O recinto da Praça do Comércio tinha sido escrupulosamente limpo e preparado para receber toda a estrutura, mais os milhares de ornamentos que iriam constituir a grande árvore de Natal artificial de trinta metros.

Apesar de faltarem dois meses para o Natal, já se agilizavam as preparações da montagem, que tinha de estar pronta em pouco tempo. Todos os minutos contavam e as semanas seguintes iam ser de muita azáfama.

Nos primeiros dias só se viam camiões. Chegavam, ostentando os logótipos, mais ou menos compostos, das empresas envolvidas. Estacionavam no mármore ou em segunda fila, ou fosse onde fosse, nas barbas da polícia, e empatavam o trânsito todo. Descarregavam o que tinham a descarregar e seguiam viagem para mais tarde descarregarem mais ferro.

As empilhadoras não saíam do recinto, mas não estavam paradas. Faziam o mesmo percurso inúmeras vezes, separando as peças por secções: os mais largos, os da base, os de fixação, os aros, os do segundo e terceiro, e demais anéis, os robustos parafusos e porcas.

Só depois de todo o material separado e organizado se começou a montar a fundação. Uma equipa liderada por um engenheiro e um diretor de obra unia peça a peça, porção a porção, segmento a segmento, até se tornar uma estrutura estável.

Da mesma forma, construiu-se parte do primeiro anel e, com auxílio de uma grua e de uma plataforma elevatória móvel, armaram-se as restantes secções. Munidos de arneses e suportados pelas linhas de segurança, os trabalhadores trepavam a estrutura e, empoleirados, aparafusavam os encaixes. Apertavam aqui, ajustavam ali, ouvindo os gritos do diretor: "mais para a esquerda", "agora, um bocadinho à direita", e depois de alinhado, fixavam os apertos.

A armação demorara duas semanas a ser montada e a árvore ia ganhando forma, no entanto, ainda não era mais do que uma estrutura insípida de ferro, unida por pernos, cavilhas, parafusos e porcas. Ainda havia muito trabalho pela frente.

Não só na Praça do Comércio se trabalhava afincadamente. Todas as freguesias e recantos usavam as mesmas empresas para a instalação de todo o tipo de decorações natalícias: eram mais de mil estruturas luminosas que iam ser instaladas em cerca de 50 locais; praças, ruas e avenidas. Estavam programadas para se acenderem todas no mesmo dia, à mesma hora.

Apesar das montagens, a cidade não parava, menos ainda a Praça do Comércio: os transportes passavam com os passageiros de cara colada aos vidros, os carros apitavam sempre que alguém demorava mais tempo no sinal e nem mesmo os transeuntes conseguiam ignorar aquela estrutura. Durante o dia as esplanadas enchiam-se de clientes, os comerciantes faziam o seu negócio e os casais namoravam, sentados nos degraus da estátua equestre de D. José I ou junto ao mar. À noite, a diversão tomava conta do espaço.

Mas nas primeiras horas da manhã, retomavam-se os trabalhos. Fixavam-se as ramagens artificiais, as bolas coloridas, outros adornos e um número abismal de luzes que, segundo se pregava, eram de baixo consumo com tecnologia LED que equivalia a -85% relativamente à tecnologia de incandescência.

Com quase tudo pronto, faltava o último adorno. Com cuidado e sob o olhar do engenheiro, do diretor e de alguns curiosos que observavam afastados, a grua pousou uma estrela no topo da árvore. Dois operários experientes, elevados na caixa da grua, fixaram os últimos parafusos. Assim, aquele símbolo iria inspirar e espalhar o espírito da festividade durante as próximas semanas.

Eis que chegou o dia, não o de Natal, mas o dia de acender as luzes. Preparou-se uma cerimónia que contou com a presença da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia e dos demais assessores. O excelentíssimo presidente discursou umas frases bonitas e, depois de uma pequena contagem decrescente, carregou num botão e a árvore iluminou-se, ante o pasmo maravilhado dos que assistiam à cerimónia. Um pequeno fogo de artifício rebentou na base da árvore e, sequencialmente, foi subindo em espiral até culminar na estrela. De imediato, entrou uma cantora no palco, encarregada de animar a cerimónia.

As semanas seguintes iam ser assim: calorosas e alegres. A grande árvore era fotografada milhões de vezes, sendo que a melhor perspetiva era no seu interior, abrigado pelo calor de todas as luzes.

Apesar do frio e do mau tempo, as feiras, as ruas, o comércio e as barraquinhas iam estar recheadas de pessoas, onde imperava a boa-disposição.

Depois do Natal, a passagem de ano deu-se no mesmo espaço. Vários artistas animaram a noite. Quando rebentou o fogo de artifício, o recinto encheu-se de sorrisos, de beijinhos e de abraços. No chão, acumulavam-se as rolhas, os confetti, os copos de plásticos, os chapéus de papel e muitos outros tipos de adereços que iriam ficar esquecidos no chão ou em qualquer lado. Mas não havia problema, pois era uma festa e era assim que se devia festejar.

A partir do Dia de Reis, vendiam-se os últimos bolos-reis da época. As carrinhas voltavam a estacionar irregularmente na Praça do Comércio e voltavam a fazer toda a mesma rotina à medida que os operários tratavam de desmanchar a árvore e toda a iluminação da cidade.

Já não era Natal, os últimos ferros eram retirados e transportados para um armazém. Nas semanas seguintes o espaço ganhava os seus inquilinos habituais: os bêbedos, os "agarrados", os sem-abrigos, os desamparados que, nas arcadas daqueles edifícios centenários, se abrigavam da chuva e do frio e da humilhação social.

Tudo voltava ao mesmo, a carrinha que distribuía a "Sopa do Sidónio" voltava a fazer o seu percurso e a parar por lá, o cheiro a urina emergia novamente. O espaço ganhava outro ambiente, mais sórdido, sem o calor da época natalícia, era mais escura, mais fria, mais negligenciada. Se havia alguém contente com o fim da época festiva, eram aquelas gentes pobres que conseguiam voltar a armar a trouxa por baixo das arcadas. Conseguiam voltar a "casa".