De tempos em tempos bate uma saudade daquela época em que a programação do final de semana poderia incluir uma ida ao teatro para assistirmos uma peça infantil. Nada melhor para um adulto do que ter aquele oxigênio infantil diariamente em casa: os filhos! Aquelas lindas conversas, carregadas de pureza e descobertas. Em paralelo, ainda temos todo o universo cultural que podemos nos inserir e aproveitar: livros, canções, filmes, peças teatrais, musicais, exposições...

Lembro com muito carinho quando meu primogênito chorou na cena em que o Buzz Lightyear quebra o braço na tentativa de voar no primeiro filme do “Toy Story” (Pixar/Walt Disney, 1995). Tivemos que parar o DVD (ou seria VHS? Certeza não foi via streaming!) para explicar o conceito de filme, desenho, ficção, que não era de verdade... Tempos depois, lembro do caçula numa sala de cinema tentando apanhar os globos que “flutuavam” pela sala de projeção no filme em 3D “Up – Altas Aventuras” (Pixar/Walt Disney, 2009). Tantos filmes e situações maravilhosas... Claro que também os apresentei aos meus filmes infanto-juvenis... se apaixonaram pelo “ET – O Extraterrestre” (Steven Spielberg, 1982). Quem não se apaixona?

A lista em todas as áreas é imensa... filmes, músicas, desenhos, livros... Até tinha dificuldades para entender alguns desenhos animados do Cartoon Network, aí dedicava um pouco mais de tempo para conseguir compreender qual era a mensagem e se considerava adequada. Jamais esqueço de “A Mansão Foster para Amigos Imaginários” (Craig McCracken – 2004 a 2009). Passei a assistir a alguns episódios deste desenho até conseguir incorporar e validar o seu conceito. Outros eram encantadores de imediato, como "Os Backyardigans" com suas “aventuras” com canções que passavam por diversos estilos musicais. Lembro do primogênito se aproveitando da fase do irmão menor para continuar assistindo a este desenho.

Ufa! Mas o objetivo aqui é destacar três grandes produções teatrais que tive o prazer de compartilhar com eles e jamais esquecerei. Vamos lá...

O flautista de Hamelin

A inspirada e surpreendente peça é uma adaptação do conto homônimo, transmitido para os nossos dias através do registro dos Irmãos Grimm.

O conto narra a história da cidade alemã de Hamelin, que é atormentada por uma invasão de ratos, na realidade uma praga, levando o prefeito a prometer uma recompensa a quem resolvesse o problema. Um flautista misterioso surge e, com a melodia da sua flauta, atrai todos os ratos para fora da cidade, que se afogam em um rio. Entretanto, o prefeito e os moradores não honram o compromisso previamente assumido. Em vingança por esta traição, o flautista toca sua música novamente, e desta vez, todas as crianças da cidade o seguem para uma caverna, desaparecendo para sempre. O conto é uma advertência sobre a importância de se cumprir as promessas, o combinado.

Esta história já foi adaptada por algumas companhias teatrais em São Paulo. Tive a oportunidade de assistir a duas dessas montagens. A primeira vez, no antigo Teatro Folha (atualmente Teatro UOL) e, a segunda vez no antigo Teatro Alfa (atualmente BTG Pactual Hall). (Me dou conta que os teatros e casas musicais são frequentemente rebatizados em São Paulo! Os chamados naming rigths que servem para financiar estas casas) Ambas as montagens foram maravilhosas e terminavam de forma surpreendentemente aflitiva para os pais/tutores. Obviamente, a minha primeira vez foi super angustiante. A segunda já estava um pouco mais “vacinado” e já tinha desenvolvido um certo antídoto.

Se você mora ou passa por São Paulo e tem filhos pequenos, não deixe de assistir a uma montagem teatral deste conto caso esteja em cartaz!

O príncipe da Dinamarca

Este espetáculo da Cia Vagalum Tum Tum, adaptada e dirigida por Angelo Brandini, era uma montagem brilhante e divertida de Hamlet (Shakespeare) para crianças. Assistimos a esta montagem no antigo Teatro Alfa (creio que entre 2011 ou 2012).

O primeiro ato começava com os coveiros Ser e Não Ser sendo surpreendidos por caveirinhas que os ajudavam, ato após ato, a contar com muito humor a história do príncipe. Estas caveirinhas, na verdade os personagens principais de Hamlet, vão relatando o que ocorreu para estarem naquela situação (mortos!). O elenco cantava, tocava instrumentos e dançava, num cenário que reproduzia um cemitério cheio de folhas secas.

Confesso que quando li sobre o espetáculo no processo de busca do que assistiria com as crianças no final de semana, tive muitas dúvidas se a peça atingiria o objetivo. Afinal como adaptar Hamlet para crianças? Superou e muito as minhas expectativas! De forma lúdica, simples e sensível transformava a complexa tragédia shakespeariana em uma comédia acessível e divertida para o público infantil, sem perder a sua essência. As crianças se divertiam e os adultos, além de também se divertirem, ganhavam uma versão leve do denso texto de Hamlet.

Esta é uma montagem bem menos frequente. Creio que há mais de uma década não é remontada. Portanto, se em algum momento reaparecer, não percam a oportunidade. Fico sempre na torcida que retorne para que as gerações atuais de pais e filhos possam usufruir da beleza deste trabalho.

A ilha do tesouro

Com inspiração no clássico livro “A Ilha do Tesouro” de Robert Louis Stevenson, o diretor Kiko Rieser montou esta peça apresentada no Teatro do Centro da Terra em São Paulo. A montagem se diferenciava por ser interativa e imersiva para as famílias, transformando o público em parte da aventura e ficou em cartaz por mais de dez anos, a partir de 2005.

A encenação, no estilo "teatro-aventura", promovia a participação de adultos e crianças, que eram separados ao longo da narrativa para viverem a história de forma mais profunda e lúdica. Através de todas as dependências do teatro, o público subia e descia por escadas, salas e antessalas, explorando cenários temáticos e cenográficos, como uma taverna, uma masmorra e um navio, em busca do tesouro do pirata Capitão Flint. A montagem sobretudo valorizava a interação e o protagonismo infantil, enquanto os adultos participavam como coadjuvantes.

Outro dia meu caçula me disse que lembrava de uma peça que assistimos e que no final descobria um tesouro surpreendente. A surpresa? Desejo que um dia montem novamente esta peça da forma idealizada por Kiko Rieser! A surpresa é um grande tesouro para as crianças e uma enorme satisfação e felicidade para os pais e mães!