A opinião pública sempre foi preocupada com o conteúdo exibido nos lares para as massas de espectadores. Constantemente houve aqueles que achavam necessário que a programação transmitisse bons valores com bem e mal claramente definidos; outros acreditavam que as histórias deviam ser mais realistas e apresentar personagens mais complexos e ambíguos como na vida real. Tradicionalmente, os produtores sempre estiveram mais inclinados ao maniqueísmo em seus programas, com vilões e heróis bem estabelecidos e finais felizes que deixavam claro que o bem sempre triunfava e era recompensado. Esse otimismo idealista foi marcante na cultura ocidental, principalmente na indústria de massa americana, que sempre prezou pelo moralismo.

A relação conflituosa da televisão com a opinião pública é antiga, podendo ser traçada desde que foi criada a censura na televisão americana. Conhecido popularmente como “Television Code”, o código de regras ditou por três décadas o que os produtores poderiam exibir para o público. O código foi criado no começo dos anos 1950 e ganhou especial relevância após o assim chamado “escândalo do programa de perguntas e respostas”.

O escândalo ocorreu, pois shows de auditório com apresentadores fazendo perguntas aos convidados eram muito populares na década de 1950. Ainda que frequentes, também eram enviesados, pois muitas vezes os apresentadores favoreciam um participante sobre seus concorrentes. O objetivo era tornar a competição mais interessante e melhorar a audiência. Quando essas trapaças se tornaram públicas, houve grande incômodo entre os espectadores, que se sentiam enganados.

A reação foi tão ampla que o Congresso foi obrigado a revisar a legislação para transmissões televisivas, proibindo de forjar resultados em competições. Os produtores, temendo novas intervenções do governo, decidiram criar um sistema de censura próprio para evitar que uma regulação estatal fosse estabelecida. Tal estrutura de uma “censura privada” também existia há muitos anos dentro dos filmes de Hollywood e vinha ganhando forma nos quadrinhos.

A sociedade dos anos 1950 era marcada por uma cultura de medo, em que se temia constantemente que a civilização judaico-cristã estivesse sitiada por seus inimigos, fossem eles comunistas, homossexuais ou jovens arruaceiros. Logo, parecia óbvio para muitos que a televisão precisava ser regulada para não ameaçar o bem da sociedade. O medo de conteúdo violento era comum, assim como a confusão entre fato e ficção, já que havia muitos docudramas na programação.

Esse temor pode parecer exagerado num primeiro momento, mas apenas uma década antes o famoso Orson Welles havia feito uma transmissão radiofônica de ficção disfarçada de noticiário, anunciando que marcianos haviam invadido os Estados Unidos, o que causou pânico no país. Logo, alguém com a tecnologia superior da televisão poderia causar um estrago ainda maior.

O código televisivo instituído depois do escândalo era severo e refletia a moralidade cristã dos anos 1950, com proibição de palavrões, de denegrir a imagem da família, blasfemar contra Deus, retratar sexo ou vício, ou criticar representantes da lei. Pelas décadas seguintes, o código foi uma força constante pesando sobre a liberdade criativa dos artistas. Entretanto, à medida que a sociedade mudava, a censura foi perdendo relevância, sendo finalmente abolida nos anos 1980.

Com a censura abandonada, os produtores tiveram pela primeira vez ampla oportunidade de fugir das restrições da moralidade pública, criando histórias mais cínicas e ambíguas. Grande parte dessa evolução aconteceu nos anos 1990, e um dos grandes passos foi dado pela sitcom “Seinfeld”. Ao contrário de outros programas do formato, o show não tinha uma linha moral clara, centrando-se em um grupo de quatro amigos que eram pessoas comuns, na realidade bastante egoístas e mesquinhas.

Inicialmente os personagens eram mais simpáticos, mas à medida que o programa evoluiu e o público não demonstrava desconforto com as maldades do grupo, os roteiristas passaram a torná-los mais desagradáveis. O programa foi um grande sucesso e se tornou um marco da televisão, inspirando outras séries de premissa similar como “Friends”, que trazia um grupo de amigos de longa data com suas respectivas falhas de caráter, e “Two and a Half Men”, centrada na figura do hedonista e irresponsável Charlie Harper.

Charlie, ainda que fosse egoísta, mentiroso e desonesto, quase sempre levava a melhor sobre figuras mais íntegras, pois tomava o caminho mais fácil e inteligente para o sucesso, além de contar com sua imensa sorte, que o protegia das consequências de seus atos. Estava sendo construído o cenário para histórias moralmente cinzentas, com personagens de índole falha prosperando no horário nobre.

