Há fenómenos sociológicos que, não sendo oficialmente estudados por universidades ou institutos de estatística, merecem, no mínimo, uma dissertação de mestrado. A “corrida das espreguiçadeiras” é um deles. Um ritual (normalmente) de verão, um sprint matinal com implicações quase geopolíticas, um jogo de estratégia digno de um chess master de calções e chinelos.

São seis da manhã; o sol ainda espreita, tímido, por detrás dos coqueiros artificiais de um resort algarvio ou de uma ilha qualquer do Pacífico. A maioria dos hóspedes ainda dorme, embalados pelos mojitos da véspera ou porque adormeceram tarde a ouvir o bebé no quarto ao lado que não parava de chorar. Mas os madrugadores, “atletas da espreguiçadeira”, já se encontram prontos para a ação. Com uma precisão quase militar, saem dos quartos, armados com toalhas do hotel ou compradas nas lojas de recuerdos e marcham subtilmente, com uma certa rapidez disfarçada, em direção à piscina. Há quem leve o filho bebé como disfarce, quem finja estar a fazer jogging matinal e até quem adote a postura de “estou só a ver o nascer do sol”, enquanto instala sorrateiramente três toalhas em fila com a maior das naturalidades.

A posse de uma espreguiçadeira não depende do seu uso, mas sim da marcação territorial. Basta deixar lá a toalha ao romper do sol e pronto, é toda sua. Se a utilizar ou não, é irrelevante. Volta-se ao quarto, dorme-se mais um pouco, vai-se tomar o pequeno-almoço muito paulatinamente, aproveitando o buffet magistral e, se calhar, só se regressa à piscina lá para as três da tarde. Vai na volta e de manhã até está nublado. Mas a espreguiçadeira, essa, está garantida, como se fosse um imóvel de férias em plena época alta.

Se pensarmos bem, o hotel até podia lucrar (ainda mais) com isto. Já estou a imaginar no Booking: um quarto duplo com duas camas de solteiro ou uma cama de casal grande, com pequeno-almoço incluído — 150€ por noite. Por mais 25€, tem garantido quatro horas de espreguiçadeira por dia, sem poder acumular tempo não usado para usufruir nos dias posteriores. Para acrescentar tempo, incrementos de uma hora, seriam mais 2,5€. Ou então o pacote Extra Vacation com desconto: pela módica quantia de 200€, tem direito (para além do pacote base do quarto) a uma espreguiçadeira, durante todo o dia. Estou a imaginar os influencers todos: “Olá maltinha, hoje estou a oferecer às dez primeiras pessoas que responderem e partilharem o meu story, um vale de três horas de espreguiçadeira, para utilizarem nos hotéis aderentes”. Da maneira que as coisas andam, acredito que isto ia ter bastante impacto. Esta foi de graça; agradeçam depois.

Mas alguém mais incauto se atreve a sentar-se na espreguiçadeira “abandonada” com a toalha, cai-lhe o mundo em cima. O “dono” pode surgir em modo justiceiro, apontando o dedo e vociferando com indignação: “Essa está reservada! Não viu a toalha?!”. Como se uma peça de pano ficasse subitamente investida de autoridade notarial. Mas lá está, “Se toda a gente faz, eu não vou fazer?” — é o argumento universal do conformismo. Em alguns locais, existem até placas com avisos ou então uma dupla de funcionários do hotel, destacados para vigiar e impedir este tipo de situação. Faz lembrar um pouco os avisos nos cafés ou derivados onde só se pode estar nas mesas por um determinado período (cronometrado pelo bom senso). Alguns estabelecimentos têm até este tipo de avisos afixados

As mesas deste estabelecimento são exclusivamente para usufruto dos seus clientes, para consumo de produtos adquiridos no mesmo.

Proibido estar a trabalhar no computador ou a ler.

Proibido estar mais de 20 minutos seguidos a ouvir Tik-Toks no telemóvel

(Esta última, inventei)

Enquanto isso, há turistas mais ingénuos que chegam por volta das dez horas, esperançados em encontrar uma espreguiçadeira livre. Deparam-se com um campo de batalha, vazio de corpos, mas cheio de toalhas do Sponge Bob, com o galo de Barcelos ou então até, com uma boa chapa do nosso Cristiano Ronaldo. Parecem ter entrado num museu de arte moderna ao ar livre: exposições de têxteis de felpo abstratos em suportes reclináveis. Mas há espreguiçadeiras mais valiosas do que outras. Normalmente as que estão à sombra ou perto do chuveiro (onde o barulho interrompe qualquer tentativa de uma sestazinha) são as que ficam para o fim. Depois há aquelas que estão partidas, falta-lhes uma roda ou estão sujas. É todo um conjunto de fatores que complica ainda mais garantir uma espreguiçadeira à beira da piscina. Uma verdadeira prova de resistência, não contra o calor ou a distância, mas contra a simples ideia de partilhar o espaço e o tempo.

Talvez esteja na altura de devolvermos ao descanso o seu verdadeiro sentido. De aceitarmos que não ter uma espreguiçadeira não é o fim do mundo. Mas para isso, claro, era preciso combinar com os alemães do quarto 237. Eles já estão à porta da piscina desde as seis da manhã. E trouxeram mais toalhas… Pelo sim, pelo não, acho que vou só ali colocar uma toalha.