa dentro da casa com o corpo podendo ser descoberto a qualquer instante. Em um dos momentos da trama, a corda que enforcou a vítima está pendurada do lado de fora do baú, o que pode levar algum dos convidados a descobrir tudo, a câmera então atravessa mostrando a corda e os convidados, passando próximo da corda a amostra, estimulando o público acreditar que será vista, resta apenas o público torcer em agonia.

O estilo de torturar o público de Hitchcock muitas vezes envolvia mostrar os planos, especialmente do vilão, dar errado e o personagem ser obrigado a sair do seu caminho para corrigir seus erros, o que deixava o público na curiosa posição de acompanhar a trama pelo ângulo do assassino. Um exemplo disto está em “Frenesi” em determinado momento, o assassino após um dos seus ataques deixa o corpo da vítima em um caminhão cheio de batatas. Mas só depois percebe que seu colar ficou preso na mão da vítima, o que o obriga a correr até o caminhão e subir nele para tirar o objeto, ou seria identificado quando o corpo fosse encontrado. Mas ao alcançar o veículo, o corpo já está em rigor morte, então o vilão tem que lutar para arrancar o colar sem despertar a atenção do motorista.

A mesma técnica pode ser vista em “Disque M para Matar”. Um homem deseja matar sua esposa então contrata um velho conhecido para o crime, o plano é ligar para casa, e espera a esposa atender enquanto o assassino espreita por trás, quando ela abaixar o telefone ele poderá enforcá-la. Mas na hora de ligar para a própria casa, o vilão começa a passar por pequenas dificuldades, como a cabine telefônica estar ocupada podendo assim atrasar a ligação que precisa ser na hora exata, ou a vítima demorar muito a baixar o telefone. Tudo isso serve não apenas para deixar a cena mais longa, mas também para aumentar a angústia do público esperando o momento derradeiro quando a mulher será atacada.

Seu estilo de segurar a tensão é que fez grande parte de suas obras serem icônicas e um verdadeiro manual de como construir tensão no cinema. Sem surpresa os europeus adoravam o estilo de Hitchcock, os franceses consideravam-no um exemplo de que mesmo trabalhando dentro de um rígido sistema de estúdios, um cineasta realmente talentoso poderia imprimir seu estilo próprio em suas obras sendo um verdadeiro autor. Já os italianos criaram um subgênero inteiro apenas para copiar seu estilo de suspense, o giallo no qual vários cineastas brilharam como Mario Bava, Dario Argento e Sergio Martino.

No final da carreira, Hitchcock começou a sofrer para que seus filmes mantivessem o sucesso do passado. A razão para isso foi a mudança dentro do público. Os filmes hitchcockianos mais antigos apelavam para plateias mais adultas e eram obras mais sutis e que geralmente contavam com humor e atmosfera mais leve. Mas depois que Hitchcock criou a obra-prima “Psicose” , revolucionando os gêneros de horror e suspense, uma nova leva de fãs, em sua maioria jovens e que apreciavam obras mais violentas e sombrias, se formou em volta do cineasta.

Agradar os dois públicos ao mesmo tempo era difícil, seus novos filmes deviam ser suspenses mais sutis ou mais explícitos? Hitchcock tentou contornar essa barreira realizando obras que fossem sutis durante sua duração, mas contivessem momentos mais brutais em determinados momentos para o impacto. Isso gerou filmes levemente irregulares, mas ainda assim de grande qualidade como “Os Pássaros” e “Cortina Rasgada”. “Os Pássaros” trazia um inexplicável ataque de animais aos humanos quase por razões sobrenaturais, ainda que o diretor trabalhe o suspense sugerido durante a maior parte do filme possui momentos mais violentos. “Cortina Rasgada” por sua vez mesmo sendo um suspense de espionagem tem uma das cenas de assassinato mais emblematicas do cinema por sua prolongada duração.

Ainda assim o diretor teve dificuldades no fim da carreira, pois buscava realizar obras mais violentas (visto que a censura estava se esvaindo), mas os produtores o proibiram com medo de ser polêmico demais. Hitchcock já muito velho, com a saúde debilitada e não tendo mais o mesmo sucesso do passado decidiu de aposentar. Não havia mais necessidade de esforço, seu legado para a sétima arte era inesquecível, todo o gênero do suspense para as futuras gerações seria marcado por ele e suas obras-primas.