Não há como negar que grande parte das palavras tem significado independentemente do contexto. Somos capazes de atribuir um significado a palavras como árvore, branco, cadeira e café mesmo que elas apareçam isoladas, já que elas têm significados mais ou menos permanentes.

Por outro lado, não se pode negar que, dependendo do contexto, o significado mais ou menos permanente que aquelas palavras possuem pode se alterar. Árvore na expressão árvore genealógica já não designa um vegetal lenhoso. Branco pode referir-se a uma determinada etnia, cadeira pode significar uma disciplina, ou os quadris.

A palavra branco pode ser empregada para designar algo que na verdade não é de cor branca, como na expressão vinho branco. Nela, branco designa uma cor que oscila entre o amarelado e o âmbar. Uma pessoa branca não tem evidentemente a cor da neve ou do leite. A palavra café pode designar uma bebida aromática, o fruto do cafeeiro, um estabelecimento comercial, ou um momento da refeição em que se toma essa bebida.

Por isso os estudiosos do significado sempre procuram estudar a significação em relação aos contextos em que as palavras são empregadas e em relação aos usuários da língua, já que alguém pode dizer algo com a intenção de significar exatamente o contrário do que a palavra exprime normalmente, como nas ironias, por exemplo.

Por outro lado, o contexto é fundamental para se precisar o significado de homônimos, palavras que possuem a mesma pronúncia ou a mesma grafia, mas significados diferentes como concerto / conserto e acento / assento e cela.

Empregamos aqui a palavra contexto em sentido amplo. Para nós, ela designa não só o cotexto, ou seja, o conjunto das sequências de frases e períodos (contexto linguístico ou ambiente verbal), mas também o contexto situacional, vale dizer, as condições gerais em que a língua é falada, o contexto não linguístico: condições sociais, psicológicas, culturais de produção etc.

Dessa forma, o significado das formas linguísticas não deve ser buscado apenas em relação ao contexto linguístico, mas também em relação ao contexto situacional. Em nosso contexto cultural, bárbaro tem conotação positiva. No contexto cultural da antiga Grécia, significava estrangeiro. Em outros contextos culturais, significa cruel, desumano.

Criação de palavras

Uma língua é formada por um conjunto de palavras e um conjunto de regras que nos permitem combinar as palavras em unidades de sentido, ou seja, a língua é formada por um léxico e uma gramática. O léxico, ao contrário da gramática, constitui um conjunto aberto, vale dizer, o número de palavras de uma língua é bastante extenso, mas não é fixo.

Há palavras que deixam de ser usadas, como vitrola, reclame, charneca, anágua, chofer, desassisado, vitupério, tílburi, beleguim, fotocópia, tísica, lornhão.

No trecho a seguir, Machado de Assis emprega a palavra parede num sentido em que não é mais usada atualmente (o de greve).

Quando os jornais anunciaram para o 1° dia deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi mui diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao céu. Boa ocasião para converter esta cidade ao vegetarismo.

(Assis, Joaquim Maria Machado de. A semana. In Machado de Assis. Obra completa vol. III. Rio de janeiro: Aguilar, 1973, p. 576-7)

Por outro lado, é comum surgirem palavras novas: printar, plugado, instagramável, flopar, uberização panelaço, showmício, apagão, camelódromo e carreata são exemplos de palavras mais ou menos recentes em nossa língua.

De onde vêm as palavras?

Essa é uma pergunta que há muito inquieta filósofos e linguistas: Grande parte das palavras provêm de outras, sejam elas da mesma língua ou de outras, os chamados empréstimos vocabulares.

Quanto a palavras que provêm de outras da mesma língua, é importante destacar que não são todas as classes gramaticais que permitem a criação de novas palavras. Os artigos da língua portuguesa são o e um (e suas flexões), não havendo a menor possibilidade de surgirem novos artigos.

Por outro lado, podemos observar a criação de novos substantivos, adjetivos e verbos. Temos, em português, classes de palavras abertas, aquelas que possibilitam a criação de novas palavras (substantivo, adjetivo, verbo, advérbio, interjeição) e classes de palavras fechadas, aquelas que não possibilitam a criação de novas palavras (artigo, preposição, conjunção, pronome).

No que se refere aos verbos, salientamos que a primeira conjugação é a que possibilita a criação de novos verbos, como exemplos podemos citar os verbos uberizar, sextar, flopar, escanear, printar, deletar, desamigar...

Os processos pelos quais se criam novas palavras (os neologismos) são basicamente os seguintes:

  • As onomatopeias: palavras cuja forma fônica procura reproduzir aproximadamente sons ou ruídos como em Chega de mimimi.

  • A abreviação ou encurtamento: uma parte da palavra passa a designar o todo, por exemplo: moto (por motocicleta); foto (por fotografia); cine (por cinema); lipo (por lipoaspiração); ex (por ex-marido ou ex-mulher); micro (por microcomputador); zoo (por zoológico).

Um caso interessante de abreviação é aquele em que a redução se dá por omissão de um termo. É o caso de fritas (no lugar de batatas fritas); celular (no lugar de telefone celular); paralelo (no lugar de mercado paralelo); bolsa (no lugar de bolsa de valores).

  • Os empréstimos: não havendo uma palavra na língua toma-se por empréstimo palavra de outra língua: zipar (do inglês: to zip); mídia (do inglês: media); informática (do francês: informatique); imbrólio (do italiano: imbroglio) etc.

Caso digno de nota de empréstimo linguístico é o decalque, que é a tradução de uma palavra ou expressão estrangeira para o português. A palavra cachorro-quente (nome de um sanduíche de pão com salsicha) não é formada pela junção das palavras portuguesas cachorro e quente, ou seja, não é formada por composição, mas resulta da tradução literal da palavra inglesa hot dog.

Como outros exemplos de palavras formadas por decalque, podemos citar: lua-de-mel (do inglês: honeymoon); cartão de crédito (do inglês:credit card); fibra de vidro (do inglês: fiberglass); controle remoto (do inglês: remote control); novo-rico (do francês: nouveau rich); montanha-russa (do francês: montagne russe, adaptação do alemão rutschenberg, “monte escorregadio”) etc.

  • A composição e a derivação: na composição juntam-se duas ou mais palavras para formar uma nova; na derivação agrega-se um afixo a uma palavra primitiva, como nos exemplos a seguir: bebemorar, portunhol, terceirizar, marmitex etc.

  • A transferência de sentido: consiste em usar o nome de alguma coisa que já existe para designar algo novo, por haver entre os conceitos relações ou de semelhança ou de contiguidade. As metáforas e as metonímias constituem exemplos de palavras formadas por derivação de sentido como ocorre quando usamos a palavra gato(a) para nos referirmos a uma pessoa muito bonita ou quando usamos o verbo bloquear referindo-se ao ato de impedir que outras pessoas tenham acesso a nossas páginas em redes sociais.