Eu sou o tipo de pessoa que adora assistir filmes e séries repetidas. Apesar de, claro, trazerem muito conforto, acho que vai além daquilo que dizem sobre trazerem previsibilidade. Assistir repetidamente filmes e séries proporciona muito mais do que um mero consolo; esse ato permite alcançar novos espaços de reflexão a partir da apresentação de personagens e situações, e da observação de ângulos que não são os nossos.

Vale destacar, no entanto, que existe o tipo de série que é gostoso de rever pela ação e por nos tirar completamente da realidade, transportando-nos para um universo completamente alternativo – como é o caso de Stranger Things, Supernatural e The Vampire Diaries para mim. Essas séries eu gosto mesmo de assistir quando preciso desligar, e não só desacelerar. Isso porque elas tratam de coisas que não são nem reais, e de maneira envolvente, cativante, que nos faz desejar que essas criaturas existissem (apesar de todos os perigos que os personagens enfrentam ao longo das temporadas para combatê-las).

E existe o tipo de série leve, aconchegante, que parece um cobertor bem fofinho dando voltas em você em um dia de chuva e frio. Para mim, as principais que se encaixam aqui são sempre as famosas sitcoms, e sobre as quais vou falar hoje.

Que fique claro que eu sou suspeita para falar sobre o assunto, porque eu Adoro sitcoms, como Brooklyn 99, One day at a time e Apartment 23. Porém – e talvez para sua decepção, caso tenha achado que eu vou indicar aqui coisas muito diferentona –, quero enaltecer aqui as séries que eu mais repito, porque sempre me ajudam a fugir da correria do dia a dia.

Além disso, eu adoro o ato de reassistir, porque parece que cada vez que assisto cada uma dessas séries eu aprendo algo novo. Acho que essa também é a beleza de assistir várias vezes a mesma coisa: podemos prestar atenção individualmente a cada aspecto em cada novo ciclo, e às vezes é só isso que precisamos, uma mudança de perspectiva.

É provável que você já tenha assistido uma (ou todas) dessa lista que vou apresentar a seguir. Mas quem sabe você não dá uma nova chance considerando todas as lições que aprendi com elas?

Friends (HBO Max)

Sim, ela tinha que ser a primeira e nunca ficaria de fora do meu hall de séries favoritas no mundo!

É verdade que, sobre certos valores, ela pode ter envelhecido mal, no entanto acho importante sempre considerarmos o contexto de produção dela – e vale ressaltar também que, se por um lado ela é um pouco cancelável, por outro ela também aborda assuntos que eram tabus para época (vide a relação lésbica de Carol e o pai transsexual do Chandler).

Essa com certeza é a série que eu mais assisti e assisti desde que eu tenho uns 15 anos (na época, cheguei a comprar os DVDs todos, já que não tinha streaming ainda!). Com ela eu aprendi que aos 20 e poucos nós não precisamos estar com tudo resolvido, e que provavelmente só depois dos 30 é que vamos começar a entender certas coisas e conquistar sonhos maiores. O desenvolvimento do personagem da Rachel é o melhor, nesse sentido, e confesso que agora, no auge dos meus 20 e tantos, ainda preciso reassistir algumas vezes para me lembrar que ninguém começa do topo. O desenvolvimento da carreira, a estabilidade e o sucesso chegam devagar e com muito esforço, coisa que sempre relembro ao vê-la evoluindo ao longo de 10 anos.

Aprendi também que muitas vezes nossos amigos se tornam nossa nova família, porque nem sempre temos a melhor relação com nossa família, mas os amigos, pessoas que sentimos afinidade e realmente amamos sem a obrigação do laço sanguíneo, esses sim podem ocupar um lugar gigantesco na nossa vida.

Dois personagens que para mim merecem destaque são Chandler e Phoebe: eles me ensinaram sobre tentar levar a vida com mais leveza, rir de situações desconfortáveis e dar a volta por cima a cada obstáculo, com muita resiliência e, óbvio, com ajuda dos nossos amigos. A Mônica e o Joey também são personagens extremamente queridos para mim, já que são os que têm o valor de lealdade estupidamente alto: mesmo que a vida deles esteja de cabeça para baixo, eles largam tudo para ajudar seus amigos quando precisam. São personagens fortes, que persistem no que querem e ainda são cativantes por natureza.

O Ross, por fim, personagem que se tornou contraditório conforme a série envelheceu, me mostrou como é possível fazer coisas incríveis pelos nossos amigos quando eles acham que não estamos reparando – quem não lembra o episódio em que ele dá a primeira bicicleta para Phoebe sem ela ao menos pedir ou esperar? E, de bônus, não importa quão ruim o seu dia esteja, pode ter certeza que o do Ross vai estar pior, seja entalado em uma calça de couro, afastado por descontrole da raiva ou despejado do seu próprio apartamento!

