A América Latina, por muito tempo, foi um celeiro das tradições populares que gerou debates e pesquisas no mundo acadêmico sobre questões identitárias. Há quem duvide, mas a tradição e a modernidade caminham juntas para evidenciar a construção social de seus territórios. Nesse sentido, Charles Darwin, ao visitar o “paraíso perdido” chamado Brasil, Henry Koster com as viagens ao Nordeste do Brasil e Mário de Andrade, um modernista que se infiltrou nas tradições populares, apontaram as transformações dos seres vivos e dos seres humanos na sua coletividade.
Nesse sentido, assim como na natureza tudo se transforma, nas culturas populares a identidade está em constante mutação. Vale salientar que as veias econômicas de dominação atravessaram e atravessam as culturas populares, pois hoje não se separam o cotidiano de consumo nem o massivo do popular. Por isso, o nacional e o popular são pautas na construção social de identidades. Assim, as tradições revelam o retrato do momento histórico, político, midiático e econômico de uma época.
Para tanto, a criação da CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe –, em 1948, após o término da Segunda Guerra Mundial, como observatório de modelo de desenvolvimento tecnológico e industrial, serviu de fomento para o regionalismo como uma escola de pensamento latino de identidades entre o nacional e o moderno no desempenho de agendas.1
Também surge no Brasil, no Rio de Janeiro, o ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros –, em 1952, no governo do presidente Juscelino Kubitschek, onde seus principais integrantes foram Guerreiro Ramos, Álvaro Vieira Pinto, Roland Corbisier, Hélio Jaguaribe, Nelson Werneck Sodré, Ignácio Rangel e Cândido Mendes de Almeida, entre outros, que tiveram como intuito a promoção do pensamento social do desenvolvimento do Brasil associado à industrialização. Ou seja, uma ideia de identidade nacionalista.
Há de se considerar que ambos uniram o nacional e o popular em suas pautas. Pois, para Renato Ortiz, há uma estreita relação entre o nacional e o popular. “A memória coletiva é da ordem da vivência, a memória nacional se refere a uma história que transcende os sujeitos e não se concretiza imediatamente no seu cotidiano.” (Ortiz, 1985, p. 135).2
Digamos que as várias fontes do popular fazem das manifestações um lugar plural e subversivo. Assim, os universos simbólicos ordenam as histórias dos seres humanos. Para Ortiz, momentos históricos procuraram definir uma identidade nacional, onde o nacional está ligado ao discurso ideológico de uma história social, enquanto o popular está ligado ao discurso mitológico de um sistema social.
Podemos dizer que a identidade se confundia entre o mito e a ideologia e, hoje, tomam significados distintos na era do streaming. Em outras palavras, momentos históricos procuraram definir uma identidade nacional. Assim, as várias fontes da tradição fazem das manifestações um lugar plural e subversivo.
“Gramsci tem razão ao considerá-la como fragmentada… A cultura popular é plural, e seria talvez mais adequado falarmos em culturas populares… A memória de um fato folclórico existe enquanto tradição, e se encarna no grupo social que a suporta.” (Ortiz, 1985, p. 134).3
Digamos que as culturas populares são portadoras da memória coletiva. O universo simbólico ajuda a sistematizar o mito, enquanto a ideologia se estende à sociedade como um todo. São novos valores e legitimação de estar no mundo. Para Renato Ortiz, “…a identidade nacional é uma entidade abstrata e como tal não pode ser aprendida em sua essência. Ela não se situa junto à concretude do presente, mas se desvenda enquanto virtualidade, isto é, como projeto que se vincula às formas sociais que a sustentam.” (Ortiz, 1985, p. 138).4
Com isso, Stuart Hall se preocupou em estudar a crise da identidade no final do século XX, apontando outros laços e lealdades culturais de identificação globais e novos reconhecimentos locais existentes no Estado-nação, desconstruindo a cultura nacional, a identidade e suas diferenças. Isto é, partindo da ideia do sujeito iluminista, do sujeito social e do sujeito pós-moderno.
