Desde muito jovem, Anabel sempre gostou de viajar com a família. Sua primeira lembrança de uma viagem incrível datava dos seus 4 anos de idade, quando sua mãe, seu pai, seus dois irmãos e sua tia viajaram para Curitiba, todos juntos em uma van. Ela se lembra de como gostava dos preparativos, da programação do que seria feito em cada dia, dos jogos no carro, da proximidade com outros parentes.
Agora, aos 16 anos, ela ainda nutria sua paixão por viagens. Adorava conhecer lugares novos, se encantava com as mais diversas paisagens e seu maior sonho era fazer uma viagem internacional junto com a família.
Por isso, quando seus pais contaram sobre a viagem para São Thomé das Letras, em Minas Gerais, ela logo topou e começou a pesquisar sobre o local. Localizada a aproximadamente 5 horas de Vinhedo, cidade em que mora no interior de São Paulo, São Thomé das Letras, de imediato, lhe pareceu mágica!
Além de toda a misticidade que encontrou sobre a cidade, como aparições de fadas, duendes, gnomos, ovnis e ETs, as paisagens prontamente a cativaram, mesmo sem ela nunca ter estado lá. Como seus pais, Keila e Edivaldo, sabiam que ela gostava de planejar viagens — e, francamente, se tornou quase uma profissional nisso nos últimos anos —, deixaram que ela escolhesse o hotel e algumas programações ao longo dos 8 dias que passariam lá.
A viagem estava marcada para acontecer dali a duas semanas e, acredite ou não, ela conseguiu estruturar todo o roteiro, passando pela Ladeira do Amendoim, Pedra da Bruxa, Parque Municipal Antônio Rosa, Cachoeira da Lua, Trilha do Vale da Borboleta, dentre muitos outros. Junto com sua mãe e seu pai, iam também seus irmãos, Lucas e Rafael, gêmeos de 9 anos, e seus tios, Umberto e Tânia, com seus filhos, André, de 8 anos, Joana, de 14 anos, e Frederico, de 18 anos. Ela ficou tão feliz com essa notícia!
Ela se dava muito bem com seus irmãos, mas amava mais ainda a companhia dos seus primos. Joana era praticamente a melhor amiga dela e Frederico a ajudava em todos os seus problemas de adolescente quando estes surgiam. Então, ela sabia que essa viagem não tinha como ser ruim.
Uma noite antes de partirem, todos vieram dormir em sua casa para saírem cedinho juntos, sem atrasos. Como de costume, Anabel não conseguiu pregar os olhos de tanta ansiedade e empolgação com os dias seguintes. Passou a noite toda mostrando para Joana e Frederico os seus planos, os locais que queria conhecer, onde queria almoçar e jantar cada dia e contou sobre uma das suas lendas preferidas que encontrou ao pesquisar sobre a cidade.
Essa lenda conta sobre uma passagem que exige em São Thomé das Letras, através de uma gruta, que leva diretamente a Machu Picchu, a histórica cidade perdida dos incas, no Peru. Esta passagem ficaria na região central da Gruta do Carimbado, que foi fechada pelo Ministério Público Ambiental, e o ponto correto estaria na parte subterrânea do local, no centro de um labirinto. Ou seja, haveria um portal dimensional que levaria o visitante instantaneamente de um município (país!) ao outro.
A ligação entre as duas cidades entra nas questões metafísica, mística e esotérica — a cidade seria um dos sete pontos energéticos na Terra que permitiria esse deslocamento. Seria um local que você vai entrar na gruta, um ponto energético que se abre um portal, causa a dobra do tempo-espaço e a pessoa vai até Machu Picchu.
—Ah, mas você não acredita mesmo nisso, né, Anabel? — perguntou desconfiado Frederico.
—Claro que não, Fred! Sei que não é possível, mas imagina se fosse. Seria muito maneiro, não acha?
—Lógico, seria incrível poder ir até outro país sem nem pagar nada — comentou sorrindo Joana — e conhecer Machu Picchu, sinceramente, é um dos meus maiores sonhos!
