Ao subir ao palco do Globo de Ouro para receber o prémio pelo seu desempenho em Valor Sentimental (Sentimental Value - 2025), o ator Stellan Skarsgård proferiu um dos mais belos discursos das últimas temporadas de premiações. Agradeceu a sua família, como de praxe, mas destacou algo mais raro: a alegria de ver um filme norueguês, independente e sem orçamento para publicidade alcançar o público daquela maneira e, sobretudo, ser visto no cinema, segundo ele, uma espécie em extinção. E concluiu com uma imagem simples e perfeita: num cinema, quando as luzes se apagam e eventualmente você divide o braço da cadeira com outra pessoa, isto é magia! Cinema deve ser visto no cinema.

Talvez a facilidade hoje de assistirmos a quase qualquer filme, a qualquer hora, no conforto de casa, esteja nos causando uma intoxicação pelo excesso. São tantos filmes, séries, documentários, animações e produções audiovisuais disponíveis sob o nosso comando que perdemos o ato de sairmos do nosso ambiente e mergulharmos no universo da sala escura, onde absorvemos de forma única as histórias, os dramas e as emoções da forma como essas obras foram imaginadas e produzidas por seus autores.

Sou da geração que cresceu com a televisão, com número reduzido de canais e sem opção de escolha. Nem mesmo a palavra conteúdo era utilizada, mas sim programação. Isto é, a emissora de TV programava a exibição do conteúdo de sua propriedade conforme uma grade de horários, planejada conforme sua viabilidade comercial e a faixa etária dos telespectadores.

Eu devo muito da minha formação cinematográfica à televisão, com a sorte de ter tido acesso a filmes de diferentes origens, não apenas às produções norte-americanas, mas ao cinema europeu e japonês dos anos 1960 e 1970. Entretanto, o cinema passou a ser meu refúgio e minha escola paralela. O prazer da sala escura, da imagem projetada, da luz que se transforma em histórias e, como disse Skarsgård, a disputa do braço da cadeira com um estranho compõem uma experiência difícil de reproduzir fora dali.

Até os anos 1980 os filmes eram feitos primordialmente para o cinema, para serem vistos coletivamente. A chegada do videocassete, depois da TV a cabo e finalmente do streaming, mudou não apenas o consumo, mas também a forma de produção, e educou (para o bem ou para o mal) as novas gerações quanto a como um filme deve ser assistido.

Mas a cultura tem seus ciclos. Quando atingimos um limite de excessos e facilidades em um determinado meio, tendemos a retomar uma forma mais simples de execução e de experimentação. Temos acesso hoje a qualquer música produzida no mundo, desde sempre, mas como explicar o retorno vigoroso de se ouvir música em discos de vinil? Tinha-se de colocar um disco no gira-discos, sentar-se e praticamente degustar a música, na sequência em que o autor a planejara. O mesmo ocorre com a fotografia analógica, que retorna como experiência estética e tátil em meio à abundância de câmeras digitais nos telefones.

E por que não assistirmos a filmes de todos os tempos numa sala de cinema, como foi projetado para ser assistido?

Os estúdios e distribuidores de cinema começam a perceber este filão e a encontrar uma forma de extrair mais receitas de seus filmes proprietários: relançar os clássicos e sucessos de bilheteria nos cinemas, como celebração de seus aniversários.

Os amantes do cinema, como eu, não poderiam estar mais satisfeitos com essa tendência, afinal, rever aquele filme amado na telona é uma experiência impossível de replicar na sala de estar, não importa o tamanho da sua TV.

Fui assistir no cinema a Tubarão (Jaws - 1975), obra-prima do jovem desconhecido Steven Spielberg, que comemorou recentemente 50 anos de sua primeira exibição. Eu assisti a este filme no cinema, na sua estreia no Brasil em 1976. Lembro que fiquei completamente traumatizado e com pavor de encontrar um tubarão no mar de Ipanema.

Eu tinha 10 anos de idade e, embora o filme fosse permitido apenas para maiores de 14 anos, minha mãe me levou ao cinema e, de algum jeito, colocou-me lá dentro. Assistimos juntos ao filme, um típico programa de mãe e filho. Pelo menos para mim.

Eu já revi o filme umas 20 vezes, mas confesso que a recente sessão de cinema foi tão vibrante, tensa e assustadora quanto a de 50 anos atrás.

Outros clássicos também voltaram aos cinemas em sessões comemorativas: os 40 anos de De Volta para o Futuro (Back to the Future - 1985); os 45 anos de O Iluminado (The Shining – 1980); os 60 anos de Música no Coração (The Sound of Music - 1965); e os 25 anos da trilogia O Senhor dos Anéis (Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring - 2000).

Foi uma experiência única rever O Senhor dos Anéis no cinema. Embora já tivesse visto o filme várias vezes em casa, eu não o assistira no cinema na época do lançamento. Agora, tive a oportunidade de rever e apreciar a grandiosidade desse filme.

O cinema nos proporciona a concentração total e a imersão que filmes como O Senhor dos Anéis requerem. A magnitude da história, a riqueza dos ambientes e a complexidade dos personagens só podem ser inteiramente entendidos e apreciados no cinema. Há filmes assim, que precisam de uma tela gigante, de um sistema de som impactante e da energia coletiva para respirarem, para existirem.

A sala estava cheia, quase lotada, e há muito tempo eu não escutava aplausos efusivos ao final de uma sessão de cinema. A certeza de que ali, por três horas, vivenciamos um clássico da sétima arte.

Cada um dos filmes da trilogia foi exibido apenas um único dia nos cinemas. Uma pena!

Eu sinceramente torço para que essa moda pegue. Que distribuidores e exibidores tenham retorno comercial para esse tipo de iniciativa. Li uma matéria e perdoem-me por não ter a fonte precisa: a pré-venda de bilhetes para O Senhor dos Anéis nos Estados Unidos rendeu 5 milhões de dólares. Quem sabe os distribuidores promovam uma temporada mais alargada diante dos bons resultados. Estou na fila.

Entre as décadas de 70 e 90, era comum no Brasil a reexibição de clássicos nas salas de cinema. Muitas vezes era uma estratégia de preenchimento de conteúdo por parte dos exibidores, que já possuíam os filmes, ou das distribuidoras, para garantir seu espaço de exibição, ou ainda a exibição de acervos de cinemas alternativos do circuito de arte.

Foi assim que assisti a clássicos do cinema como Casablanca, Cidadão Kane, os filmes de Truffaut, Godard, Fellini, Antonioni, quase todos os de Hitchcock, e até um Metrópolis de 1927, remasterizado, colorizado e com músicas do Queen. Essas sessões ajudaram a formar gerações de cinéfilos.

Vivemos hoje um paradoxo em que a tecnologia nos permite produzir filmes de altíssima qualidade técnica e a internet cumpre a profecia de nos tornarmos uma aldeia global e nos garante acesso ao cinema do mundo inteiro. Ainda assim, são poucos aqueles filmes que nos tocam, nos emocionam e nos fazem refletir sobre a vida, sobre as relações humanas e sobre o mundo.

Na ânsia de produzir conteúdo em quantidade para abastecer as mídias e os streamings, não perdemos a qualidade artística? Será por isso que os clássicos nos cinemas estão a voltar e a cativar uma audiência?

Talvez não seja apenas nostalgia. Talvez o verdadeiro cinema ainda precise do cinema para existir plenamente.