
Osvaldo Bugelli Neto é jornalista e escritor. Curitiba é sua base; Ourinhos, sua raiz. Carrega as memórias do Brasil e de outros países como quem recolhe pedaços de vivência — narrativas que despertam atenção ao que respira.
Há quem escreva para ser lembrado. Osvaldo escreve para entender. Entre o zunzunzum do mundo e o recolhimento da própria consciência, encontrou na palavra um abrigo que respira — um espaço onde o pensamento inclina, pondera, questiona e, às vezes, se comove.
Sua relação com a escrita começou antes do diploma: em conversas, canções, jogos, no espanto de quem percebe o mundo com ternura. Compartilha o gesto humano, aproxima jornalismo e sensibilidade. Seu ofício é a observação. Uma percepção que nasce da curiosidade jornalística, mas não se limita à notícia. Ele narra como quem capta o murmúrio do mundo: o som de um estádio em transe, o riff seco de uma guitarra, o silêncio entre dois corpos que se entendem sem palavras.
Pós-graduado em Jornalismo, encontrou nas palavras um caminho entre a exatidão da apuração e a liberdade da imaginação. Entre reportagens e crônicas, percebe que os episódios mais intensos nem sempre habitam os grandes acontecimentos — muitos residem em gestos singelos que revelam quem somos. Na superfície, aborda esporte, comportamento, cultura e música. No âmago, explora a condição humana — essa matéria frágil e fascinante que molda o que sentimos, sonhamos e buscamos compreender.
No esporte, percebe-se o ritmo da alma — esforço, queda, glória, redenção — um ritual contemporâneo que revela o melhor e o pior de nós. Na cultura, descobre o mosaico coletivo: onde riso e medo vivem na tela, na canção, na rua. Nos espetáculos, registra a encenação da vida cotidiana: as máscaras que vestimos, os papéis que interpretamos, os aplausos que colecionamos discretamente. Acredita que escrever é escutar. Que a narrativa surge do encontro — entre percepção e acontecimento, entre recolhimento e sentido. Suas linhas equilibram atenção e delicadeza que captam o invisível. Cada parágrafo oferece uma pausa consciente, uma resistência à pressa.
Influenciado pela literatura, pela música e pelas conversas casuais, cultiva uma narrativa que privilegia a lente demorada. Há ironia e ternura, crítica e acolhimento, mas jamais indiferença. Ele documenta como quem atravessa um campo de batalha com uma flor no bolso: atento à violência, mas fiel à delicadeza.
Orienta-se pela força das perguntas; não se contenta com respostas definitivas. Suas narrativas se movem como fluxos vivos: desafiam o automático, convidam a repensar o óbvio e revelam significado no cotidiano. É o que faz alguém ouvir uma música e perceber: “há algo aqui que ainda vale a pena”. Por isso, Osvaldo escreve — para lembrar que certos gestos ainda importam.
Seu processo criativo é errático. Surge de uma frase solta ou de um incômodo. Pode ser um gole de cerveja, um olhar disperso na rua, uma nova virada de bateria, uma lembrança que insiste em ficar. A composição evolui como uma conversa que resiste ao fim — e termina, frequentemente, com uma interrogação muda. “... Tudo é matéria-prima…” repete sempre.
Osvaldo não almeja plateia, prioriza o diálogo. Dirige-se ao leitor que desacelera, sublinha, retorna ao parágrafo anterior porque algo o tocou sem explicação.
No coração, é um cronista do presente. Um narrador que oscila entre a algazarra e o recolhimento. Um atento às quedas — pequenas ou enormes — que compõem o viver. Alguém que, em meio ao caos e à urgência, confia no poder das frases bem ditas e no milagre discreto de quem faz uma pausa para escutá-las. Fala para quem acredita que pensar e ler pode ser um gesto de felicidade.
Seus escritos percorrem a interseção entre jornalismo e poesia — esse território onde o concreto e o simbólico dialogam. É ali que se desvenda o que nos aproxima: o som das ruas, o brilho das redes, a suavidade das vozes que resistem.
A palavra surge como gesto de conversa. Valoriza a leitura como uma forma íntima de amizade: oferecer um fragmento de si e esperar — sem garantias — que alguém o reconheça.
Seus textos — sobre tênis, heavy metal ou um frame de cinema — emergem de um mesmo ponto: a tentativa de compreender o que nos move. Por isso, sua narrativa dança entre revelação e análise, sustentada por uma verdade que se impõe sem alarde.
Entre lucidez e afeto, sua narrativa oferece uma pausa. Um olhar que permanece. Um breve respiro.
Porque escrever, afinal, é insistir na delicadeza onde muitos apenas percebem pressa.
