Um dos textos escritos mais antigos do mundo é a icônica epopeia de Gilgamesh, na história, o personagem título é um semideus e rei que governa supremo sobre sua cidade-estado. Gilgamesh é um homem de feitos notáveis, derrotando criaturas monstruosas, realizando viagens para locais inesperados, encontrando figuras lendárias e buscando a vida eterna. O personagem de Gilgamesh, ainda que pouco lembrado pelo público moderno, será de grande importância, pois será um rascunho de um elemento que estará presente em praticamente todos os povos do mundo, o do herói capaz de realizar feitos sobre-humanos e que causa admiração entre os jovens. Mas por que tantos povos buscavam figuras heróicas para lhes inspirar? Talvez o ser humano simplesmente precise desta figura de autoridade para discernir bem do mal, ou talvez precise se identificar com alguém de grande valor para motivá-lo.
As mitologias antigas sempre contaram com heróis em grande abundância, especialmente os povos de origem europeia. Para as culturas guerreiras do velho mundo, os heróis inspiravam a luta contra seus inimigos. Do mesmo modo que seus semideuses enfrentavam monstros, os soldados deveriam estar prontos para lutar contra bárbaros pela glória de seus povos.
Esses heróis encarnaram os valores das culturas que os admiravam e seus rivais monstruosos representavam seus inimigos de forma caricata. Isso pode ser visto nas histórias de Teseu, Hércules e Perseu, não apenas por representarem o ideal grego, mas também por matarem monstros que continham símbolos das velhas religiões adoradas na região antes do desenvolvimento da cultura grega. Quando os gregos chegaram à região da atual Grécia, o local já era habitado por povos agrícolas que possuíam religiões ligadas à fertilidade e à mãe-terra. Os heróis gregos ao derrotar monstros como o minotauro, similares aos elementos das velhas culturas agrícolas, estavam criando as bases da própria cultura grega simbolicamente.
Os heróis assim esmagaram o mundo antigo mostrando a superioridade da civilização helênica sobre os povos que os precederam. Essa ideologia da superioridade dos gregos sobre os povos que conquistaram está presente também no mito da Gigantomaquia, no qual Zeus, o rei dos deuses, enfrenta Geia (ou Gaia) a mãe-terra que envia seus filhos, os gigantes, para depô-lo. Zeus é um deus que representa a cultura grega por excelência, sendo associado à justiça e tendo a vitória na sua mão, já Geia era a deusa principal dos povos agricultores que antecederam os gregos e foram derrotados por eles. A vitória de Zeus sobre Geia é a vitória de um povo sobre o outro.
Ainda que heróis sejam mais comuns dentro do mundo europeu, também existem figuras que podem ser vistas como tal nas culturas de outros povos. Os hebreus possuíam patriarcas bíblicos que, ainda que não fossem guerreiros e sim profetas, eram pessoas de elevado caráter e feitos notáveis. Seus heróis eram sábios guiando seu povo entre as dificuldades e não lutadores matando monstros e pegando seus despojos. Esses profetas também encarnavam a cultura hebraica e lutavam contra caricaturas dos seus inimigos.
Moisés, por exemplo, era o fundador da nação hebraica e que sozinho derrotou o Egito, um dos grandes impérios da época. Em tempos antigos, os hebreus adoravam o deus de Israel na figura de um touro, mas tal religiosidade foi sendo abandonada, já qur novas reformas determinaram que Deus não deveria ser representado em forma física. Para simbolizar essa rejeição da velha religiosidade, foi estabelecida a história na qual Moisés, após ver os hebreus adorando um bezerro de ouro ao invés de Deus, destruiu o ídolo e os puniu severamente. Assim como nas histórias gregas, uma figura heroica destrói um símbolo dos antigos valores e dos inimigos de seu povo.
Os povos da Ásia também possuíam seus heróis, na Índia existe a história dos Pandavas, um grupo de 5 irmãos semideuses que travam uma guerra contra seus primos os Kauravas. A razão do conflito é o destino do reino, pois o líder dos Kauravas é um governante tirânico e cruel que constantemente insulta seus primos, todo o mito gira em torno de como conservar a justiça mesmo em momentos de guerra e conflito, ensinando seu povo o conceito de dharma-yuddha, a "guerra justa" e como ser honrado em combate. Assim como muitos heróis ao longo da história, eles são capazes de feitos sobre-humanos mostrando sua superioridade sobre o resto do mundo, de certo modo sinalizando que representam algo superior aos simples mortais. Apenas um deles, o herói Bhima, filho do deus dos ventos Vayu, tem a força igual a 10.000 elefantes.
