Edward Edwards foi um bibliotecário inglês do século XIX, cujo sonho era que o acesso ao conhecimento fosse igual e irrestrito para todas as pessoas. Ele foi um agente de transformação que deu início ao surgimento das bibliotecas públicas gratuitas na Inglaterra, sendo que a primeira delas surgiu em Manchester. É por causa dele que hoje temos esses palácios do conhecimento que são as bibliotecas públicas gratuitas para todas as pessoas, sem restrição de qualquer espécie.
Foi assim que há 175 anos, a Rainha Vitória sancionou uma lei "(...) que permite que câmaras municipais estabeleçam bibliotecas e museus públicos", autorizando as autoridades locais de determinado porte a cobrar uma taxa de meio centavo para o estabelecimento de uma biblioteca pública gratuita.
Assim vemos os esforços de um bibliotecário e de uma representante do poder público para provocar uma revolução histórica que transformou as bibliotecas em equipamentos de acesso universal e gratuito em todo o mundo.
Em virtude dessa mudança histórica, as bibliotecas atuais oferecem hoje acesso gratuito a livros digitais, audiolivros, música, podcasts, filmes, periódicos e vários outros recursos digitais, além de espaço de atividades culturais como clubes de leitura, seminários, palestras, jornadas literárias e outros eventos culturais de forma gratuita.
Trago este assunto, para contribuir, de alguma forma, para que a partir dos profissionais das bibliotecas, todos possamos pensar em inverter a tendência de estagnação e de retrocesso do poder que esses palácios do povo tiveram no passado, e que, ao que parece, de alguma forma, estão a perder no presente.
Vivemos numa era chamada digital, em que há uma predominância indiscutível e sem retorno das tecnologias digitais e da Inteligência Artificial. Este ambiente digital impacta todos os setores da sociedade e toda a forma de estabelecer relacionamentos interpessoais, institucionais, impacta também na forma de estudar, de trabalhar, de realizar registro, de obter informações e dados, de solicitar benefícios e direitos, de gerenciar processos administrativos, de realizar qualquer tipo de atividade em qualquer sociedade do século XXI. Deste modo, a biblioteca pública gratuita tem um papel fundamental no exercício dessa cidadania neste ambiente digital.
Vou aqui citar algumas razões que exigem que os bibliotecários entendam a relevância estratégica das bibliotecas digitais, como suporte das bibliotecas públicas nas ações de atendimento às demandas do nosso século.
Biblioteca digital pública
A biblioteca digital pública é um equipamento inovador e imprescindível no atendimento às necessidades dos usuários e aderentes da biblioteca pública. Não se deve, nesta era digital, olhar para a biblioteca sem pensar na integração do acesso digital. A biblioteca digital não pretende nem funciona como uma biblioteca física. O acesso digital pretende, sim, ser um instrumento de apoio, de fortalecimento da biblioteca física. A biblioteca digital amplia o acesso e a extensão da biblioteca física.
Neste sentido, é de grande relevância e oportunidade que os gestores e bibliotecários que atuam nas bibliotecas públicas comecem a entender o poder que a biblioteca pública do século XXI pode ter, se estiver integrada ao acesso digital proporcionado pela biblioteca digital. A razão da importância da biblioteca digital é que ela não pretende substituir o analógico ou o físico, mas sim ampliar e fortalecer o ecossistema de acesso à biblioteca.
A biblioteca digital permite o acesso aos conteúdos da biblioteca sem restrição de horário, dia de semana e localização geográfica.
A biblioteca digital permite o acesso atualizado aos conteúdos da biblioteca. A gestão da biblioteca e da atualização do acervo funciona numa velocidade mais rápida, e o catálogo disponível para compra está normalmente mais atualizado. Este fator, torna a biblioteca digital um parceiro privilegiado para apoiar as bibliotecas física na questão de se manter sempre com acervo atualizado e mais flexível em promover a bibliodiversidade.
A biblioteca digital facilita a promoção de comunidades de interesse, visto que se pode promover a criação de comunidades através da realização de projetos de inclusão digital, leitura gamificada, programação cultural específica e diversificada para grupos e outras formas de interação com o usuário. A gamificação tem se tornado uma tendência crescente nas bibliotecas, que estão incorporando mais jogos de tabuleiro e digitais em seu acervo, tornando a leitura mais acessível e divertida. A gamificação está se tornando, assim, um instrumento de engajamento dos públicos na biblioteca e no desenvolvimento de habilidades de alfabetização midiática e informacional. Existem várias bibliotecas usando a gamificação como forma de engajamento e de desenvolvimento de habilidades nos jovens,1.
A biblioteca digital pode ser um poderoso instrumento de afastamento dos jovens das telas e das redes sociais, para um ambiente mais saudável de leitura e de contato com conteúdos mais instrutivos. Numa recente análise realizada pelo Conselho Federal de Biblioteconomia sobre “Como os jovens estão (re)descobrindo a leitura na era digital — o que os bibliotecários têm a ver com isso”2, é reforçado o papel dos bibliotecários nesse processo:
Nesse novo cenário, o papel das Bibliotecas é ainda mais estratégico. Elas precisam se adaptar para continuar a ser espaços ainda mais atrativos e relevantes para esta geração conectada. E os bibliotecários — esses profissionais da mediação da informação — são peças-chave para promover esse diálogo entre o mundo digital e o universo da leitura crítica e aprofundada.
