Falar de territórios é desnudar camadas. Camadas de chão e de corpos. Camadas de tempo, de memórias, de limites. Seja o espaço geográfico dos mapas e as suas divisas, o território simbólico da pertença e identidade, o território ecológico como extensão da vida ou ainda o corpo, essa primeira e mais íntima fronteira.
Os princípios modernos afirmam: somos energia condensada. A ciência, com as suas lentes e métodos predizem teorias que nos aproximam desta simplória definição. Mas, num olhar mais atento e em observação pormenorizada, percebemos que somos mais do que isso - somos afetos herdados, emoções incrustadas, sentimentos cultivados e tradições encarnadas. Somos também espaços físicos e mentais onde os nossos antepassados habitam.
Mas conseguimos sentir os espaços? Trocamos energia com a casa, o bairro, a cidade, o país que escolhemos viver? Captamos as suas mensagens? Será este tecido um condutor de memórias? Para os povos originários, a Terra é um ser vivo, com memória e sentimentos. Ela é um corpo ancestral, sábio, uma grande biblioteca onde consultamos os caminhos já trilhados, com rotas nem sempre ideais, cheia de erros que insistem em repetir-se.
A Terra é uma amiga conselheira e sábia, uma avó de cabelos de vento e pele de rochas, portadora de histórias, com traumas resolvidos e com bons conselhos. As suas palavras chamamos história e estudamos nos livros. Ela transcende os espaços físicos, incorpora as narrativas e molda a identidade de um povo. A sustentação da vida e as práticas comunitárias atuais, demonstram a sua resiliência. No entanto, o discurso contemporâneo da gestão ambiental transforma o respeito em teoria impressa em papel, aprovada em bancadas geopolíticas e guardadas para uso em tribunais corrompidos.
O território espacial é autêntico e sustentável. Ele não depende da presença humana. Renova-se em ciclos, reconhece a sua integridade ecológica e se deixa mercantilizar. Fazemos trocas inconscientes com essa malha viva, densa em significados subtis. Quando nos abrimos a uma conexão consciente com o espaço físico, somos acolhidos pela pertença. Aqui, a imigração pode ser lida como um resgate necessário, uma busca de significar um vazio, que nos traga paz e nos leve a vibrar em direção à plenitude. É rumar na direção do território que nos traz alento e faz-nos evoluir. Para alguns, essa desconexão com o seu espaço nascituro é ferida profunda. Ela pode manifestar-se em adoecimento físico e emocional. A decisão de voltar ou permanecer é difícil.
A consciência deste processo é, por si, uma ferramenta de cura transgeracional. Se os espaços são detentores de energia, eles acumulam as intensidades das emoções ali vividas. Esses “contentores” simbólicos, quando saturados, desencadeiam conflitos e os litígios por espaços de pertença, usurpam a identidade cultural, geram mortes, dor e muito ressentimentos, os quais são testemunhados ao longo da história. As disputas por espaços alimentam guerras, destroem e silenciam espiritualidades e ceifam legados de vidas e dignidade.
Isto afeta como percebemos o sagrado e horizontaliza as simbologias, pois os desconectam dos seus contextos. Pesquisas apontam que países como a Índia, o Quénia e a China, tem visto as suas práticas ancestrais serem transformadas pelas políticas mundiais. A transmissão do sagrado se dilui e perdemos diversidade simbólica, espiritual e ecológica.
Violar a integridade energética de um espaço é mais que um desrespeito - é rutura. Esta ação cria conflitos, fragmenta as estruturas sociais, enfraquece vínculos. O preço? Perda de equilíbrio e diversidade. Do ponto de vista antropológico, o corpo é o território atómico. Nele experimentamos o prazer, a dor, a distinção de posse e limites e compreende o território de identidade, resistência e criação. O corpo é onde a luta começa, onde a criação pulsa. Ele é o catálogo de memórias dos que vieram antes de nós, a ancestralidade viva, a expressão coletiva de pertença. Esse sensor simbólico regista as camadas culturais dos ambientes e promove o equilíbrio com o território ecológico que é a extensão viva da Terra.
Quando o ambiente adoece, o corpo físico sente, reage e nos traz mazelas. O espaço físico assim como o corpo, é território de arquivo. Em conjunto encerram histórias de silêncios e resistência. E quando os espaços ganham expressão política, ganham voz na arte, nos movimento sociais, na arquitetura e na luta por ocupação por espaços urbanos. O território é o mutante que somatiza a história concreta de cada corpo e das suas lutas. É energia que se transmuta em linguagem, herança, memória, dor e desejo encarnado. Sim, trocamos energia com os espaços, mas essa troca não é igual para todos.
Ela é atravessada por conflitos e poder, pois a cidade não fala da mesma forma com todos os corpos. A condição racial, económica, de género moldam as posições que ocupamos no território e são lugares desiguais. Entender que, para uns, casa é sinónimo de abrigo e para outros é a dura lembrança de exílio. O espaço é um fio condutor de blocos de sentimentos de quem habitam, choram, celebram e resistem ali. Nele não há neutralidade e sim a expansão de presença legitima de afirmação coletiva em paisagem terrestre.















