A amizade só é verdadeira quando podemos dizer ao amigo todos os defeitos dele. E também todas as qualidades nossas…

Esta ideia engraçada é atribuída a Millôr Fernandes e, se não for dele, tem tudo para ser, pois era um mestre em sarcasmos e ironias.

Dito isto, vou direto ao encontro entre dois amigos de infância que não se viam há muitos anos. Marcaram em um restaurante de mesinhas na calçada — em Portugal seria “na esplanada” — e ali se puseram a conversar e saciar as mútuas curiosidades sobre a vida de um e do outro.

Estavam ambos na casa dos 60 anos. Jurandir era um tipo atlético, frequentador de academia, adepto da alimentação saudável, praticante de yoga e encontrava-se em ótima forma. O Souza tinha outro perfil: muitos quilos de excesso, avesso à atividade física, adepto do sofá, da cerveja com salgadinhos, além de adorar doces.

—Quanto tempo não nos encontramos, Souza. Que prazer! Como a vida tem te tratado?

—Estou ótimo! Vamos beber alguma coisa enquanto conversamos. Que tal uma caipirinha e uma porção de batatas fritas?

Jurandir achou que não poderia deixar de acompanhar o amigo e pediram os dois drinks e o petisco.

—Mas me conta sobre a sua vida. Você está casado? — perguntou Jurandir.

—Deus me livre! Prezo muito a minha liberdade e estou bem assim. Faço o que quero, quando quero e assim desfruto de uma vida leve e alegre. Enquanto a caipirinha não chega vou dar um pulinho no banheiro.

Souza levantou-se com alguma dificuldade devido ao excesso de peso. Jurandir observou que o amigo andava com certo sacrifício, balançando muito o corpo lateralmente e se deslocando com lentidão, demonstrando um equilíbrio instável.

Chegaram os drinks e logo a seguir o Souza.

Brindaram com o tradicional desejo de saúde. Souza sorveu de uma vez quase a metade do líquido e avançou na porção de batatas.

—Por falar em saúde, você está bem? — inquiriu o atleta Jurandir.

—Estou ótimo! — respondeu o amigo.

Em seguida enfiou a mão no bolso e sacou uma caixinha de remédios, dessas que contém divisões. Extraiu um comprimido de um dos compartimentos e ingeriu com o restante da caipirinha. Aproveitando o garçom, pediu outra, enquanto Jurandir ainda estava com o copo cheio.

—Que remédio é este, Souza?

—Nada. É só um comprimidinho para controlar o colesterol. Uma beleza, a gente pode comer o que quiser, como essas maravilhosas batatinhas fritas — disse ele.

—Sei…

—Pode comer de tudo, Jurandir. As taxas permanecem boas. A minha está excelente! Se o seu colesterol subir, me liga e te dou o nome. É só tomar um comprimidinho desses e já fica bem.

—Sim, sim. Mas a minha taxa está boa. E você dorme bem, Souza?

—Rapaz, meu sono é ótimo. São 7 ou 8 horas de sono toda noite. Não tem erro.

—Que bom. Dormir bem é essencial para a saúde.

—Pois é. Toda noite eu tomo um remedinho que é tiro e queda. Só acordo no dia seguinte. Uma maravilha! E você, Jurandir?

—Sabe que quanto mais me exercito durante o dia, melhor é a noite de sono. Você já experimentou fazer uma caminhada regularmente? — tentou Jurandir.

—Já sim. Fiz por uma semana, mas vou te confessar: acho que fazer caminhada é um saco! É entediante e me sinto perdendo tempo.

—Mas ajuda a controlar o colesterol.

—Já faço isso com o comprimido, meu caro. Muito mais prático.

—É que a caminhada também melhora outras coisas. Até o humor.

—Humor? Não tenho este problema. Eu tomo um antidepressivo maravilhoso. Estou sempre bem.

Jurandir engoliu em seco, enquanto Souza terminava de devorar as batatinhas.

—Você gosta de linguicinha aperitivo, Jurandir?

—Pode pedir. Eu não como, mas fique à vontade.

—Não, não. Então que tal um camarão à milanesa?

—Pede, Souza. Pode pedir.

O garçom passava e recolheu o pedido do camarão e a terceira caipirinha para o Souza.

—Mas até agora você me falou que toma remédios para colesterol, para dormir e antidepressivo. Não acha que são muitos remédios, Souza?

—Não. São apenas esses e mais um para controlar o açúcar. Ah, tomo também um antiácido após as refeições e unzinho para gordura no fígado. Gasto um bom dinheiro na farmácia, mas vale a pena. Minha saúde está em dia! Lembrei que tomo também um pequenininho para a pressão: fica sempre em 12 por 8. Uma maravilha. Estou ótimo!

Jurandir tomou o último gole de sua bebida, olhou o relógio e se preparou para ir embora:

—Desculpe, Souza. Tenho um outro compromisso que não posso faltar. E já estou atrasado. Foi muito bom te ver, meu amigo!

—Ah, que pena. Já vai, mesmo?

—Sim, tenho que ir agora. Um abraço!

Jurandir vai saindo e o Souza arremata:

—Ô amigo. Você parece meio estressado. Se quiser eu sei de um calmantezinho que é excelente.

—Não, muito obrigado, Souza.

—Olha, quem avisa amigo é: cuida da sua saúde…