How I Met Your Mother (Disney+)

Essa é de longe a série que tem mais aprendizados para compartilhar, literalmente! Acho que pelo fato de ser um pai narrando para seus filhos alguns acontecimentos do final dos 20 e poucos anos e começo dos 30, ela traz ensinamentos que realmente ecoam depois de assistir cada episódio.

Ao contar sobre os (longos!) anos da busca de Ted pelo amor verdadeiro, acho que uma das principais lições que ficam é que o amor está por aí; na verdade ele pode estar em todo e qualquer lugar. E que não é porque uma pessoa te magoou, ou porque uma relação não deu certo, que devemos parar de acreditar no amor. Ted é um personagem extremamente resiliente, nesse sentido, pois ele sabe o que quer e não desiste até encontrar (sim, tem o final horroroso, mas eu desconsidero essa parte).

Marshall e Lily me ensinaram como é de fato um relacionamento saudável. Antes de assistir a essa série, eu nunca tinha parado para pensar sobre esse assunto, e com eles eu entendi que para uma relação amorosa ser forte e duradoura, é preciso ter respeito, apoio, conversas, diversão e até brigas – e que tudo bem se quiserem pausar no meio delas para esfriar a cabeça e ninguém se machucar! É sem dúvidas o tipo de relação que eu almejo ter.

Robin ensina a cada episódio como ser mulher independente, e que isso é muito diferente de ser egoísta. O foco dela em sua carreira, a determinação que ela tem de fazer tudo sozinha e o fato de ela sempre defender que não quer ter um destino tradicional (casar e ter filhos) me mostrou um caminho diferente do que eu achava que precisava seguir; inclusive foi com ela que eu entendi que eu nunca quis ter filhos, que era apenas um dito comum falado dos meus parentes para mim. E por outro lado, aprendi também que eu posso me deixar ser amada, e que isso não me fará menos forte.

E nosso Barney, também altamente controverso, me ensinou que nada que eu fizer nessa vida será lendário, ao menos que meus amigos estejam lá para ver! Apesar do seu tratamento duvidoso – para dizer o mínimo – com as mulheres, Barney é um ótimo amigo. A série tenta mostrar como ele é próximo do Ted, mas é a sua amizade com o Marshall e com a Lily que realmente mostram o lado doce dele (e eu só vi isso depois de reassistir pela terceira vez a série!).

Modern Family (Disney+)

Essa aqui tem muitos personagens, então vou tentar ser breve (não prometo nada!). Modern Family conquistou meu coração desde o começo, e uma coisa que eu amo muito nela é que não tem aquelas risadinhas de fundo de auditório como nas duas anteriores.

A família Dunphy, em primeiro lugar, é exatamente o jeito que eu imaginaria a minha família. Embora eu não queira ter filhos, eu sinto uma identificação muito forte com a Claire: completamente controladora, que sempre quer estar certa e tem dificuldade de pedir ajuda até para aqueles que a amam. A Claire é uma personagem forte, destemida, que me ensinou que tudo bem eu não ser forte o tempo todo, desde que eu tenha aquela rede de segurança confiável para não me deixar cair.

O Phill ensina, episódio após episódio, a nunca deixarmos nossa criança interior morrer – algo que ele também passa muito bem para o Luke. Esses dois personagens mostram que às vezes, para tirar nossos sonhos mais loucos do papel, só precisamos de um pouco de coragem e de não ligar para o que os outros vão pensar. Alex e Haley, polos completamente opostos, também são personagens muito queridas por mim, e o processo de amadurecimento de cada uma das duas evidencia como cada etapa pode ser dolorosa, mas que, se não desistimos, o que é nosso está guardado, e vai ser incrível!

Já com Mitch e Cam, além de entender que o amor pede muita comunicação (aspecto que eles falham muito em toda a série), aprendi que é bom estar com alguém que desafia nossos limites – com respeito, é claro – e nos faz evoluir como pessoa. Mitch sem o Cam seria uma pessoa extremamente egoísta, cheia de “não me toques” e nunca correria atrás dos seus sonhos. Já o Cam quebraria muito a cara em situações diversas, nunca aprenderia a respeitar o espaço dos outros, nem a ouvir críticas e conselhos. Eles se completam, e mostram a importância de conviver com pessoas diferentes de nós (e quem sabe isso não se transforme em um amor igual o deles?).

Por fim, Jay nos ensina que nunca é tarde para ser genuinamente feliz, e que é possível sim mudar certos valores e crenças quando eles perdem o sentido. E a Glória (maravilhosa!) e o Manny são responsáveis por mostrar que tudo bem ser diferente – cada um do seu jeito aqui –, e que não devemos sentir vergonha de quem somos e como agimos, quando fazemos isso com amor e autenticidade.