—Meu também — exclamou Anabel — mas esse ainda vai ter que esperar um pouco. De qualquer forma, podíamos ir juntos, né? Nós três sozinhos, seria a melhor viagem de todos os tempos!
—Com certeza, acho que daqui a uns anos, quando todos nós estivermos trabalhando, podemos combinar de ir — concordou Frederico.
—Mas só nós três, ou você vai ter que levar a Elenor? — perguntou Joana.
—Se ainda estivermos juntos até lá, vou levá-la sim, oras! Ela é minha namorada e ela adora vocês, não vejo qual seria o problema.
—Não teria nenhum problema, eu adoro ela também — exclamou feliz Anabel, enquanto Joana revirava os olhos – Mas então está combinado, iremos juntos a Machu Picchu um dia!
E assim a noite se passou…
No dia seguinte, logo às 6 horas da manhã, eles estavam partindo para sua aventura em São Thomé das Letras. Dessa vez, a viagem foi em carros separados, mas Anabel fez questão de ir no carro dos tios só para aproveitar a companhia dos primos, enquanto André foi no outro carro junto com os primos gêmeos que tinham idade mais similar.
Todos eles compartilhavam esse amor por viagens, e ao longo do caminho foram apreciando as lindas paisagens pelas quais passavam. Quase não conversaram, só imaginando como seria lá. Em contrapartida, parecia que o destino final não chegava nunca!
Quando finalmente chegaram ao hotel, os três aventureiros correram para despachar as malas e se trocar, pois já queriam começar o tour pela cidade. Os adultos tiveram que intervir para que eles se acalmassem, já que era só o primeiro dia e teriam tempo de fazer tudo.
—Mãe, mas nós queremos já ir conhecer a cidade, nem que seja só por aqui mesmo. Será que não podemos pelo menos dar uma volta por aqui perto do hotel mesmo? Prometo que a gente volta logo. — implorou Anabel à sua mãe.
—Tá bom, Ana, mas tenham cuidado. Sei que a cidade é pequena, mas não é por isso que podemos bobear com segurança. Agora são 11h05; quero vocês de volta até às dez para 12h para irmos todos almoçar juntos, combinado?
—Sim sim sim! Muito obrigada, mãe! — gritou ela, já de costas caminhando com seus primos sem rumo.
Anabel tinha feito um ótimo trabalho pesquisando hotéis na cidade e escolheu um com um preço em conta e que ficava bem no centro, perto de vários restaurantes e praças da cidade. As ruas de pedra e as construções do mesmo material traziam um ar rústico, ajudando a construir a atmosfera de um local completamente místico. Secretamente, Anabel jurava que iria presenciar o aparecimento de uma fadinha, ou quem sabe um ET, ao longo dos próximos dias. Joana também acho que veria um gnomo ou um duende, talvez, mas Frederico, o mais velho dos três, já estava mais cético e queria aproveitar a viagem só pela diversão de conhecer um lugar novo e tão bonito.
Ao virar a esquina, deram de frente com a Igreja de São Thomé, na sua imensidão amarela, e a acharam fascinante, diferente de outras igrejas que já tinham visto. É que a emoção e a ilusão de conhecer um local assim faziam todos os outros parecerem tão mundanos!
Naquele mesmo dia, depois do almoço, toda a família tinha planejado ir conhecer a Cachoeira Garganta do Diabo, uma das principais atrações turísticas. Assim, os três primos não demoraram a voltar para o almoço para poderem começar o roteiro à tarde.
Anabel ficou maravilhada com a paisagem, tomou banho de cachoeira, se divertiu com os primos, tirou lindas fotos dos arredores e da família. E assim foram se passando os dias da viagem. A cada novo local que conhecia, acreditava ser “a coisa mais linda que já viu”, até chegar ao próximo e pensar o mesmo.
Mas o melhor de tudo era poder compartilhar cada momento com seus primos. Além de saírem em família, eles sempre reservavam um tempinho do dia para saírem sozinhos e poderem conversar do que quisessem. Ela se divertiu tanto, que quando se deu conta já era o último dia de viagem.
—Eu não acredito que já vamos embora amanhã — comentou com Joana, cabisbaixa, enquanto começavam a arrumar a mala.
