Ter um sistema reprodutor é ter um mundo dentro de nós. É carregar a possibilidade de criação, mas também lidar com ciclos, dores, tabus e expetativas sociais que variam conforme o género e a cultura. É enfrentar questões de identidade, saúde e autonomia, muitas vezes silenciadas ou mal compreendidas.

Desde que a mulher passa pelo início da sua menstruação, cria-se esse mundo dentro dela. Somos “um mundo com outro mundo lá dentro”. Toda a nossa jornada é marcada por altos e baixos, mudanças físicas e psicológicas. Mas, o que acontece às mulheres a partir dos 35 anos?

A saúde da mulher começa a atravessar uma fase crítica, marcada por transformações físicas, hormonais e metabólicas, mas não daquelas mensais, agora tornar-se-ão definitivas. Embora muitos desses sinais ainda sejam subtis, eles anunciam mudanças que podem impactar o bem-estar e a qualidade de vida nos anos seguintes. É um período em que prevenção, cuidado e atenção redobrada se tornam essenciais.

Um dos aspetos mais significativos dessa fase é a transição hormonal. Por volta dos 35 anos, os níveis de estrogênio e progesterona começam a apresentar variações mais claras. Essa oscilação hormonal pode afetar diretamente o ciclo menstrual, a fertilidade e o humor. Algumas mulheres percebem mudanças no padrão do ciclo, como irregularidades menstruais ou intensificação dos sintomas da TPM.

Nas várias pesquisas que possamos fazer online, encontramos de imediato os principais cuidados a ter quando chegamos a esta idade, e é importante que saibamos o que pode acontecer e o que devemos fazer nesse momento, seja em modo de prevenção ou já em busca da solução.

Ser Mulher a partir dos 35 é um desafio para muitas de nós que às vezes não sabemos identificar certos sintomas ou compreender as mudanças que estão a ocorrer. Ser Mulher, com todo um mundo diferente dentro de nós, exige que sejamos uma espécie de guerreiro que necessita defender-se de si próprio.

A memória é um dos sintomas mais simples e ao que menos atenção damos. Em muitas leituras encontra-se o que chamam de “nevoeiro mental”. Chegar ao frigorífico e não saber o que lá íamos buscar pode ser um dos primeiros pequenos sintomas a ter em consideração. Claro que temos de ir somando a outros, mas o importante é estarmos vigilantes.

Mas atenção! Atenção!

Não tenhamos pena de nós mesmas, sejamos, isso sim, valentes para entender que este sistema é só nosso, diferente dos homens sim, mas também diferente dos das outras mulheres. Sim, somos únicas!!! E é por sermos únicas que devemos partilhar umas com as outras aquilo que estamos a sentir, pois embora sejamos únicas, estes sintomas podem ser comuns e a partilha vai fazer com que possamos ter a opinião de alguém que está na mesma fase e poderá ser um apoio transcendental. Seja em relação a aquilo que estamos a sentir, seja até mesmo na recomendação de algum profissional.

A quem é que nunca aconteceu, por exemplo, quando estamos a passar por alguma coisa, seja a nível pessoal ou até mesmo profissional, escutar alguém a falar dos seus desafios num relato que parece ser o nosso, como se estivesse a enumerar cada ponto daquilo pelo que estamos a sentir e nos soa como uma checklist. Algo assim vai fazer-nos sentir mais aliviadas. Sim, porque é uma forma que temos de nos dizer a nós mesmas que: nós não somos o problema!

Parece que existe muita informação sobre as mudanças que as mulheres vão sentindo depois dos 35 anos, mas na verdade é tudo muito vago e os profissionais aos quais temos acesso mais direto, como os médicos de família, podem não ter a formação aprofundada e necessária para nos guiar da melhor maneira neste novo ciclo. Seja a nível físico ou psicológico, porque enfrentar alterações no nosso corpo, alterações de pré-menopausa ou menopausa é muito relativo. Relativo, sim, pois cada uma de nós tem a sua experiência de vida, está em determinada fase ou situação ou até mesmo relativo ao termo de comparação.

E não precisamos ter um diagnóstico vinculado de pré-menopausa ou menopausa para começarmos a pensar em nós e em cuidarmo-nos antes que chegue esse momento.

Só uma nota importante: Estamos a falar de Mulheres, Homens trans e pessoas não binárias (designadas mulheres à nascença), dependendo de cirurgias ou terapias hormonais.