The Office (U.S.) (Netflix / HBO Max / Prime Video)

Essa foi um descobrimento na minha vida! E sim, já aviso que a primeira temporada é completamente duvidosa e nada cativante, mas a boa notícia é que ela tem menos de 8 episódios e depois disso só melhora.

The Office já me ganha por ser uma incrível sátira do que seria um escritório típico de sucesso americano, que na verdade tem mais pessoas que deram sorte do que pessoas de fato competentes como chefes.

A série foi gravada em um formato como se fosse um documentário sobre uma filial da Dunder Mifflin, uma empresa de – pasmem – papel. Isso oferece uma perspectiva muito diferente em relação às outras séries de comédia que falei aqui. E é impossível não se apegar mesmo aos personagens mais estranhos ao longo dos anos que se passam no documentário.

O personagem central, Michael, gerente do escritório, é um verdadeiro inútil por quem nos apaixonamos rapidamente na série. Ele é uma pessoa totalmente fora da órbita, inconveniente, ignorante e até intolerante em algumas circunstâncias, no entanto ele também é muito inocente e percebe-se desde o começo que ele não tem muitos amigos (por que será, né?), o que contribui para criarmos uma empatia com ele.

E apesar de ter 0 competência para administrar e chefiar um escritório, ele nos ensina que liderança nem sempre é sobre mandar os outros executarem tarefas e cobrar resultados. Ele mostra que tá tudo bem dar um descanso, bolar dinâmicas de grupo para os funcionários interagirem e descansarem, e que (embora eu seja muito contra a lógica de um trabalho que fala “somos família) essas pessoas com quem passamos grande parte dos nossos dias são como parentes, com quem convivemos diariamente e que também estão passando por dificuldades próprias delas.

O Jim nos mostra que muitas vezes desperdiçamos nosso potencial em lugares que, se pararmos para pensar, nem queríamos nem deveríamos estar. A Pam também é uma ótima personagem, com quem aprendi que é muito fácil autossabotar nossa própria felicidade ao optarmos fazer coisas que achamos que deveríamos fazer e não fazer aquilo que de fato temos vontade; ela nos ensina a permanecermos verdadeiros com aquilo que somos e o que queremos. E eles dois juntos, não preciso nem falar nada: um dos casais mais saudáveis de toda a televisão e de um amor tão genuíno que parece que podemos sentir do lado de cá da tela.

Já o Dwight me ensinou que trabalhar duro pelos nossos objetivos é indispensável, e que a jornada pode ser longa e difícil, mas se soubermos para onde estamos indo, pode ter certeza que vamos atingir o objetivo.

Sex and the City (Netflix / HBO Max)

Por último e não menos importante, essa aqui acho que é voltada principalmente para as mulheres. Sex and the City chegou na minha vida ano passado só (acredite se quiser), devido à minha crise dos quase 30. Com mulheres mais velhas e mais poderosas, essa série toda é um grande acontecimento na vida feminina dos anos 2000 em diante.

Ao invés de passar por personagens aqui, quero falar de maneira mais geral, porque todas elas – Carrie, Charlotte, Miranda e Samantha – contribuem para passar a principal mensagem da série, que é: autonomia feminina e liberdade de escolha.

Os episódios nos mostram que não tem problema nenhum ser solteira aos 30 e tantos anos, e que podemos dedicar tempo a nós mesmas e não somente em ficar atrás de um homem para casar e ter filhos. Sim, a Charlotte, principalmente, tem esse grande objetivo, mas ela ainda aproveita e se diverte muito antes de alcançá-lo.

É uma série sobre amizade verdadeira entre mulheres e que quebra tantos tabus da televisão, falando sobre sexualidade, sucesso e poder femininos. Miranda e Samantha constroem carreiras verdadeiramente admiráveis e são exatamente o tipo de mulher que pode bater no peito e falar que não depende de macho para nada – mas às vezes é bom ter um contatinho para diversão!

A produção destaca principalmente a importância de encontrar alegria e satisfação no trabalho, nas amizades, nos hobbies e nas experiências individuais, e não só no amor romântico – esse chega quando tiver de chegar.

E com isso consegui aprender que a felicidade é uma jornada pessoal que pode ser alcançada de várias maneiras; não existe um jeito único, nem uma fórmula mágica. Esse aprendizado é especialmente importante em um mundo onde ainda há muita pressão sobre as mulheres para encontrar um parceiro romântico como única fonte de felicidade, como se casar com qualquer um e procriar fosse o único objetivo da vida de uma mulher.

Então, é isso! Pode preparar a pipoca para curtir 20 minutinhos de episódio.

Espero que assistam com esses novos olhares que propus aqui. Quem sabe você não descobre uma coisa nova sobre você mesmo(a)?