A forma como nos entendemos e interagimos com o mundo está em constante transformação. Nossos pais, a escola, a família, e até mesmo a convivência com animais de estimação, como os cães, sempre moldaram quem somos. Há quem diga que a nossa capacidade de colaborar e formar comunidades, a ideia de "matilha", surgiu justamente dessa interação milenar. Aprendemos a compartilhar, a cuidar uns dos outros, porque era – e ainda é – uma estratégia fundamental para a sobrevivência e o bem-estar coletivo. Essa intrincada teia de hábitos, costumes e peculiaridades é o que chamamos de personalidade, um mosaico que se constrói nas relações e nas experiências cotidianas.
No entanto, as rédeas dessa construção parecem ter mudado de mãos. Nos dias de hoje, a bússola que orienta nosso comportamento e até mesmo nossa personalidade não é mais primariamente o ambiente familiar ou educacional. O protagonismo, sutil e onipresente, recai sobre os algoritmos das redes sociais. Eles nos entregam um fluxo incessante de mensagens, imagens e vídeos, selecionados a dedo para capturar e reter nossa atenção. É como se um curador invisível estivesse constantemente adaptando a galeria de arte que é o nosso feed, escolhendo as obras que mais nos agradam, nos surpreendem ou nos instigam.
Mas, afinal, o que é esse algoritmo? É crucial entender que ele não é uma entidade alienígena com vontade própria. Na verdade, o algoritmo é um reflexo, uma soma de hábitos e preferências humanas. Ele funciona como um grande coletor de gostos e aversões, analisando o que você curte, compartilha, comenta e até mesmo o tempo que você passa olhando para determinado conteúdo. A premissa fundamental de qualquer rede social é uma só: manter a sua atenção pelo maior tempo possível. Para isso, é imperativo que o conteúdo exibido seja agradável, relevante e, acima de tudo, aquilo que você deseja consumir.
Assim, o algoritmo se torna um espelho amplificado das nossas próprias escolhas. Se você interage mais com publicações sobre viagens, ele te mostrará mais viagens. Se seus vídeos favoritos são sobre culinária, espere um mar de receitas. Ele não inventa o que você gosta; ele apenas otimiza a entrega do que já existe e que você já demonstra interesse. É um sistema de retroalimentação constante, onde sua interação alimenta o algoritmo, que por sua vez, refina o conteúdo que chega até você.
Nesse cenário, o algoritmo pode ser percebido tanto como um herói quanto como um vilão. Ele nos conecta com pessoas de interesses semelhantes, nos apresenta a novas ideias e culturas, e facilita o acesso a informações que antes seriam difíceis de encontrar. Por outro lado, ele também pode nos prender em "bolhas de filtro", expondo-nos apenas a visões de mundo que confirmam as nossas, limitando a nossa capacidade de dialogar com o diferente e de expandir horizontes.
No fundo, ele é, acima de tudo, um coletivo de gostos e preferências puramente humanas. Pense na famosa propaganda da "família Doriana", que nos vendia a imagem de uma família perfeita, feliz e harmoniosa, reunida em torno da mesa, comendo pão com margarina. Essa era uma representação do que se esperava ser o tipo ideal de comportamento, vestimenta e apresentação que significaria felicidade e sucesso. Mas e hoje? Onde estão esses modelos? Eles parecem ter se diluído em um oceano de individualidades e particularidades.
Se antes havia um consenso, ainda que ditado pela publicidade ou por normas sociais rígidas, sobre o que era "certo" ou "desejável", hoje a paisagem é outra. Antigamente, figuras como a prostituta, a adúltera e a travesti eram frequentemente marginalizadas, consideradas a "escória" da sociedade. Eram personagens que habitavam as sombras, julgadas e condenadas. Contudo, em uma virada fascinante, muitas dessas figuras e suas narrativas ganham espaço e visibilidade, tornando-se símbolos de resistência, autenticidade e, para muitos, até de redenção.
Não se trata de um julgamento moral, mas de um olhar sobre a mudança abrupta de valores que estamos vivenciando. Essa é uma característica inerente à axiologia social, o estudo dos valores, ao longo da história. O que era tabu ontem pode ser celebração hoje, e o que era inquestionável pode ser profundamente questionado. O algoritmo, ao amplificar vozes e mostrar realidades diversas, contribui para acelerar essa desconstrução de padrões.
Nesse turbilhão de informações, tendências e novas perspectivas, surge uma pergunta fundamental: quem é você, de verdade? No meio de tantos estímulos, de tantas identidades sendo construídas e desconstruídas online, o que resta da sua essência? Por que você se deu ao trabalho de ler até aqui, se dedicando a refletir sobre algo tão intrincado? Talvez a resposta esteja, paradoxalmente, não no algoritmo que nos cerca, mas na incessante busca por compreender as profundezas da nossa própria natureza em um mundo cada vez mais digitalizado. E essa busca, sem dúvida, nos persegue desde sempre, desde a gênese das nossas vidas até o último suspiro.