Como acontece com algumas pessoas à frente de seu tempo, certas inovações não são aceitas de imediato, apenas para serem valorizadas na posteridade. Foi isso que ocorreu com a chegada dos anti-heróis na televisão. A primeira tentativa de criar um personagem desse tipo no horário nobre foi mal recebida, sendo aceita apenas anos depois. Esse primeiro momento veio com a série “Profit”, exibida no canal Fox americano, uma produção incompreendida quando lançada.

O show trazia um empresário inescrupuloso disposto a cometer crimes para manter seu império financeiro. Conhecido como Jim Profit, o personagem era uma ácida crítica à América corporativa. “A linha que a maioria das pessoas diz que não cruzará… geralmente é algo que elas já fizeram quando achavam que ninguém estava olhando” era um de seus lemas.

Desde o início, a série foi alvo de críticas implacáveis de espectadores acostumados a programas moralistas com personagens que encarnavam a justiça. Muitos acreditavam que os realizadores estavam tentando transformar o protagonista em um herói, em vez de enxergarem a proposta como uma história centrada em um vilão carismático. O personagem central chegou a ser chamado de “Satanás de Terno” pelo público.

A má recepção fez com que a série fosse cancelada após apenas oito episódios. Ainda assim, o futuro foi mais generoso com o programa, que recebeu críticas excelentes da posteridade e passou a ser visto como injustamente cancelado, merecendo maior atenção. Mesmo com o fracasso de “Profit”, a série deixou um rastro na televisão americana: a figura do anti-herói amoral, carismático e relacionável, mas claramente vilanesco, cresceria nos anos seguintes.

Se os anti-heróis encontravam dificuldades para prosperar na televisão aberta, um caminho mais receptivo existia na televisão a cabo. Buscando exibir programas mais ambiciosos para um público mais sofisticado, adulto e exigente, esses canais estavam mais dispostos a apostar em produções cínicas e amorais, centradas em personagens de moralidade cinzenta.

Entre esses veículos, destacou-se o jovem canal HBO, que buscava se diferenciar como uma forma de televisão superior, resumida em seu lema: “Não é TV, é HBO”. Mesmo os executivos do canal admitiam que não importava se o personagem era correto, apenas se sua jornada era interessante de acompanhar.

Um dos primeiros trabalhos com essa moralidade cinzenta foi “OZ”, série ambientada em uma prisão que não possuía um protagonista central. O show apresentava diversos detentos vivendo em confinamento, cada um com uma personalidade distinta. Nenhum era inteiramente bom, exibindo variados graus de ambiguidade moral, desde personagens desprezíveis com poucas qualidades redentoras até figuras simpáticas, mas com falhas de caráter.

“OZ” obteve sucesso moderado, mas pouco depois a HBO alcançou sua maior conquista com a clássica e marcante série “The Sopranos”, que trouxe o mundo do crime para fora das grades e para mais perto da realidade cotidiana. Ambientada no submundo da máfia, a série girava em torno de bandidos que seguiam as leis da omertà, o código de honra da máfia italiana.

“The Sopranos” tornou-se rapidamente a série mais aclamada da história da televisão americana e consolidou a HBO como sinônimo de qualidade. Mais do que isso, abriu definitivamente as portas para a ascensão dos anti-heróis na televisão. Durante a primeira década do século XXI, especialmente nos canais a cabo, o meio foi inundado por esse tipo de protagonista.

Enquanto histórias tradicionais apresentavam heróis honrados em mundos otimistas, nos quais bastava seguir as regras para que tudo desse certo, os anti-heróis habitavam submundos complexos e sombrios. A vida não era justa, todos tentavam trapacear, e esses personagens precisavam agir de forma desonesta para sobreviver.

Muitos tentavam manter um mínimo de moralidade, trazendo justiça apenas àqueles sob seus cuidados imediatos, já que o sistema maior não permitia virtude plena. Ainda que vivessem em contextos obscuros, os anti-heróis também conviviam com pessoas honestas e, por isso, precisavam transmitir uma aparência de respeitabilidade e cidadania que não condizia com quem realmente eram.