Outro herói lendário foi o criador do próprio Japão, o primeiro imperador Jimmu, descendente da deusa do sol Amaterasu. Jimmu comandou que um exército atacasse a região de Hyūga e estabeleceu seu trono em Yamato, criando a dinastia governante do Japão. Assim estabelecendo toda a civilização japonesa. Ninguém poderia questionar a autoridade dos imperadores pois ela provinha diretamente dos deuses.
Os diferentes povos sempre tiveram o desejo que uma figura de autoridade pudesse lhes determinar o que era certo ou errado e também que pudesse lhes trazer segurança garantindo que não apenas estivessem do lado certo da história como também que esse lado fosse triunfante. Nesse sentido, os heróis com sua força e habilidades muito superiores às dos mortais além de seu senso de justiça inquebrável permitem simplificar o mundo deixando claro o que devia ser feito e como deveria ser feito. Não havia por que duvidar nem por que exitar, pois o caminho certo estava claro e a vitória estava à vista.
Entretanto, os heróis possuem um lado obscuro. Ao criarem a crença nas pessoas que elas estavam nos caminhos corretos, eles podiam ser usados para inspirá-las para o fanatismo e subserviência cega. Não foi mera coincidência que durante a Segunda Guerra, a ditadura militar japonesa usou o mito do tradicional herói Momotaro para inspirar a lealdade dos cidadãos, os monstros que Momotaro derrota em seu mito eram similares aos países que o exército japonês invadiu, pelo menos na mente do povo.
Do mesmo modo, Hitler ordenou que os oficiais nazistas recebessem cópias do livro Winnetou quando o conflito com a Rússia se tornou mais difícil para elevar a moral das tropas. Winnetou conta a história de um índio vivendo nas pradarias do velho oeste enfrentando Ianques que ameaçam seu povo. Ainda que fosse um nativo americano, os nazistas admiravam a figura de Winnetou vendo nele alguém racialmente puro que lutava contra ianques mestiços, pureza esta que foi perdida pelas gerações seguintes.
Essa ambiguidade da figura do herói pode ser percebida entre os povos do Irã e da Índia, ambos os povos adoravam as mesmas divindades, os deuses Deva e os deuses Ashura, mas enquanto para os iranianos os primeiros eram maus e o segundo bons, para os indianos se tornou o oposto com os Ashura trazendo desgraça e os Deva a proteção, talvez tal diferença teológica se deva a uma guerra antiga entre os dois povos. O significado é que o herói de um povo pode ser o vilão de outro. As mesmas características que tornam alguém admirável por um ângulo favorável podem também fazê-lo desprezível sob um olhar diferente.
Quem melhor ocupa o papel de heróis dentro do mundo moderno são, claro, os super-heróis dos quadrinhos. Muitos vêem neles figuras de inspiração e bravura, mas outros enxergam neles maus exemplos para os jovens. Um dos que condenaram os heróis foi o psicologo Fredric Wertham que nos anos 1950 escreveu A Sedução do Inocente com várias declarações paranóicas acusando os super-heróis de incitar a homossexualidade e o fascismo nos jovens. Ainda que ninguém mais leve a sério a acusação, vendo-a como exagerada, outros fizeram críticas similares, como os filmes de herói modernos terem um tom de apologia à política externa americana e serem assim propaganda ideológica disfarçada. Essa ambiguidade existe em qualquer elemento cultural, que sempre pode ser lido sobre uma luz positiva ou negativa dependendo dos valores de quem está analisando e de que aspecto da obra se quer reforçar.
Os heróis representam um aspecto humano que busca aprender com os grandes que o antecederam, sobre qual caminho seguir e quais decisões tomar, algo similar a frase de Isaac Newton “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes". Assim como as crianças querem aprender com seus pais, também os jovens querem seguir os passos dos seus heróis. Por isso toda civilização sempre acaba encontrando, quando não criando, heróis para guiá-la e inspirá-la. O que faz parte do processo pelo qual o ser humano amadurece e encontra um rumo na vida.















