Às vezes me perguntam por que continuo interessada em espiritualidade depois de tantos anos. Essa pergunta sempre me faz sorrir, porque a verdade é que não me lembro de uma época em que não estivesse interessada. Quando volto à origem dessa busca, não encontro uma doutrina, uma igreja ou um ensinamento específico. Encontro uma árvore. Uma grande acácia em Salvador, na Bahia.

Eu devia ter uns doze anos quando comecei a me sentar perto dela. Ficava observando seus galhos, suas raízes, a dança da luz atravessando as folhas. Naquele tempo eu não sabia que a contemplação também podia ser uma forma de oração. Não tinha linguagem para explicar o que sentia. Apenas permanecia ali, em silêncio, diante daquele mistério simples e vivo que parecia existir entre a terra e o céu.

Foi sob aquela árvore que surgiram as primeiras perguntas, e que não pareciam perguntas próprias ou comuns para uma criança: quem somos? O que é Deus? Por que estamos aqui? O que existe além daquilo que vemos? De onde vem essa sensação de mistério que às vezes nos visita? Uma sensação tão profunda de que a vida guarda algo maior do que somos capazes de compreender?

Essas perguntas chegaram a mim muito antes de qualquer ensinamento espiritual, e talvez tenham chegado antes mesmo de eu ter palavras para formulá-las, de quaisquer estudos, livros, etc. Eram perguntas que habitavam o corpo. Uma espécie de chamado silencioso que aparecia sempre que eu me deixava tocar pela beleza, pela natureza ou pelo inexplicável.

Cresci entre diferentes visões de mundo. Minha mãe era espiritualista, meu pai, ateísta. E tive o privilégio de estudar em um colégio católico, numa época em que isso realmente significava uma formação muito sólida, e a formação religiosa vinha acompanhada de reflexão, disciplina e valores humanos profundos. Entre essas três influências — a espiritualidade da minha mãe, o questionamento do meu pai e a tradição católica da escola — aprendi algo precioso: fazer perguntas.

Nunca me interessei muito por respostas prontas. Sempre me interessei pela busca, e hoje percebo que essas influências não competiam entre si. Ao contrário, criaram um terreno fértil para algo que se tornaria essencial na minha vida: a liberdade de buscar.

Sempre me interessei pela investigação. A dança também é uma forma de investigação. Ela não responde, ela pergunta. E talvez por isso ela tenha ocupado um lugar tão central no meu caminho. A dança nunca foi apenas uma técnica ou uma profissão. Para mim, sempre foi uma forma de conhecimento. Um modo de escutar o invisível através do corpo. Um diálogo permanente entre aquilo que sentimos e aquilo que ainda não conseguimos nomear.

Comecei muito cedo, no balé clássico, e como acontece com tantas vocações verdadeiras, uma experiência foi conduzindo à outra. Vieram os estudos, os ensaios, as companhias, as viagens e os encontros com mestres que ampliaram minha visão da arte e da vida. Vieram também os anos de disciplina silenciosa que quase ninguém vê — aqueles anos em que repetimos o mesmo gesto inúmeras vezes, aprendendo que a profundidade não se revela na pressa.

A dança me ensinou cedo que a maestria não acontece de uma hora para outra. Existe uma diferença profunda entre entusiasmo e comprometimento, entre desejar algo e dedicar uma vida a isso. Ao longo da minha formação, mergulhei nos estudos de Martha Graham, José Limón e Paul Taylor. Mais tarde, apaixonei-me por Pina Bausch, por sua obra e pela forma como ela revelava a complexidade da condição humana através do movimento.

Embora cada um deles possuísse uma linguagem singular, todos compartilhavam algo essencial: haviam dedicado suas vidas ao próprio trabalho. Observando seus percursos, compreendi uma verdade que mais tarde reencontrei na espiritualidade: aquilo que é verdadeiro resiste ao tempo, e o que surge apenas do entusiasmo passageiro ou de modismo e tendências vazias inevitavelmente tendem a desaparecer.

Talvez tenha sido a arte a minha primeira grande escola espiritual. Foi ela que me ensinou a respeitar os processos, a amadurecer perguntas e a confiar no tempo necessário para que algo autêntico pudesse florescer. Enquanto dançava, continuava buscando.

Ao longo dos anos continuei buscando. Li muito, estudei muito, participei de palestras, encontros e formações. Tive contato com diferentes tradições espirituais e encontrei mestres cujas palavras continuam me acompanhando até hoje. Entre eles, Paramahansa Yogananda ocupa um lugar especial. Seus ensinamentos me tocaram profundamente e continuam sendo, para mim, uma das expressões mais sérias, lúcidas e inspiradoras da espiritualidade moderna.

