Há lugares que vibram na dimensão divina. Foi num dia ensolarado que minha mãe me levou para conhecer um morro sagrado! Eu tinha por volta de sete anos de idade, na década de setenta, quando me deparei com várias palmeiras imperiais, onde o céu parecia encostar na terra. A imagem da Imaculada Conceição exaltava sua ternura, num semblante de piedade. Tudo me comovia!
Quando avistei um homem encostado no muro, com chapéu de palha para se proteger do sol, usava uma calça marrom arregaçada até ao joelho, possuía uma atadura nos pés, e uma muleta encostada ao muro. Ele estava com a camisa azul semiaberta, segurando uma cuia de embalagem de queijo do reino, onde balançava com algumas moedas pedindo dinheiro de maneira enfática. Na sua boca faltavam dentes e no seu olhar havia sede de cura. Fiquei chocada! Descobri um mundo da falta!
O contraste entre o queijo que comia especialmente no período natalino das festas de final de ano, fez-me pensar na dimensão social. Uns com tantos e outros sem nada. Além do mais, depois que fui atingida pela flecha das relações sociais, olhei novamente e vi vários homens segurando a cuia de embalagem de queijo do reino, que também eram doentes de hanseníase. Fiquei apavorada e cheia de indagações sobre os modos de vida. Até então, só conhecia o Edmundo da Lata. Um pedinte da minha rua, com ar de que não tomava banho há dias, que, com sua lata de embalagem de leite em pó, pedia seu jantar à minha mãe. Nota-se que as embalagens dos produtos industrializados ditavam a década da industrialização.
Cabe ressaltar que o Morro da Conceição trouxe em mim uma nova consciência entre a natureza humana e a natureza divina. Nesse mesmo dia, conheci a história de uma mulher que estava chorando muito no Morro e passou um homem de carro e perguntou à mulher o que tinha acontecido, e os dois se conheceram e depois casaram. São as chamadas histórias milagrosas! Então, fui picada pelo sentimento da área de humanas. É cabível de registro pensar, que o sociólogo Gilberto Freyre diz que temos que conhecer o Brasil da casa grande e da senzala, e que o antropólogo Darcy Ribeiro que para conhecer o Brasil devemos conhecer o povo brasileiro e o processo civilizatório, o escritor Euclides da Cunha diz que para conhecer o Brasil é preciso conhecer o chão, a poeira da terra, os Sertões, ambos retratam as relações de poder existentes no Brasil.
Mas, é nos lugares sagrados, nas hierópolis que o Brasil se manifesta entre os tempos e os desejos. Onde o sagrado e o profano se materializam em busca de respostas para tempos de incertezas. Hierópolis são lugares de hierofania, onde a manifestação do divino se sacraliza sem fronteiras com o profano. Rosendahl (1996, p. 82) conceitua os santuários como sendo “aqueles lugares considerados sagrados por uma dada população regional, nacional ou de vários países". Estes lugares sagrados, por sua vez, estão focalizados, via de regra, em templos associados a uma "hierofania” (grifo nosso). Contudo,segundo a mesma autora, o espaço comum – profano – pode ser convertido em espaço sagrado a partir de dois processos distintos: através de uma manifestação do sagrado, uma hierofania; ou ainda a partir de ritos que sacralizam o espaço, atribuindo a ele uma conotação diferenciada do seu entorno em virtude das práticas desenvolvidas neste local (Rosendahl, 1999).”1
A festa do Morro da Conceição surgiu a partir da chegada da imagem de Nossa Senhora em 1904. O privilegiado Morro começou a ser povoado por pessoas que queriam fugir das enchentes provocadas pelo rio Capibaribe e Beberibe como também pelo êxodo rural.