Em diferentes momentos, assumimos diferentes identidades a partir de uma política da identidade nas formas de interação no mundo social. O discurso dos estudos culturais com aporte na identidade parte, como diz Canclini, de “uma construção que se narra.” (Canclini, 1995, p. 139).5
Isto significa o aparecimento de identidades mais racionais e universalistas. Então, Renato Ortiz aborda que o estudo da identidade nos remete a uma distinção entre movimentos sociais e manifestações culturais. Pois os grupos são portadores de memórias diferenciadas, onde, através de uma relação política, se constrói uma identidade.
Nesse sentido, o projeto político-cultural é permeado de disputas e representações. Entre o político (esfera da cultura) e a política (esfera das mediações), a identidade nacional é manifestada pelo caráter globalizante. Para tanto, Ortiz afirma “que o universo do consumo surge, assim, como um lugar privilegiado de cidadania” (Ortiz, 1994, p. 122).6
Temos, então, uma identidade nacional pautada na construção do Estado brasileiro e temos também as exigências do mercado. Em outros termos, o processo de globalização rompe o vínculo entre o nacional e os objetos, formando novos valores universais. Digamos que “a desterritorialização prolonga o presente nos espaços mundializados.” (Ortiz, 1994, p. 135).
Há de se considerar que comunidade e memória se entrelaçam, dando lugar à cultura internacional-popular como um sistema de comunicação, afirma Ortiz. Isto é, a memória internacional envolve uma dimensão planetária que traduz o imaginário das sociedades globalizadas.
Desse modo, pelas referências culturais surgem novas identidades pautadas no território da imaginação onde o simbólico atua. Pois, afirma Ortiz, “transformação e esperança alimentam a visão utópica.” (Ortiz, 1994, p. 132). Cabe observar que o valor universal registrado pela incorporação dos padrões da globalização é onde as referências culturais devem ser desenraizadas.
Hoje, com a Inteligência Artificial e com novas realidades, o pensamento de Bauman aborda que a identidade está em constante mutação. No mundo da hipervelocidade, não se permite que a identidade se solidifique, apontando para uma sociedade líquida. Assim como aponta Bauman, há uma customização da vida.
Nesse lugar sem âncoras, podemos pensar que o Estado se aproxima das culturas populares para promover a cultura nacional, mas o mercado é quem universaliza a cultura. Ele é o mediador entre o particular e o universal. A exemplo disso, temos o filme O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que trouxe o particular e o nacional para o mundo.
O audiovisual contempla o passado e o futuro, provocando a memória internacional-popular.7 “O futuro sempre foi incerto, mas seu caráter inconstante e volátil nunca pareceu tão inextricável como no líquido mundo moderno da força de trabalho ‘flexível’, dos frágeis vínculos entre os seres humanos, dos humores fluidos, das ameaças flutuantes e do incontrolável cortejo de perigos camaleônicos” (Bauman, 2005, p. 74).8
Desse modo, Max Weber realça que, quando você muda de status, você muda de identidade. A esse propósito, C. Dubar salienta que, no pensamento de Weber, “a identidade dos atores sociais é o resultado provisório e contingente das dinâmicas diversificadas de engajamentos, dentro de espaços de jogo estruturados pelas regras em perpétua evolução” (Dubar, 1991, p. 64).9
Então, o internacional-popular contempla a desterritorialização, o consumo e a educação como faces da mesma moeda, segundo Ortiz: véu ideológico, uma memória internacional planetária, passado e futuro se fundem, modernidade emergente com o mercado projetando uma sociedade global do consumo de compras online.
Assim, se a memória deixa rastros, são os traços da tradição que alimentam também a formação identitária. Mas, as exigências do mercado funcionam como termômetro das identidades que proporcionam identidades fragmentadas pelo valor universal do internacional-popular.
Notas
1 Agenda 2030 en América Latina y el Caribe.
2 Ortiz, R. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. ed 3º. Ed. Brasiliense. São Paulo: 1985.
3 Ortiz, R. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. ed 3º. Ed. Brasiliense. São Paulo: 1985.
4 Ortiz, R. Cultura Brasileira e Identidade Nacional. ed 3º. Ed. Brasiliense. São Paulo: 1985.
5 Revisitando o conceito de identidade nacional.
6 Ortiz, R. Mundialização e Cultura. Ed. Brasilense. São Paulo: 1994.
7 "Perna cabeluda" evoca identidade cultural do Recife.
8 Bauman, Z. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2005.
9 A construção teórica dos conceitos de socialização e identidade.















