Às vezes me perguntam por que continuo interessada em espiritualidade depois de tantos anos.
A verdade é que não me lembro de uma época em que não estivesse interessada.
Quando penso no início dessa busca, não me vejo em um templo, nem em uma igreja, nem em um curso. Vejo uma menina em Salvador, na Bahia, observando uma árvore.
Devia ter uns doze anos.
Era uma grande acácia.
Eu me sentava perto dela e ficava olhando seus galhos, suas raízes, a dança da luz entre as folhas. Não sei exatamente como explicar isso, mas lembro que já me fazia perguntas que não pareciam perguntas de uma criança.
Quem somos?
O que é Deus?
Por que estamos aqui?
O que acontece depois?
De onde vem essa sensação de mistério que às vezes nos visita?
Essas perguntas chegaram muito antes de qualquer ensinamento espiritual.
Talvez tenham chegado antes mesmo de eu ter palavras para formulá-las.
Cresci entre dois mundos.
Minha mãe era espiritualista.
Meu pai era ateísta.
E eu tive o privilégio de estudar em um colégio católico numa época em que isso significava uma formação muito sólida.
Entre essas três influências — a espiritualidade da minha mãe, o questionamento do meu pai e a tradição católica da escola — aprendi algo precioso: fazer perguntas.
Nunca me interessei muito por respostas prontas.
Sempre me interessei pela busca.
Talvez por isso a dança tenha sido tão importante na minha vida.
A dança também é uma forma de investigação.
Ela não responde.
Ela pergunta.
Comecei muito cedo no balé clássico e, como acontece com tantas vocações verdadeiras, uma coisa foi conduzindo à outra.
Vieram os estudos.
Os ensaios.
As companhias.
As viagens.
Os mestres.
Vieram os anos de disciplina silenciosa que ninguém vê.
Aprendi cedo que maestria não acontece em um fim de semana.
Aprendi que existe uma enorme diferença entre entusiasmo e profundidade.
Estudei Martha Graham.
José Limón.
Paul Taylor.
Mais tarde me apaixonei por Pina Bausch.
Todos eles tinham algo em comum: dedicaram uma vida inteira ao seu trabalho.
E talvez tenha sido a arte que me ensinou a reconhecer uma verdade que mais tarde encontrei também na espiritualidade:
Aquilo que é verdadeiro resiste ao tempo.
O que é apenas moda desaparece.
Ao longo da vida continuei buscando.
Li muito.
Estudei muito.
Assisti palestras.
Conheci diferentes tradições.
Tive a honra de encontrar os ensinamentos de Paramahansa Yogananda, que continuam sendo para mim uma das vozes mais sérias e inspiradoras da espiritualidade moderna.
Mas, olhando para trás, percebo que minha busca nunca foi por experiências extraordinárias.
Minha busca era pela verdade.
Mesmo quando não sabia dar esse nome.
Anos depois conheci Carl Jung.
E Jung trouxe algo que me acompanharia para sempre.
A ideia da sombra.
A compreensão de que crescimento espiritual não significa fugir de si mesmo.
Significa encontrar-se.
Significa olhar para aquilo que gostaríamos de esconder.
Significa abandonar fantasias sobre quem gostaríamos de ser e ter coragem de conhecer quem realmente somos.
Talvez por isso eu tenha me tornado cada vez mais cautelosa com aquilo que hoje chamamos de mercado da iluminação.
Vivemos uma época curiosa.
Nunca se falou tanto de consciência.
Nunca se falou tanto de despertar.
Nunca se falou tanto de cura.
E, ao mesmo tempo, nunca vi tantas pessoas perdidas.
O mercado espiritual descobriu que a busca humana pode ser transformada em produto.
E passou a vender iluminação como quem vende qualquer outra coisa.
Prometem atalhos.
Prometem transformação instantânea.
Prometem despertar sem disciplina.
Prometem consciência sem responsabilidade.
Prometem luz sem sombra.
Mas a vida nunca me ensinou isso.
Nem a dança.
Nem a arte.
Nem Jung.
Nem os grandes mestres.
Tudo o que realmente transformou a minha vida exigiu tempo.
Exigiu prática.
Exigiu humildade.
Exigiu trabalho.
Foi justamente quando já não estava procurando experiências extraordinárias que algo inesperado aconteceu.
A presença de Jesus Cristo entrou na minha vida.
Não através de um grupo.
Não através de uma ideologia.
Não através de uma conversão forçada.
Mas através de uma experiência profundamente íntima.
Silenciosa.
Real.
Comecei a estudar sua vida.
Seus ensinamentos.
Sua mensagem.
Sem fanatismo.
Sem a necessidade de convencer ninguém.
Sem abandonar o discernimento que sempre me acompanhou.
Anos depois, durante uma peregrinação a Israel, aceitei ser batizada novamente.
E alguma coisa mudou profundamente dentro de mim.
Não foi um espetáculo.
Não foi uma experiência dramática.
Foi algo muito mais simples.
E muito mais verdadeiro.
Hoje minha manhã começa frequentemente com o terço.
E quando rezo acontece algo difícil de explicar.
Não é exatamente paz.
É uma força.
Uma força silenciosa.
Uma presença.
Como se uma luz se acendesse por dentro.
Como se uma muralha invisível se erguesse ao meu redor.
Como se eu me lembrasse, por alguns instantes, de que não estou sozinha.
Não consigo explicar isso intelectualmente.
Talvez porque pertença ao campo do mistério.
Só posso dizer que é real para mim.
E que transformou profundamente a maneira como caminho pela vida.
Não escrevo estas palavras para converter ninguém.
Não tenho interesse em catequizar.
Não tenho interesse em convencer ninguém de nada.
Este é apenas o testemunho de uma mulher que buscou durante muitos anos.
Que estudou.
Que dançou.
Que questionou.
Que duvidou.
Que se encantou.
Que se decepcionou.
Que continuou procurando.
E que encontrou algo precioso quando deixou de perseguir as modas espirituais e começou a ouvir aquilo que silenciosamente já habitava dentro dela.
Às vezes penso novamente naquela menina sentada diante da acácia em Salvador.
Ela ainda está aqui.
Ainda faz perguntas.
Ainda contempla o mistério.
Ainda se emociona diante da beleza.
Mas talvez exista uma diferença.
Naquela época ela perguntava onde Deus estava.
Hoje, quando rezo, tenho a sensação de que Ele esteve presente o tempo todo.
Até mesmo debaixo daquela árvore.