...o Morro da Conceição, tiveram o seu boom demográfico intensificado nas décadas de 1950 e 1960, período marcado por um incoerente projeto desenvolvimentista. Essas décadas transformaram profundamente a imagem urbana recifense. Pessoas vindas do interior, que já se encontravam em dificuldades sociais, além de moradores das regiões ribeirinhas do Recife, ameaçadas por repetidas inundações e incluídas na política de erradicação de Mocambos do então governador-interventor Agamenon Magalhães, constituíram nos altos e córregos da zona norte, o que foi tido como o maior assentamento popular contínuo da América Latina.2
Há de se considerar que os jesuítas e os franciscanos foram responsáveis pela propagação da devoção de Nossa Senhora Imaculada da Conceição em vários Estados do Brasil. Foi protetora do Brasil no período colonial. Era então denominado de Oiteiro de Bagnuolo, pois o Conde de Bagnuolo, oficial napolitano a serviço da Espanha e de Portugal ali havia mandado construir um forte. Foi chamado também de Oiteiro da Boa Vista pela sua excelente visão, depois do período holandês. Até que neste século, no ano de 1904, como comemoração do cinquentenário do dogma da Imaculada Conceição, o bispo diocesano D. Luiz Raimundo da Silva Brito mandou edificar, contando com a colaboração da confraria de São Vicente de Paulo, um grande monumento para uma imagem da Virgem da Conceição.
A imagem, de grande porte, foi encomendada em Paris à firma Vaillant Nas et Cie, toda em ferro, que chegou a esta cidade no navio Caravelas. Pesava quase duas toneladas e media 3,50 m de altura. Sua iconografia é característica das imagens de Nossa Senhora da Conceição: uma virgem sobre o globo terrestre esmagando com os pés uma cobra, símbolo do pecado original, de mãos postas em atitude de oração, vestindo túnica branca e manto azul. O monumento ou o seu lugar de assentamento, urna elevada base quadrangular, um gradil de ferro e um nicho gótico composto por quatro colunas fechadas por uma cúpula. Foi construído sob a direção do engenheiro Lafaiete Bandeira. A imagem foi inaugurada no dia 8 de dezembro de 1904.(Mendonça,1986, p.169).3
A festa começa em 29 de novembro e vai até o dia 08 de dezembro. Entre missas, procissões, apresentações folclóricas, novenas, ex-votos, barracas de comidas regionais e atuais, se fazem pertinentes no decorrer da festa. Um lugar abençoado deve possuir ritos, oferendas, devoção e afeto. Onde tempo e espaço se combinam e se entrelaçam sem fronteiras. Há uma dimensão da fé que facilita a chegada do divino. Para Eliade Mircea, tal como o espaço, o tempo também não é, para o homem religioso, nem homogêneo nem contínuo. Há, por um lado, os intervalos de Tempo sagrado, o tempo das festas (na sua grande maioria, festas periódicas); por outro lado, há o Tempo profano, a duração temporal ordinária na qual se inscrevem os atos privados de significado religioso. Entre essas duas espécies de Tempo, existe, é claro, uma solução de continuidade, mas por meio dos ritos o homem religioso pode “passar”, sem perigo, da duração temporal ordinária para o Tempo sagrado (Eliade,1992, p. 38).
Daí constatamos que o Morro da Conceição, é realmente sagrado! Em 1988 com a reestruturação político-administrativa do Recife, o Morro da Conceição, antes denominado Outeiro de Bagnulo, se desmembrou do bairro de Casa Amarela passando a ser bairro da Zona Norte do Recife. Em 1906 foi construída a capela próxima ao monumento de Nossa Senhora da Conceição, depois passou a ser paróquia e hoje é uma Matriz. Carregado de simbologia, o Morro da Conceição tem a fé como o principal trunfo de proteção. Regido por Nossa Senhora da Conceição tem como eixo a peregrinação que faz do Morro da Conceição, um Santuário.
