A forma como entendemos riqueza e poder no século XXI é, em muitos aspectos, um reflexo distorcido da realidade. Fomos condicionados a olhar para números grandiosos, para o Produto Interno Bruto (PIB) e para o valor de mercado de grandes corporações como o Google e a Microsoft, como se esses fossem os únicos indicadores de força de uma nação. No entanto, uma análise mais fria e menos apaixonada da geopolítica mundial nos leva a questionar: será que essa é a verdadeira riqueza?
Existe uma diferença crucial entre a riqueza real e a riqueza financeirizada. A primeira é palpável, é tangível. Ela se manifesta nos recursos naturais de um país, em sua capacidade produtiva e na robustez de seu parque industrial. É a riqueza que vem da terra, das fábricas, das estradas, dos grãos e dos minérios. É a capacidade de transformar matéria-prima em produtos úteis e de sustentar a própria população e exportar o excedente. É o pilar que sustenta a vida cotidiana e a sobrevivência de uma nação.
Já a riqueza financeirizada é, em sua essência, um número. É um valor atribuído a uma cotação na bolsa de valores, a uma posição financeira ou a um título de crédito. Ela é fluida, volátil e, muitas vezes, desconectada da produção real. Pense, por exemplo, em uma empresa de tecnologia que vale bilhões de dólares, mas não produz um único bem físico. Sua riqueza está em sua propriedade intelectual, em seus algoritmos e em sua capacidade de influenciar o mercado. Mas o que aconteceria se a infraestrutura que a sustenta, a energia que a alimenta e os bens de consumo que seus funcionários usam, não existissem mais? A riqueza financeira, nesse cenário, se desintegra.
Para entender essa dinâmica em sua forma mais crua, basta olhar para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Desde 2022, o mundo testemunha uma guerra que, na teoria, a Rússia não deveria ter conseguido sustentar. Ela sofreu uma enxurrada de sanções e embargos econômicos sem precedentes impostos pelas maiores potências do mundo ocidental. A OTAN e os Estados Unidos se uniram para apoiar militar e financeiramente a Ucrânia, despejando bilhões de dólares em armamentos e ajuda humanitária. O objetivo era claro: sufocar a economia russa, paralisar sua capacidade de guerra e forçar sua rendição.
No entanto, o resultado, para muitos, foi surpreendente. Mesmo diante de tamanha pressão, a Rússia não foi subjugada. Pelo contrário, ela tem mantido uma posição forte e, em muitos aspectos, de liderança no conflito. Ela continua a fornecer commodities essenciais para outros países e a satisfazer as demandas internas de sua economia e de sua população. Isso não é uma coincidência. É o poder da economia real em ação.
Aqui, não se trata de tomar partido ou de torcer por um lado ou outro. O objetivo é fazer uma análise geopolítica sem paixão, buscando entender o porquê das coisas. O que a Rússia tem, que a Ucrânia, mesmo com todo o apoio ocidental, não tem? A resposta está em sua vasta riqueza natural e em seu robusto parque industrial.
A Rússia é um dos maiores produtores de gás natural, petróleo, níquel, alumínio e trigo do mundo. Ela tem uma base industrial sólida, capaz de produzir armamentos, veículos e bens de consumo. Além disso, uma parte significativa de sua população é composta por profissionais com formação em áreas de exatas, como engenharia, o que garante a mão de obra qualificada necessária para manter o motor da economia funcionando.
Se a guerra fosse apenas um jogo de números de PIB, a OTAN já teria aniquilado a Rússia há muito tempo. O PIB dos Estados Unidos sozinho é mais de dez vezes maior que o da Rússia. Mas o PIB ocidental, em sua maior parte, é composto por serviços, pelo setor financeiro e pela riqueza de empresas com alto valor de mercado que, em sua essência, produzem intangíveis. No campo de batalha, o que vale é a capacidade de produzir um míssil, um tanque, um drone, e de fornecer energia para as indústrias e alimentos para a população. É a capacidade de transformar recursos em poder, e nisso a Rússia se mostrou extremamente resiliente.
A lição que fica é clara: em uma guerra, seja ela militar ou econômica, o que realmente conta é a economia real. Ela é o fiel da balança. A capacidade de um país de produzir e de se sustentar é o que determina sua força e sua resistência. A riqueza meramente financeira, por outro lado, se revela como uma casa de cartas em tempos de crise. Ela pode ser um poderoso motor em tempos de paz e prosperidade, mas sua fragilidade se expõe quando a capacidade de produção e o acesso a recursos são colocados em xeque.
A China entendeu isso. Ela fez a conta na ponta do lápis e sabe que a economia norte-americana é marcada por uma série de engodos e narrativas. O governo chinês sabe que sua sustentação política e sua capacidade de se projetar como uma superpotência global dependem diretamente da sua produção industrial.
Se o parque fabril chinês, o maior do mundo, parar de girar, toda a estrutura de poder do Estado pode ser colocada em xeque. A China não pode se dar ao luxo de se tornar uma economia meramente de serviços e finanças. Ela precisa manter sua indústria forte, pujante, e continuar a desovar seus produtos manufaturados para mercados como Brasil, África, Oriente Médio e Ásia.
É por isso que a estratégia chinesa em relação à América do Sul e ao Brasil é tão calculada. O governo chinês, em sua inteligência pragmática, está agora cortando o continente através da rota bioceânica. Os objetivos são claros e multifacetados. Em primeiro lugar, é uma forma de evitar a dependência do Canal do Panamá, uma via de navegação controlada pelos Estados Unidos. Em segundo, busca-se reduzir custos e tempo logístico para extrair matérias-primas e, ao mesmo tempo, facilitar a distribuição de sua produção industrial. Mas, sobretudo, essa é uma jogada no grande tabuleiro da geopolítica. A construção de uma nova rota comercial é uma forma de marcar território, de estabelecer novas esferas de influência e de demonstrar ao mundo que o poder chinês está em constante expansão, não apenas financeiramente, mas também através da construção de infraestrutura real e da consolidação de parcerias estratégicas.
A rota bioceânica é, em si mesma, uma representação do pensamento chinês: a economia real como a verdadeira base do poder. É a ponta do iceberg de uma estratégia muito maior e que, talvez, a maioria das pessoas sequer tenha parado para analisar com a devida profundidade. Os próximos movimentos serão ainda mais reveladores.















