O dicionário diz-nos que a palavra “amor” é um sentimento, que nos induz a proteger alguém por quem sentimos algum tipo de afeto. Quem diz proteger, também pode ser desejar e fazer bem a essa pessoa. No fundo, quando utilizado para os fins certos o “amor” é uma coisa boa, apesar de ser um sentimento difícil de colocar em palavras ou mesmo em atos, sobretudo quando estamos apaixonados. Não foi sobre prós e contras do amor que vos vim falar hoje, mas sim do seu estado na nossa sociedade.
Em Portugal, o Dia dos Namorados celebra-se no dia 14 de fevereiro. Há quem ligue mais à data do que outros, como tudo nesta vida. O que me faz uma certa urticaria é o consumismo exacerbado que se promove à custa deste dia. Nada contra presentear a nossa cara-metade neste dia especial. É bonito até. Mostra dedicação, presença e até um certo charme. Como quem diz, é para a chama não morrer.
Mas e no resto do ano? Será que estamos tão presentes e dedicados como somos neste dia? Será que nos “lembramos” de perguntar ao nosso(a) parceiro(a) se está bem, o que é que precisa – não coisas materiais, claro está –, mas na relação. É muito bonito fazermo-nos de muito apaixonados no Dia dos Namorados, mas no resto do ano tratarmos o(a) nosso(a) parceiro(a) com uma certa “indiferença”, como se dessemos a relação como garantida e já não fosse preciso fazer mais nada. Mas é aí que estamos todos enganados. Uma relação, seja de que tipo for dá muito, muito trabalho, especialmente, as amorosas.
Se é importante darmos o nosso melhor quando nos estamos a conhecer, mais será preciso dar depois de termos conquistado a outra pessoa. Não estou com isto a dizer que nos devemos subtrair para que o outro sobressaia. Isso não é amor, muito menos uma relação. É um monologo! Se uma relação é feita por duas pessoas, devem ser essas mesmas pessoas a participar nela, independentemente de virtudes e defeitos, pois cada um é como cada qual.
Mas acho que o “segredo” das “boas relações” é quando os seus constituintes sabem e conseguem trazer ao de cima as virtudes de cada e não apontar só os defeitos. Mais importante do que isso, manterem-se fieis ao relacionamento e fazerem-no progredir face ao ruído externo, que muitas vezes existe. A questão que se impõe é porque é que as relações tendem a perder o brilho encadeante do início? Mais, porque é que as relações da nossa sociedade se esvaem com um estalar de dedos? Não sou psicóloga nem nada que se pareça, mas gosto de pensar sobre estes temas e também gosto de observar o que está ao meu redor. Em virtude disso, tiro certas elações, mas de frisar que é a minha opinião e vale o que vale.
Com alguma experiência de vida, ainda que pouca com 25 anos, parece-me que a sociedade do nosso tempo está cada vez mais desligada dos sentimentos e das relações emocionais por diversos motivos. Seja por falta de vontade, por não se quererem comprometer, porque em algum momento já foram magoadas e têm medo. O ritmo de vida cada vez mais apressado e vidrado nas redes sociais e nas aparências da perfeição também me parece ser um motivo. Outro motivo poderá ser o mero interesse no outro, ou seja, o prestígio e bens materiais que poderão tirar daí. Vivemos numa sociedade que vive em função dos seus interesses, o que a torna cada vez mais egoísta e oportunista.
Se andarmos para trás no tempo, os sentimentos eram diferentes dos de agora. No tempo dos nossos avós existia compromisso e, muitas vezes, quando não era regra, construía-se uma vida praticamente do nada. Podia haver necessidade de bens materiais, mais havia interesse e sentimento, coisa que hoje é cada vez mais rara. Falta emoção, empatia, além do compromisso e do dito amor, que tanto apregoamos, mas que nos esquecemos de demonstrar em ações, porque as palavras apesar de dizerem muito, quando não são sentidas, são levadas pelo vento – o que pode representar o fundo da questão.
Há uns tempos li um livro que retratava entre muitas coisas, o falhanço de um casamento, por um conjunto de situações das quais a mulher se vinha queixar já há algum tempo. Por seu lado, o marido foi-a ludibriando com desculpas. No fim, acabou por desrespeitar o compromisso que tinham ambos assumido, acusando-a de não a cumprir com a sua parte. (Está escrito, não sei onde, que quando uma relação acaba, o primeiro culpado é a mulher, porque falhou no seu papel. Isso tem de acabar até porque já não vivemos no século passado e se evoluímos foi por algum motivo).
Nunca é só a mulher ou o homem que têm culpa. São os dois, por diversas razões, mas a principal foi porque em algum momento se perderam um do outro e aquilo que julgavam ser para a vida toda, afinal já não o é. Mas até se assumir que a culpa não foi apenas de um, mas sim de ambas as partes, é um atirar de farpas constantes. Um jogo vicioso de atirar culpas de um lado para o outro. No fim das contas, o problema se calhar reside no facto de acharmos que viver na ilusão seja melhor do que levar com a fria e dura verdade. Com a ilusão, acabamos sempre iludidos à espera do que nunca poderá vir, da mudança. Com a verdade, apesar de ser dura e fria, já sabemos com o que contamos, com a benesse que não ficamos eternamente à espera de nada.















