Pensar em inclusão na sociedade envolve uma mudança do paradigma de igualdade para o de equidade. Em um ambiente escolar em que todos os alunos são tratados da mesma maneira, sem distinção, não existe equidade, que consiste em tratar cada pessoa de acordo com a capacidade que lhe é inerente, tendo em vista que cada pessoa possui características únicas; algumas possuem deficiência. Incluir é oferecer meios para que todos, cada qual com sua natureza, tenham condições de executar uma atividade ou um aprendizado. No ambiente empresarial, é de grande importância que as empresas não apenas completem um número de vagas exigido por lei para pessoas com deficiência, mas que pensem em estratégias de acolher e possibilitar condições específicas para que os diferentes usufruam de condições equitativas para conseguir realizar as atividades.
Nessa linha argumentativa, defendo ainda que é preciso superar um modelo de vitimismo, em que muitas vezes só se consideram os pontos frágeis das pessoas com deficiência, ignorando os aspectos positivos e potenciais que tais pessoas possuem e que podem contribuir para o ambiente de uma corporação empresarial. O heroísmo também não deve ser vangloriado porque, por vezes, sobrecarrega o papel da pessoa com deficiência; é necessário equilibrar posicionamentos e caminhar para a humanização das relações entre todos.
O trabalho é uma das dimensões mais importantes na vida do ser humano, e as pessoas com deficiência têm o direito de ser acolhidas nesse ambiente com o devido respeito às suas diferenças. Conforme o artigo intitulado “Inclusão educacional de pessoas com TEA: avanços legais, desafios e possibilidades” (Gabriel; Gabriel; Pereira, 2025), a compreensão atual da inclusão social é resultado de um processo histórico relativamente recente.
Durante muitos séculos, a sociedade apresentou fortes desigualdades em sua organização, especialmente no que concerne a grupos vulneráveis — como pessoas com deficiência, minorias étnicas, mulheres e populações empobrecidas —, impedidas de participar de maneira plena da vida social, econômica e política (Ávila, 2011). Como afirma Sassaki (1997, p. 16), “[...] as sociedades, em todas as culturas, passaram por diversas fases em suas práticas sociais, iniciando pela exclusão daquelas pessoas que, por possuírem condições consideradas incomuns, não eram reconhecidas como parte da maioria”.
Ao revisitar a trajetória histórica, constata-se que, na Antiguidade e na Idade Média, a exclusão era vista como algo natural, e os direitos da pessoa se restringiam a grupos específicos. Nas civilizações grega e romana, por exemplo, somente homens livres tinham acesso à cidadania e às decisões políticas, enquanto mulheres, estrangeiros e pessoas escravizadas eram colocados em posições subordinadas. Durante o período medieval, a estrutura feudal reforçava a distância entre diferentes classes, e aqueles que fugiam aos padrões sociais — como pessoas com deficiência ou com transtornos mentais — eram muitas vezes isolados ou abandonados (Henriques, 2018; Ramos, 2023).
Somente a partir do século XVIII, impulsionada pelo movimento conhecido como Iluminismo e pelas revoluções burguesas, a sociedade passou a questionar mais intensamente essas desigualdades, defendendo princípios de liberdade, igualdade e fraternidade. Como destaca Fernandes (2013, p. 41), “[...] a Revolução Burguesa provocou profundas mudanças no cenário político e econômico”. Esse novo contexto permitiu que a saúde passasse a ser vista como um aspecto fundamental para a compreensão da deficiência, alinhando-se inicialmente ao modelo clínico ou médico.
Embora o conhecimento sobre as deficiências tenha relevância, tanto esse campo quanto a educação não devem se orientar pelas limitações individuais; ao contrário, o enfoque deve recair sobre o modelo social de inclusão, que valoriza a singularidade de cada pessoa e busca atenuar ou eliminar as barreiras do ambiente que dificultam a plena participação da pessoa com deficiência na escola e na sociedade.
A Revolução Francesa (1789-1799) e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão estabeleceram os primeiros fundamentos para um modelo social mais inclusivo, ainda que limitado a determinados segmentos da população. Somente no século XX, impulsionada pelo fortalecimento dos direitos humanos, pelos movimentos feministas, pelo movimento negro e pela defesa dos direitos das pessoas com deficiência, a inclusão social passou a ocupar lugar central nas políticas públicas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, proclamada pela Organização das Nações Unidas (ONU), representou um marco decisivo ao afirmar princípios universais de dignidade e igualdade para todas as pessoas.
No Brasil, a criação de instituições educativas para pessoas com deficiência seguiu inicialmente o modelo europeu; porém, apenas ao longo do século XX, com a intensificação dos debates sobre inclusão e direitos humanos, começaram a surgir iniciativas que buscavam integrar esses sujeitos à sociedade de maneira mais plena. Nas últimas décadas, um conjunto de leis e políticas públicas foi elaborado com o objetivo de garantir que grupos historicamente marginalizados tivessem acesso a direitos fundamentais, como educação, saúde e trabalho.
Enfim, ressalta-se a importância de evitar que pessoas com deficiência sejam vítimas do sistema neoliberal, que desvaloriza o deficiente em nome da produção; é mister superar o entendimento de que pessoas com deficiência são incapazes de executar tarefas e, sim, propiciar condições e acolher essas pessoas em sua diferença para que produzam. Assim, é imprescindível promover adaptações no ambiente empresarial para acolher todas as pessoas em sua condição, para que consigam realizar-se como trabalhadoras em sua real competência.
Referências
Ávila, Bárbara. Comunicação aumentativa e alternativa para o desenvolvimento da oralidade de pessoas com autismo. 2011. 180 f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2011.
Fernandes, Sueli. Fundamentos para educação especial. 2. ed. Curitiba: Intersaberes, 2013.
Gabriel, Fábio Antônio; Gabriel, Ana Cássia; Pereira, Ana Lúcia. Inclusão
educacional de pessoas com TEA: avanços legais, desafios e possibilidades. Educação
em Foco, Belo Horizonte, v. 30, n. 1, p.1-15, 2025.
Henriques, Tiago. Autismo e Síndrome de Asperger: o guia fácil de entender para
pais, educadores e portadores de autismo. E se fosse possível realmente entender o
autismo? São Paulo: O autor, 2018.
Ramos, Rossana. Inclusão na prática: estratégias eficazes para a educação inclusiva.
São Paulo: Summus, 2023.
Sassaki, Romeu Kazumi. Inclusão, construindo uma sociedade para todos. Rio de
Janeiro: WVA, 1997.