Vamos estar atentas ao nosso corpo, aos alertas que ele nos dá. Sejamos guerreiras no nosso dia a dia, cuidemos do nosso bem-estar e não tenhamos vergonha de falar sobre estas mudanças, pois são simplesmente algo natural.

Ponto de atenção: saúde mental

Um ponto crítico que merece atenção é a saúde mental. A ansiedade, depressão e stress crónico podem intensificar-se a partir dos 35 anos, especialmente quando combinados com responsabilidades familiares, profissionais e sociais. O equilíbrio emocional está intimamente ligado à saúde física; as mulheres que negligenciam o autocuidado podem enfrentar uma cascata de problemas que afetam desde o sono até a imunidade.

  • Aumento do risco de ansiedade, depressão e burnout, especialmente em fases de maior pressão profissional e familiar.

  • Alterações hormonais (pré-menopausa) podem afetar o humor, sono e bem-estar.

  • Importância de manter redes de apoio, tempo para si própria e procurar ajuda profissional sempre que necessário.

Ponto de atenção: saúde cardiovascular

A saúde cardiovascular também exige atenção redobrada. As estatísticas mostram que o risco de hipertensão, colesterol elevado e doenças cardíacas tende a crescer a partir dos 35 anos, principalmente quando associado a fatores como sedentarismo, dieta inadequada e histórico familiar. Estatísticas da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e do periódico Observador.pt1.

  • Crescente risco de hipertensão, colesterol elevado e doença cardíaca.

  • Estar atenta a sintomas como cansaço anormal, dores no peito, tonturas ou palpitações.

  • Controlar tensão arterial, colesterol e fazer exames regulares.

Ponto de atenção: metabolismo e peso

O metabolismo também sofre alterações nesta fase da vida. Muitas mulheres relatam que manter o peso se torna mais desafiador após os 35 anos, mesmo tendo os mesmos hábitos alimentares e rotina de exercícios. Isto ocorre porque o metabolismo basal começa a desacelerar gradualmente, reduzindo a queima de calorias e alterando a composição corporal. A tendência é que haja maior acúmulo de gordura abdominal, que não apenas altera a estética, mas também representa um fator de risco para doenças metabólicas, como diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

  • O metabolismo desacelera, facilitando o aumento de peso mesmo com os mesmos hábitos.

  • Maior dificuldade em perder gordura abdominal.

  • Importância da alimentação equilibrada e atividade física regular.

Ponto de atenção: saúde óssea

A queda gradual de estrogênio está relacionada a alterações na densidade óssea, aumentando o risco de osteopenia e, posteriormente, de osteoporose.

Começa a redução da densidade óssea, aumentando o risco de osteopenia e osteoporose (especialmente em mulheres).

Ingestão de cálcio, vitamina D e prática de exercícios com impacto (como caminhada ou treino de força) são essenciais.

Ponto de atenção: qualidade do sono

O sono, muitas vezes subestimado, também é impactado após os 35 anos. As alterações hormonais e o stress diário podem contribuir para insónia, sono fragmentado ou dificuldade em atingir fases profundas do sono. A privação crónica de sono está ligada a problemas metabólicos, imunológicos e cognitivos, reforçando a importância de estabelecer rotinas de descanso adequadas.

saúde reprodutiva

A saúde reprodutiva também apresenta desafios após os 35 anos. A fertilidade feminina começa a diminuir gradualmente, com declínio mais significativo a partir dos 37 anos. Além disso, a gestação nessa faixa etária pode ter riscos maiores de complicações, como hipertensão gestacional e diabetes gestacional. Por isso indicam-se consultas regulares com ginecologistas e especialistas em reprodução ajudam a monitorar essas mudanças e a tomar decisões informadas sobre maternidade.

  • Sinais iniciais de perimenopausa: ciclos irregulares, mudanças de humor, suores noturnos, alterações de sono.

  • Consultas regulares com ginecologista são importantes para o acompanhamento hormonal.

Ponto de atenção: pele e cabelo

Outro desafio crescente é a saúde da pele e dos cabelos. O envelhecimento cutâneo, influenciado por fatores hormonais e ambientais, começa a se manifestar com linhas finas, perda de elasticidade e manchas. Já os cabelos podem apresentar afinamento, queda e alterações na textura. Cuidar da pele com hidratação, proteção solar diária e alimentação rica em antioxidantes, assim como manter hábitos que promovam a saúde capilar, é essencial para preservar a aparência e a autoestima.