—Nem me fala… eu ficaria mais três dias aqui sem problema algum! Não achei que gostaria tanto daqui desse jeito.
—Nem eu, acho que para ficar melhor só se encontrássemos a passagem secreta para Machu Picchu — riu-se uma risada esperançosa.
—Mas de novo você com isso, Anabel! É claro que isso não é verdade! — falou Frederico, quase bravo.
— Ei, não precisa falar assim; ela só está brincando! —Defendeu Joana.
Sim, ela comentava rindo, mas no fundo Anabel acreditava naquela teoria. Foi por isso que, quando os primos comentaram de ir tomar um sorvete naquele final de tarde, ela recusou, dizendo que estava com sono e iria dormir um pouco. Porém, assim que eles saíram, ela foi atrás da sua própria aventura.
Ela era uma garota do tipo que não desiste, ainda mais de coisas que ela acreditava. Não se considerava corajosa ou destemida, nem nada do tipo, mas sim persistente e resiliente. Além disso, Anabel tinha um olhar crítico e sabia se sair muito bem diante de adversidades e imprevistos.
Naquele final de tarde, ela juntou sua pequena bolsa com documentos, água, dinheiro, sua câmera inseparável e alguns lanchinhos e foi em busca do que mais queria ver em São Thomé das Letras. O caminho, como esperava, não foi fácil; afinal, como ela bem sabia, o Ministério Público Ambiental havia fechado a rota para a Gruta do Carimbado. Mas com a ajuda de alguns nativos (e o encorajamento deles, inclusive) ela chegou ao local.
No entanto, como nada é tão simples como se pensa, a tal passagem ficaria na parte subterrânea da gruta, no centro de um labirinto. Então, ela começou a analisar por onde entrar; até tentou pesquisar pelo celular, mas ali já não tinha mais sinal.
Quando ela olhou para a sua esquerda, atrás de algumas rochas, pensou ter visto algo se mexer e nessa hora ela ficou completamente assustada, imóvel. Esperou para ver se acontecia alguma coisa. Nada.
Começou a andar em direção ao que pensou ter visto, o mais silenciosamente possível, e, loura da cabeça dela ou não, parece que o ar começou a se encher de brilhos, como se fosse purpurina ou glitter, mas bem mais fino e diluído no ar. Nesse momento, Anabel só estava seguindo o coração, na verdade, sem analisar muito por onde ia, só queria saber o que era aquilo.
Quando percebeu, já estava em meio a um labirinto, um local escuro que pedia o uso de uma lanterna. Assim que acendeu, viu bem na sua frente uma pequena fada voando um pouco mais acima da altura de sua cabeça.
Ela não acreditou. Ficou alguns minutos em choque. Piscou diversas vezes. Tentou falar, mas nem isso conseguiu.
A fada amigável, entretanto, não precisava de nada disso. Ela só fez um sinal para que Anabel a seguisse com a mão e foi voando. Já a humana, quando viu a fada ir para longe, precisou de alguns segundos para recuperar o movimento das pernas e logo disparou a correr atrás dela, com medo de perdê-la.
O caminho era repleto de pedras, além de ser uma descida. “É por isso que fecharam esse buraco”, pensou ela enquanto corria com cuidado para evitar se machucar. De repente, a fadinha parou e ficou olhando para ela enquanto chegava. Estavam em meio a uma espécie de clareira de pedras e logo à frente havia uma passagem bem estreita, do tipo que se duvida se é possível passar.
A fadinha, que permanecia muda, apontou apenas para essa passagem e sorriu.
—O que está acontecendo? — perguntou Anabel — Isso é real mesmo?
O serzinho voador apenas sorriu carinhosamente e partiu de volta por onde elas tinham vindo. Anabel se viu sozinha de novo e pensou consigo mesma “Bom, se for um sonho, não vai acontecer nada; e se não for… ah, já estou aqui mesmo, não é?” e começou a se encaminhar para aquele vão. Era um buraco no meio da parede no qual só conseguiria andar engatinhando. Colocou sua bolsinha em volta do pescoço e foi, com medo mesmo.