Mas, olhando para trás, sinto e percebo algo curioso. Minha busca nunca foi por experiências extraordinárias. Nunca foi por fenômenos, revelações ou promessas de transcendência. O que eu procurava, mesmo sem saber nomear, era uma busca autêntica pela verdade. Uma verdade capaz de atravessar o tempo, as crenças, as circunstâncias e as diferentes fases da vida.

Anos mais tarde conheci Carl Jung, e sua obra trouxe uma compreensão que se tornaria fundamental no meu caminho, algo que me acompanharia para sempre. Jung me ajudou a perceber que crescimento espiritual não significa escapar de si mesmo. Por meio do conceito de sombra tive a compreensão de que crescimento espiritual não significa fugir de si mesmo. Não significa tornar-se uma versão idealizada de quem gostaríamos de ser. Significa, antes de tudo, encontrar-se em si mesmo. Significa olhar para a própria sombra, reconhecer aquilo que escondemos de nós mesmos e desenvolver a coragem de habitar a nossa humanidade por inteiro.

Talvez por isso eu tenha me tornado cada vez mais cautelosa diante do que hoje chamamos de mercado da iluminação. Vivemos uma época paradoxal. Nunca se falou tanto de consciência, despertar e cura. Nunca tivemos tanto acesso a informações, práticas e ensinamentos. E, no entanto, durante toda a minha trajetória até aqui, raramente vi tantas pessoas confusas, ansiosas e desconectadas de si mesmas.

O mercado espiritual descobriu que a busca humana pode ser transformada em produto, e passou a vender iluminação como quem vende qualquer outra coisa, tornando a espiritualidade em mais um produto de consumo. Vendem-se atalhos para a transformação. Promete-se despertar sem disciplina, consciência sem responsabilidade, luz sem conhecimento da sombra. Mas nada do que realmente transformou a minha vida aconteceu dessa maneira.

Nem a dança. Nem a arte. Nem os grandes mestres que encontrei. Nem a própria vida.

Tudo o que teve valor exigiu tempo. Exigiu prática. Exigiu humildade. Exigiu a disposição de permanecer presente mesmo quando não havia respostas imediatas. E talvez tenha sido justamente por isso que algo inesperado aconteceu quando deixei de procurar experiências extraordinárias. A presença de Jesus Cristo entrou na minha vida.

Não através de um grupo. Não através de uma doutrina. Não através de uma conversão repentina ou forçada. Mas através de uma experiência profundamente íntima, silenciosa e real.

Comecei a estudar sua vida, seus ensinamentos e sua mensagem com o mesmo espírito de investigação que sempre acompanhou minha jornada. Sem fanatismo. Sem a necessidade de convencer ninguém. Apenas com abertura, curiosidade e discernimento.

Anos depois, durante uma peregrinação a Israel, aceitei ser batizada novamente. Muitas vezes me perguntam o que aconteceu naquele momento. E a verdade é que não houve nada de espetacular. Não houve uma revelação dramática nem um acontecimento extraordinário. O que aconteceu foi muito mais simples.

E justamente por isso, muito mais profundo. Algo se reorganizou dentro de mim. Algo encontrou repouso, como se partes dispersas da minha própria história finalmente se reconhecessem umas nas outras.

Desde então, minhas manhãs frequentemente começam com a oração do Terço. E quando rezo acontece algo que continua difícil de explicar. Não é exatamente paz. É uma força, uma força silenciosa, tranquila. Uma presença. Como se uma luz se acendesse por dentro. Como se uma muralha invisível se erguesse ao meu redor e me recordasse algo que a mente facilmente esquece. Como se eu me lembrasse, por alguns instantes, de que não caminho sozinha.

Não consigo explicar essa experiência intelectualmente. Talvez porque algumas das realidades mais importantes da vida pertençam ao território do mistério. Só posso dizer que ela é real para mim e que transformou profundamente a maneira como habito o mundo.

Não escrevo estas palavras para converter ninguém. Não tenho interesse em “catequizar” nem em convencer alguém a seguir o mesmo caminho. Este é apenas o testemunho de uma mulher que buscou durante muitos anos. Que estudou, dançou, questionou, duvidou, se encantou, se decepcionou e continuou procurando, e que encontrou algo precioso quando deixou de perseguir os “modismos espirituais” e começou a ouvir aquilo que silenciosamente já habitava dentro dela. Retorno ao silêncio.

E assim, retorno à presença. Retorno àquilo que sempre esteve ali. Às vezes penso novamente naquela menina sentada diante da acácia em Salvador. Ela continua viva dentro de mim. Continua fazendo perguntas, contemplando o mistério e se emocionando diante da beleza.

Mas talvez exista uma diferença.

Naquela época, ela tentava descobrir onde Deus estava. Hoje, quando rezo, tenho a sensação de que Ele esteve presente o tempo todo.

Na luz entre as folhas. No silêncio da contemplação. Nas perguntas que não tinham resposta. E até mesmo debaixo daquela árvore.