Entre as séries desse período estava “The Shield”, que apresentava o policial corrupto Vic Mackey, chefe de um esquadrão de elite praticamente imune à fiscalização interna. O grupo utilizava esse privilégio para benefício próprio, roubando drogas apreendidas para revenda e chegando a assassinar outros policiais que ameaçavam suas atividades.

Apesar disso, Vic não era retratado como inteiramente mau. Ele tentava proteger vítimas de criminosos, enfrentava traficantes e assediadores e, embora abusivo em seus métodos, tinha como alvos prioritários indivíduos ainda mais cruéis. A estratégia narrativa de colocar protagonistas moralmente cinzentos contra rivais mais sombrios tornou-se comum, pois permitia manter o público torcendo por personagens falhos.

Por mais que suas atitudes fossem erradas, as principais vítimas de suas ações eram pessoas vistas como merecedoras de punição, o que reduzia a empatia do público por elas. Muitos desses protagonistas também eram figuras quebradas, com passados traumáticos, o que ajudava a explicar suas personalidades problemáticas e facilitava a identificação do espectador.

Uma das séries que utilizou essa fórmula com grande sucesso foi “Dexter”, do canal Showtime, centrada em um serial killer chamado Dexter Morgan. Apesar do tema sombrio, a narrativa estabelecia que Dexter se tornara assassino após testemunhar o assassinato da mãe. Adotado por um policial que lhe transmitiu valores morais, ele passou a matar apenas criminosos, assimilando parte da ética do pai adotivo.

Assim, mesmo motivado por impulsos violentos, o público podia enxergar em Dexter uma figura “heroica”, ainda que de forma distorcida. O sucesso da série levou o Showtime a investir em outras produções focadas em anti-heróis, como “Ray Donovan”, lançada após o término de “Dexter”.

Donovan era um “fixer”, um solucionador de problemas para celebridades, encarregado de apagar escândalos e esconder constrangimentos. Para isso, realizava pequenas transgressões como agredir valentões, falsificar evidências e intimidar testemunhas. Ainda assim, não era completamente amoral, pois estava disposto a ajudar pessoas em dificuldades, mesmo por meios questionáveis.

Grande parte de sua personalidade vinha da relação conflituosa com o pai agressivo e preconceituoso, que maltratava os filhos apesar de demonstrar algum afeto. Outra produção do canal, desta vez com tom humorístico, foi “House of Lies”, que apresentava Marty Kaan, um psicopata manipulador do mundo da consultoria corporativa.

Kaan era um dos consultores mais poderosos do país, deixando um rastro de destruição por onde passava. Sua especialidade era ludibriar empresários para convencê-los de que precisavam dos serviços de sua empresa, expondo a estrutura amoral do mundo corporativo. Apesar de cruel, ele se importava com poucas pessoas, especialmente com seu filho, e enfrentava o racismo estrutural mesmo sendo privilegiado.

A popularidade dos anti-heróis na televisão a cabo foi tamanha que os canais abertos tentaram aderir à tendência. Contudo, enfrentaram limitações quanto à violência e à ambiguidade moral. Assim, os anti-heróis da TV aberta eram versões mais moderadas, geralmente não cometendo atos realmente perversos, mas exibindo personalidades arrogantes, ambiciosas e autoritárias.

Um exemplo foi a série “Shark”, que apresentava um advogado bem-sucedido que, após uma crise de consciência, decide se tornar promotor. Apesar da mudança de função, sua personalidade astuta e por vezes desonesta permanecia. Seu principal traço redentor era a tentativa de melhorar a relação com a filha adolescente, a pessoa que mais amava.

O mais famoso desses anti-heróis “leves” foi o Doutor House, da série “House M.D.”. Diferentemente de outros, House não cometia crimes nem se envolvia em atividades ilegais. Médico especializado em casos raros, ele exercia uma profissão tradicionalmente associada a heróis televisivos, mas com um temperamento completamente distinto.

House não se importava genuinamente com seus pacientes, encarando a medicina como um desafio intelectual. Amargo, rude e desagradável, humilhava colegas e subordinados, desrespeitando até mesmo sua chefe e, em algumas ocasiões, violando a ética profissional.

O interesse por anti-heróis diminuiu ao longo da década de 2010, mas eles não desapareceram da televisão. Permanecem comuns em séries contemporâneas, tendo ajudado os canais a romper restrições morais e a produzir histórias mais adultas e densas. Seu legado contribuiu para um público mais exigente e para expectativas mais elevadas em relação às séries televisivas, garantindo sua relevância duradoura.