Mídias digitais
As mídias digitais devem constituir-se em parceiras das bibliotecas, porque promovem a aproximação e a integração de comunidades que estão nas mídias digitais. É importante olhar com realismo e otimismo o fenômeno das mídias digitais, porque apesar reconhecermos os problemas de dependência e outros problemas que pode provocar o acesso e a exposição sem limites das telas e das mídias digitais, essas ferramentas podem ser aliadas para as bibliotecas, porque podem ser instrumentos de aproximação e de promoção à conteúdos mais saudáveis e de informação mais qualificada.
Plataformas digitais
As plataformas digitais são hoje ferramentas tecnológicas seguras e parceiras fiéis das bibliotecas digitais. Elas possibilitam o acesso aos conteúdos das bibliotecas, estão equipadas com diversas soluções de acessibilidade que facilitam a leitura e a conexão do leitor com a biblioteca, são ambientes amigáveis para os usuários e podem ser equipadas de tecnologias de atendimento que contribuem para um atendimento de proximidade e sem restrição de horário.
Além disso, as plataformas digitais estão equipadas com relatórios de leitura dos usuários cadastrados na plataforma, que permitem ao gestor e ao bibliotecário acessar os dados de leitura (tempo, lugar, género de obras lidas, localização do leitor, etc.), informações importantes para o desenvolvimento de projetos e de ações específicas para as demandas e necessidades dos usuários da biblioteca. O foco da biblioteca deve ser sempre o leitor e não os conteúdos da biblioteca!
Outro aspecto importante das plataformas digitais, é que elas garantem a aplicação da Lei Geral de Proteção de Dados e também garantem a proteção dos direitos autorais e a remuneração do mercado editoria. As plataformas licenciadas estão equipadas com o sistema DRM, que assegura a proteção dos direitos autorais e protege de qualquer tipo de acesso e uso ilegal e gratuito das obras da biblioteca.
Bibliotecários de referência
O grande referencial das bibliotecas é o bibliotecário. A função atual do bibliotecário está muito além da gestão do acervo e da política de desenvolvimento de acervo da biblioteca digital. O bibliotecário que se espera na atual sociedade digital é de um profissional proativo e que entende que a sua função está para além do acervo. O bibliotecário precisa entender e atender o seu público. Para isso, ele precisa conhecer o perfil do usuário da sua biblioteca, das suas necessidades e demandas e saber onde ele se encontra e quais são as suas preferências leitoras. Para isso, o bibliotecário precisa estabelecer um diálogo contínuo com o usuário, construir uma relação de proximidade e de confiança.
Outro papel relevante do bibliotecário da atualidade deve ser o conhecimento e domínio das tecnologias digitais, para saber se aproximar dos leitores que estão das mídias digitais. Possuir competências digitais é, atualmente, uma necessidade obrigatória para os profissionais das bibliotecas.
Para concluir esta reflexão, gostaria de apelar aos órgãos públicos que manifestamente são os responsáveis pela elaboração, desenvolvimento e aplicação de políticas públicas destinadas à sustentabilidade das bibliotecas públicas. O sancionamento, há mais de um século e meio, pela Rainha Vitória, da lei que criou as bibliotecas públicas, assim como o respectivo mecanismo de financiamento.
Felizmente, existem políticas públicas que financiam novos e relevantes projetos de bibliotecas e para bibliotecas no Brasil. Mas cada vez mais os desafios das bibliotecas são maiores, na perspectiva das necessidades enfrentadas pelas bibliotecas públicas que precisam atender a um número cada vez mais crescente de público com necessidades e características muito específicas, com a necessidade de manutenção dos seus espaços, desenvolvimento de acervo, equipamentos especializados de acessibilidade, contratação de profissionais qualificados, desenvolvimento de atividades e programação que traga e garanta a manutenção de público nas bibliotecas, e outras demandas importantes.
Sendo assim, é crítico que os órgãos de decisão e aplicação de políticas públicas, tenham uma visão clara sobre a missão estratégica das bibliotecas para a formação cultural, mas também para a inclusão social e digital, para o aprofundamento das competências cognitivas, para o desenvolvimento da capacidade crítica, para a melhoria dos indicadores da educação, para o fortalecimento da democracia e para o desenvolvimento económico do país. Financiar e promover as bibliotecas é contribuir para um retorno não apenas social e cultural, mas também económico, que resulta da formação e do fortalecimento de uma cadeia de atividades e de uma economia criativa gerada pelas atividades realizadas pelas bibliotecas.
Bibliografia
1 Tendencias en innovación bibliotecaria: la gamificación.
2 Como os jovens estão (re)descobrindo a leitura na era digital — e o que os Bibliotecários têm a ver com isso.
Ovenden, Richard. Libraries are palaces for the people. Their ramparts nedd defending.
Ordás, Ana. Tendencias em innovación bibliotecária – Gamificação.
Conselho Federal de Biblioteconomia. Como os jovens estão se (re)descobrindo na era digital – O que os bibliotecários tem a ver com isso.















