Enquanto mentora de jornada profissional, em especial de mulheres negras, tenho ouvido diversas histórias, e aumentado o meu entendimento em como as estruturas mantém, de uma forma invisível, a manutenção de privilégios.
As vivências, são muito parecidas como:
Falta de orientação para progressão profissional;
Estruturas de feedbacks voltada para comportamento e não resultado;
Estagnação em determinada função;
Entregas além do esperado;
Isolamento.
O dia a dia nos consome, e acaba nos dando uma lente míope que nos impede de enxergar a quem as estruturas estão favorecendo, e acabamos normalizando tais situações.
Por outro lado, temos as mulheres negras ocupando esses espaços, entregando:
Além do esperado;
Trabalhos extras gratuitos;
Treinando pessoas que possivelmente serão suas gestoras (e ainda ouve: você não está pronta);
A mais clássica: você não tem o perfil para o cargo
Essas palavras são denunciadas em um trecho do livro da Cida Bento, O Pacto da Branquite:
Os negros são vistos como invasores do que os brancos consideram seu espaço privativo, seu território. Os negros estão fora de um lugar quando ocupam espaços considerados de prestígio, poder e mando. Quando se colocam em posição de igualdade, são percebidos como concorrentes.
Esta abertura de pensamentos, é para você se preparar ao que está por vir. Então, eu quero que você imagine essa situação.
Vou chamar a minha personagem de Duda (porém, os fatos são reais):
Duda é uma mulher negra, de aproximadamente 28 anos, e vem da periferia. Está na organização cerca de 11 anos, onde iniciou a sua jornada como jovem aprendiz, foi efetivada, conseguiu se graduar e está observando os movimentos acontecerem ao seu redor.
Sente que está estagnada em seu cargo atual. Sente que precisa de ajuda para entender quais são os próximos passos que precisa galgar para uma promoção. Esperava o momento oportuno para falar com sua gestora, Branca (qualquer semelhança é mera coincidência).
Elas precisam resolver a situação de um cliente, e Duda aproveito o momento para conversar com Branca, afinal, a sua promoção também dependeria de sua aprovação.
—Branca, quero aproveitar o momento e te pedir algumas informações, se ainda temos um tempo para conversar.
— Sim, Duda, temos mais alguns minutos.
—Como minha gestora, gostaria que me auxiliasse a entender qual o caminho preciso traçar para uma promoção.
Alguns minutos de silêncio se estabeleceram, e a troca de olhares entre Branca e Duda.
—Duda, vou te falar uma coisa: - Você precisa ser extraordinária!
Duda, sem reação ao que ouviu, saiu da sala.
Segundo algumas pesquisas que eu fiz, sobre o que significa ser extraordinária, gostei dessa conclusão aqui: uma coisa que podemos definir como extraordinária é aquilo que se destaca por sua singularidade, excelência ou impacto além do comum. São experiências, realizações ou características que surpreendem, inspiram ou transformam, indo além do que normalmente se espera. Por exemplo, uma pessoa que supera grandes desafios com coragem, uma obra de arte que toca profundamente, ou uma ação que promove mudanças significativas na sociedade podem ser consideradas extraordinárias. Em resumo, o extraordinário é aquilo que foge do ordinário e nos leva a enxergar o mundo com novos olhos, despertando admiração e reflexão.
Vamos à trajetória de Duda?
Mulher, negra, periférica, de 28 anos, trabalhando em uma grande empresa. Começou com jovem aprendiz. Está lá desde os 17. Ficava cerca de 4 horas no transporte público para conseguir superar os obstáculos e dar o seu melhor na oportunidade que tanto esperou. Dormia sempre que podia, inclusive estudando. Em muitos momentos pensou em desistir. Muitas vezes engoliu a seco comentários que ouvia nos corredores da empresa: piadas sobre pessoas negras e pobres, o cabelo que era considerado “o padrão”, a objetificação dos corpos negros. Mas, decidiu deixar a sua lente míope ativa para sobreviver.
E Duda sobreviveu. E sendo extraordinária!
Mais de 4 horas de transporte público para chegar ao trabalho;
Barriga roncando, às vezes, mas mantinha sempre as suas entregas em dia;
Parte de seu salário, é para subsidiar as contas de casa, com a mãe e mais 2 irmãos;
Apesar de toda essa rotina, mantinha o sorriso na voz.
Com certeza Branca, além de não cumprir com o seu papel de Gestora (ela deveria ser uma liderança que desenvolve outras lideranças), nem fazia ideia do quão extraordinária Duda já é.
E essa história, por si só, é uma denúncia a tantas Brancas, Dudas e organizações similares continuam excluindo as oportunidades de pessoas negras. É hora de refletirmos e agirmos para mudar essa realidade.
P.S.: Pedi a uma IA definir atitudes de uma pessoa extraordinária (qualquer semelhança, é mera coincidência).
Uma pessoa extraordinária se destaca por suas ações, atitudes e impacto além do comum. Aqui estão algumas práticas que costumam caracterizar alguém assim:
Supera desafios com coragem e resiliência: Enfrenta obstáculos de cabeça erguida, aprendendo com as dificuldades e seguindo em frente, como a Duda, que mesmo com uma rotina difícil, nunca desistiu.
Entrega resultados além do esperado: Vai além das suas tarefas, entregando com excelência e dedicação, mesmo em condições adversas.
Mantém uma atitude positiva e inspiradora: Mesmo diante de comentários desrespeitosos ou situações difíceis, consegue manter o sorriso e a força para seguir adiante.
Busca constantemente o crescimento e desenvolvimento: Está sempre aprendendo, buscando novas habilidades e oportunidades de evolução.
Assume responsabilidades extras com comprometimento: Treina colegas, ajuda a equipe e assume tarefas adicionais, demonstrando liderança e dedicação.
Se destaca pela singularidade e impacto: Sua trajetória, atitudes e resultados inspiram outros, promovendo mudanças positivas ao seu redor.
Tem autoconhecimento e autoestima elevada: Reconhece seu valor, suas potencialidades e não se deixa definir por opiniões limitantes ou preconceitos.
Alguém se identificou com a Duda?