Ponto de atenção: visão e audição

  • Visão ao perto pode começar a deteriorar-se (presbiopia).

  • A audição pode começar a diminuir lentamente, embora geralmente mais tarde.

Ponto de atenção: risco de doenças crónicas

  • A partir dos 35–40 anos aumenta o risco de diabetes tipo 2, doenças autoimunes e alguns tipos de cancro (mama, cólon, entre outros).

  • Rastreios preventivos e exames laboratoriais regulares são fundamentais.

Ponto de atenção: pele e envelhecimento

  • Com a redução da produção de colagénio, a pele se torna mais fina e menos elástica.

  • Maior sensibilidade ao sol e necessidade de reforçar hidratação e proteção solar.

Check-ups e rastreios

Exames importantes a manter ou iniciar:

  • Papanicolau (citologia) e teste HPV.

  • Mamografia (geralmente a partir dos 40, mas depende do histórico pessoal ou familiar).

  • Rastreio do cólon.

  • Análises ao sangue (colesterol, glicemia, função hepática e renal).

  • Exame à tiroide.

É fundamental destacar, mais uma vez e outra, e quantas forem necessárias, que cada mulher é única. Nem todas enfrentarão os mesmos desafios ou na mesma intensidade, mas a consciência sobre as mudanças que começam a ocorrer a partir dos 35 é a chave para uma vida mais saudável e equilibrada. Consultas regulares com profissionais de saúde, exames preventivos, alimentação consciente, prática de exercícios físicos, autocuidado emocional e atenção aos sinais do corpo formam a base de um cuidado integral.

O estágio após os 35 não deve ser encarado como um alerta negativo, mas sim como um convite à auto-compreensão e ao fortalecimento da saúde. É a fase em que a mulher tem mais experiência, conhecimento sobre si mesma e capacidade de tomar decisões conscientes sobre seu corpo e bem-estar. Investir na prevenção e na qualidade de vida nessa fase é garantir que os anos seguintes sejam vividos com energia, vitalidade e equilíbrio.

Em resumo, os desafios de saúde que surgem a partir dos 35 anos podem parecer complexos, mas com informação, hábitos saudáveis e acompanhamento médico, é possível atravessá-los com segurança e consciência. Esta é uma fase de transformação, não apenas física, mas emocional e social, em que cada cuidado se traduz em mais liberdade, autonomia e bem-estar duradouro.

Tenho lido muito sobre o assunto, até porque estando perto dos 40, nada faz mais sentido do que refletir sobre as mudanças que aí poderão estar a chegar. Embora ache que já deveria ter feito estas pesquisas antes, evidentemente quero estar bem para acompanhar o crescimento da minha filha, estar bem como companheira do meu marido e estar sempre bem comigo mesma, no meu dia a dia, tendo sempre em conta o meu bem-estar e cuidado por mim mesma individualmente.

Precisamos falar sobre isto? Precisamos partilhar a nossa experiência? Creio que sim, creio que devemos valorizar as nossas batalhas e partilhá-las, porque certamente vamos encontrar muitas mulheres como nós, a passar pelo mesmo, e isso vai ajudar-nos a erguer a cabeça e até mesmo a querer partilhar para ajudar aquelas que estão a entrar pela porta dos 35. Muita desta divulgação e partilha irá fazer com que mentalidades se mude e até mesmo que não sejam necessárias consultas no privado para que tenhamos o devido atendimento sobre o assunto.

Portanto, como ser Mulher a partir dos 35 Anos? Fácil! É ser uma guerreira curiosa pela nova fase da sua vida, é prevenir estando atenta aos sintomas, é cuidar de si mesma para si mesma e para os que ama. Ser Mulher aos 35 é criar condições para continuar a ser a Mulher maravilhosa que já é.

Deixo nas notas alguns livros que vão ajudar-nos a pensar um pouco sobre nós, Mulheres num novo caminho.

Notas

1 Risco cardiovascular: o que faz mal ao coração dos portugueses (mas continuamos a ignorar).

Saúde para Elas, de Andreia de Almeida: adjetivado como o kit de sobrevivências das mulheres dos 20 aos 60+.
A Transformação Hormonal, de Dra. Tasneem Bhatia com o Prefácio da atriz americana Gwyneth Paltrow Menopausar, de Davina McCall e Dra. Naomi Potter.