Depois de muitos anos nos entregando de corpo e alma aos tentáculos das redes sociais e da tecnologia, finalmente conseguimos acender o debate da importância da reconexão humana, seja consigo mesma(o), seja com outros seres que nos rodeiam. E, felizmente, ela tem avançado, embora ainda a passos lentos.
Para alcançar esse objetivo, entretanto, paradoxalmente, muitas vezes recorremos aos vídeos dessas mesmas redes sociais esperando encontrar um passo a passo detalhado de como passar menos tempo rolando o feed e mais tempo estabelecendo laços verdadeiros e praticando o autoconhecimento (leia-se: fazendo coisas que de fato vão nos preencher).
O que muito tem se visto nesses vídeos é, principalmente, a construção de hábitos considerados saudáveis (quando não viram pura obsessão), como acordar cedo, ter um hobby e cultivar a prática de atividades físicas como a yoga – objeto desta pequena reflexão.
Confesso que sou praticante de yoga já há alguns anos, desde 2020, quando no auge da pandemia minha ansiedade se preparava para transformar-se em síndrome do pânico. Encontrei na yoga, de fato, um refúgio, um momento de relaxamento, de cuidar de mim e de conhecer mais meu corpo e meus pensamentos.
Na época, porém, ainda se falava muito pouco sobre a yoga, e eu fazia apenas aulas online disponíveis no próprio Youtube, sem professores me conduzindo ou prestando atenção nas posturas. Então, também não me considerava, de fato, uma praticante — a meu ver, eu era no máximo uma curiosa, uma entusiasta. Os anos foram passando, e eu parei de praticar devido à falta de tempo ao retornar gradualmente para as atividades cotidianas. Até que em outubro de 2023, minha mãe me convidou para fazer uma aula experimental com ela em um estúdio próximo à nossa casa.
Daí para frente, amei e vivi intensamente o yoga ao longo dos últimos anos! Pratiquei hatha, hatha flow, vinyasa, yin e até hot yoga — essa última modalidade, confesso que odiei e, pessoalmente, ainda não entendo por que faz tanto sucesso (não me cancelem!). Eu posso falar agora que a prática faz parte não só do meu dia a dia, mas da minha vida, da minha vivência, a ponto de, em semanas que não consigo encaixar uma aula sequer, parece que algo fica faltando e meu humor se desequilibra um pouco, fora o alongamento que piora drasticamente.
A outra face dessa moda, todavia, é a forma como a indústria wellness tem aproveitado esse hype de uma prática tão profunda em produto a ser comercializado (inclusive, acho que o hot yoga se enquadraria facilmente aqui, mas não vou aprofundar nisso). Para praticar yoga, vendem-se roupas fitness específicas, garrafas térmicas caríssimas e uma ideia de vida que se alinha muito com ideais que, sejamos honestos, não combinam em nada com a maior parte da vida dos brasileiros.
Além disso, tornou-se um hábito a ser incluído nas famosas “rotinas de sucesso”, filmadas e postadas por blogueiros e blogueiras em suas redes sociais como uma atividade de descompressão no meio do cotidiano cheio de compromissos. Porém, esquecemos que essas pessoas não trabalham oito horas por dia, não pegam transporte público, não precisam faxinar a própria casa, nem acordar cedo e dormir tarde para dar conta de tarefas que nós, meros mortais, precisamos cumprir.
A indústria é esperta e sabe que despertar o desejo de ser igual a uma elite específica que pratica yoga em países ricos, o que é uma estratégia eficaz para vender justamente! E é uma pena, porque eu, como praticante há alguns anos, indico a todos a prática de alguma modalidade de yoga. Acredito que, muito mais que uma atividade física, é uma atividade de bem-estar mental, que tranquiliza a mente, nos ensina a conhecer nosso próprio corpo, nossos pensamentos, nossos limites e nossas potencialidades.
Espero que a yoga não perca todo seu significado e que possa transformar a vida de todos que estejam abertos a conhecer e viver a yoga. E se você nunca praticou, fica aqui a minha recomendação! São inúmeras modalidades, como eu disse, e tenho certeza que você vai encontrar uma aderente ao seu perfil.
Yoga é sobre alinhar corpo e mente, trabalhar a respiração, o silêncio e o corpo em cada postura. É apreciar o chegar em cada postura, não só a postura em si, entendendo que cada um tem seu tempo, cada um tem um grau de alongamento e cada um tem um ponto forte. Por exemplo, o meu forte são as invertidas!
A yoga ainda ajuda a diminuir a ansiedade, o estresse e até a pressão arterial (quer mais?). Enfim, é uma prática recheada de benefícios, e quando levada a sério, volto a ressaltar, pode transrevolucionar — sem exageros — seus dias e sua vida!
Que a yoga e seus praticantes sejam fortes e resilientes o suficiente para se contrapor a esse estilo de vida construído pela indústria wellness moderna — até porque essa abordagem retira todo o significado e a profundidade de realmente praticar yoga. Espero convictamente que não seja nada mais que uma “moda de criar modas” passageira!