Para tanto, a força que vem das montanhas, dos morros integra o pensamento de um simbolismo de que há uma ligação com o cosmo. “O mesmo simbolismo do Centro explica outras séries de imagens cosmológicas e crenças religiosas, entre as quais vamos reter as mais importantes: (a) as cidades santas e os santuários estão no Centro do Mundo; (b) os templos são réplicas da Montanha cósmica e, conseqüentemente, constituem a “ligação” por excelência entre a Terra e o Céu; (c) os alicerces dos templos mergulham profundamente nas regiões inferiores.” (Eliade, 1992, p.25)
Essa ligação traduz o Morro como um espaço significativo entre o céu e a terra. No dia da festa, o Morro se veste de azul e branco para pedir ou agradecer pelas bênçãos à Nossa Senhora da Conceição. Nas luzes das velas, os peregrinos emanam sua devoção. Devotos do Estado de Pernambuco aparecem para homenagear a Santa com semblantes de esperança e dor. Os ex-votos retratam a urgência de soluções para problemas físicos bem como agradecimentos a cada graça alcançada. O profano e o sagrado dão o show de inventividades revelando o que move o sentido do popular. Para Carlos Rodrigues Brandão (1980) “A religião popular é colocada a serviço dos usos cotidianos para a cura do corpo e da alma". Ou seja, para as dores da alma nada melhor do que a reatualização da fé do povo.
Quanto mais espremido, mas o povo revela suas inquietudes pela ponte entre o céu e a terra, onde o mágico intercala a vida social. Neste ano de 2025, subiu ao Morro o Caboclo de lança do maracatu rural, Camilo Francisco, para reverenciar Nossa Senhora da Conceição. Todo vestido com sua gola bordada de lantejoula, uma meião como os dos jogadores de futebol, chocalhos no surrão, uma lança enfeitada com fitas coloridas, e um chapéu ornamentado com fitas de papel celofane, em que predomina a cor do “guia”: amarelo para Oxum; azul para Oxossi; vermelho para Xangô e assim por diante.”4 Ajoelhou-se diante da Santa, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, exibindo a bela imagem do sincretismo religioso e da vida. Nesse conjunto de fé, o Morro sagrado da Conceição, eleva-se para refinar a devoção de todos os fieis.
Na 121ª festa do Morro da Conceição, da Santa do coração dos recifenses, que ocorreu no dia oito de dezembro de 2025, feriado no Recife e também em outras cidades onde a Santa é padroeira, a esperança tomou conta do citado local. Como sabemos, onde tem fé tem festejos e onde tem festejos tem fé. Assim, o Morro da Conceição possui várias manifestações populares que contemplam sua vivacidade entre a religiosidade do popular contemporâneo e dos movimentos sociais. Maracatu de baque solto e de baque virado, troças carnavalescas, ursos, passistas de frevo, samba reggae, capoeira, quadrilhas juninas, brega e swingueira, configuram um Morro da diversidade cultural.
Cantor e instrumentista como Lucas dos Prazeres, bloco Raízes do Quilombo, Bloco feminino Obirin, Escola de Samba Galeria do Ritmo, Mestre de Capoeira Pirajá, João do Morro, entre outros artistas que fazem parte do celeiro cultural do referido Morro. Mas, foi com o Movimento de Cultura Popular - MCP, com o Padre Reginaldo em 1978, que o sincretismo religioso no referido bairro foi propagado. Assim, na fé escondida e na fé revelada, o traço do divino atua na vivacidade da festa de Nossa Senhora da Conceição, fazendo a dinâmica do Morro sagrado!
Notas
1 Produção e reorganização do espaço na Festa de Nossa Senhora da Conceição, Recife - PE.
2 Será mesmo de Nossa Senhora, o morro da Conceição? Jamerson Kemp, Revista do IAHGP, Recife, n. 67, pp. 113-140, 2014.
3 Revista Ciência e Trópico - Fundação Joaquim Nabuco - A Festa de Nossa Senhora da Conceição no Morro de Casa Amarela, João Hélio Mendonça. p. 169).
4 O Caboclo de Lança e outras curiosidades sobre o Maracatu do Baque Solto ou Maracatu Rural.















