Se o tempo fosse infinito, tenho a certeza quase absoluta de que a minha capacidade criativa para inventar desculpas aumentaria exponencialmente. Se há algo em que somos exímios, é na arte de não fazer nada enquanto fingimos que fazemos tudo. Somos, afinal, os melhores amigos da procrastinação.
Ignoraria os livros a que prontamente me proponho e que, por vezes, têm por tema o desenvolvimento pessoal, e abdicaria de regras essenciais como a dos 5 segundos de Mel Robbins, que tantas vezes tento aplicar (ps: experimente, que resulta!).
Digo a mim mesma inúmeras vezes que 24h são insuficientes. Não chegam para tanta coisa que queremos fazer num par de anos que a vida nos concede. Mas penso que a organização é que não está alinhada com os meus objetivos. Insisto que preciso de mais tempo para tudo aquilo a que me proponho.
Acredito piamente que, com mais uma hora, faria planos grandiosos. O meu “eu” idealizado organizaria a agenda por códigos de cores, sublinharia prioridades com marcadores fluorescentes e colaria post-its com uma caligrafia irrepreensível. Mas, sejamos honestos, a verdade é que não daria vazão a tudo. Porque é que esta geração quer fazer tudo em tão pouco tempo?
A verdade é que acordo todos os dias com a convicção, quase religiosa, de que preciso de mais horas do que aquelas que a rotação da Terra, na sua avareza astronómica, me concede. Vinte e quatro horas parecem-me um insulto pessoal. Um erro de design do Universo. Não chegam para tanta tarefa, sejam as deslocações, o foco no movimento diário, a lida doméstica, o trabalho, a vida académica ou até a vida social.
Das duas uma: ou temos uma 25ª hora, ou então preciso de dormir menos! Mas algo que com o aumento da idade aprendi é que dormir é realmente um privilégio. O tempo, esse tirano invisível, é composto por metas que tento alcançar numa corrida de obstáculos onde eu sou, simultaneamente, o atleta e a barreira.
Estabeleço objetivos que devem ser pensados, repensados e, preferencialmente, adiados. Talvez seja um problema geracional esta neurose de que o “vazio” é um pecado capital. Fomos educados com a ideia de que uma agenda sem espaços em branco é sinónimo de sucesso, quando na verdade é apenas um atestado de má gestão e, arrisco dizer, de um certo masoquismo.
O objetivo deve ser claro: ser produtivo, mas manter a saúde mental em dia parece uma tarefa dúbia. Talvez manias das novas gerações.
Digo a mim mesma que é excesso de ambição, excesso de atividades a que me proponho nesta sofreguidão de viver tudo ao mesmo tempo. Ou excesso de responsabilidades que advém também de uma certa liberdade. Quiçá...
Mas se essa hora extra me fosse concedida, seria muito provavelmente gasta a reorganizar gavetas que não precisam de ordem, a debater mentalmente diálogos que nunca tive (mas nos quais venci com argumentos brilhantes) ou a sucumbir ao scroll infinito das redes sociais, o verdadeiro ópio da humanidade moderna. Mas que sabe tão bem. Porque, sejamos francos, a nossa capacidade de desperdiçar tempo é a única coisa verdadeiramente infinita nesta equação.
De peito cheio afirmamos que o tempo é um “bem precioso”, que deve ser dedicado ao progresso, à dedicação, à paixão e a todas essas palavras bonitas que ficam bem em postais ou em palestras motivacionais. Dizemos, com um ar grave, que “este segundo que passou não voltará mais”.
Mas abdicamos do nosso tempo pessoal para dar tempo, por vezes, aos outros e a atividades que não nos completam. E, quando finalmente sobra um momento para nós, o que fazemos? Procrastinamos.
Portanto, sim, preciso de mais horas. Não para ser mais produtiva, nem para salvar o mundo. Preciso de mais horas apenas para poder procrastinar com a dignidade e a calma que um verdadeiro intelectual merece, sem esta culpa constante de quem olha para o relógio e percebe que, mais uma vez, o dia acabou e a lista de “coisas a fazer” continua a olhar para mim, intacta e julgadora.
A eficiência, a organização e a simplicidade estão a revolucionar o mundo. As prioridades devem, por isso, ser devidamente alinhadas, e a organização permite uma cabeça limpa e um progresso constante.
A tal “lista de metas que me escapam”, de que tanto me queixo, não é fruto da escassez de horas; é fruto da minha incapacidade de dizer “não”. No fim, culpo o relógio. É uma desculpa perfeita. O tempo é o bode expiatório mudo que carrega a culpa da minha desorganização crónica.
Assim, podemos fingir que somos vítimas do calendário. Quando, na verdade, somos reféns da nossa mentalidade, tal como da nossa incapacidade de estar quietos.
Por fim, preciso de mais horas do que aquelas que o dia me dá. Isto e umas mentiras que conto a mim mesma, porque ainda não entendemos que o tempo é uma prerrogativa.