Tudo foi ficando muito escuro, sem conseguir usar a lanterna do celular, e logo ela começou a se arrepender daquela decisão; começou a pensar que poderia ficar presa ali; ou que poderia não ter um fim aquele buraco; ou ainda que poderia ter um abismo no qual ela despencaria a qualquer momento. Pensou que fosse encontrar bichos, e até quem sabe corpos que sucumbiram ali. Mas pensou tudo isso sem parar de se mover.
Notou, de repente, uma luz branca distante. Começou a engatinhar mais rapidamente. O coração dela batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. E conforme se aproximava mais dessa luz branca, mais forte batia.
Chegando mais perto, percebeu que aquilo era uma saída! E quando pisou para fora, não acreditou no que viu.
Ela estava, de fato, na cidade perdida dos Incas. Nem a altitude elevada foi capaz de impedi-la de sair correndo e pulando para todos os cantos para ver se tudo aquilo era real mesmo.
Ela estava em Machu Picchu. Ela não acreditava que estava em Machu Picchu. Ela não acreditava que a lenda era real — e que foi uma fada que a ajudou a encontrar essa passagem!
Anabel estava realmente lá; se emocionou, riu, chorou e foi logo aproveitar seu período ali. Andou por cada ruína que encontrou. Subiu, desceu escadas, brincou com as alpacas, sentou e observou aquela paisagem surreal. Parecia um sonho, mas era real.
Sentiu-se agradecida e orgulhosa por ter enfrentado essa trilha e não ter desistido do que acreditava. Sentiu-se leve, quase voando em meio às nuvens enquanto contemplava aquele santuário do alto. Quis aproveitar tanto o momento em que esqueceu-se de tirar fotos. Só queria viver tudo aquilo e ter certeza de que estava realmente vivendo, de que não era um sonho.
O sol aquecia sua pele enquanto a altitude proporcionava uma brisa fria para equilibrar. Parecia que tudo se encaixava; tudo fazia sentido. “Era pra eu encontrar esse lugar mesmo!”, pensou sozinha consigo mesma. Chegou a cogitar não ir embora. Mas sabia que não poderia fazer isso.
Levantou-se e foi novamente explorar outros cantinhos do sítio arqueológico, já que sabia que teria que retornar logo. Antes de voltar, olhou mais uma vez de lá do alto, imensamente agradecida por este dia, e entrou no buraco para engatinhar de volta.
O caminho da volta, parece, foi bem mais tranquilo, fácil e rápido. Ela retornou ainda maravilhada com o que havia descoberto; estava estonteada, quase embriagada com tudo o que tinha visto e acontecido naquelas poucas horas. Quando viu, já estava de volta ao hotel e um pensamento a assaltou: “Como vou contar isso para a minha família?”.
E, parada na porta, pensou de novo: “Talvez, eu não devesse contar nada, ninguém nunca vai acreditar em mim. Por mais que eu queira compartilhar essa aventura com eles, principalmente com a Jo e o Fred, eles vão achar que eu inventei ou fiquei maluca. E nem tenho fotos, para melhorar tudo”.
Permaneceu imóvel.
“Por outro lado, eles sabem que não sou doida, não é? E ficariam muito felizes por mim, por eu ter encontrado a passagem. Talvez até me peçam para levá-los até lá!”.
Imóvel ainda.
“Mas e se meus pais brigarem comigo, porque fui irresponsável e era perigoso? Pode ser que eu nunca mais saia sozinha para nada, e aí esquece novas aventuras, novas descobertas, novos locais!”
Respirou fundo.
A verdade era que, embora ela quisesse muito compartilhar, ela sentia também que era uma experiência que deveria ser só dela. Quem sabe, daqui a alguns anos, ela poderia contar. Ou contaria somente para seus filhos e netos em um futuro bem distante. Mas naquele momento, pensou, queria guardar todo aquele dia só para ela, pois assim nenhum tipo de comentário ou reação poderia mudar a alegria de tudo o que viveu.
Girou a maçaneta e entrou no quarto.















