Gostava de comprar uma casa. Caso tivesse dinheiro, comprava-a de imediato! Se ganhasse alguma lotaria, não perdia mais tempo.

Comprava uma casa sem grandes luxos, fora de Lisboa, no sítio mais remoto que tivesse acesso aos serviços básicos essenciais: saúde, educação, transporte, segurança, fornecimento de energia elétrica, água, tratamento de esgoto e lixo. Ficaria longe de toda a toxicidade metropolitana, dos trânsitos, das energias negativas que pairam em todos os átomos da atmosfera, do stress, das outras pessoas, da estupidificação massiva das novas gentes e das suas tecnologias subaproveitadas para a futilidade.

Gostava de comprar uma casa junto ao mar, se assim não fosse, ao pé de um rio ou no campo. Que fosse num vilarejo piscatório, onde pudesse hipnotizar-me com o mar; com os seus movimentos ora calmos, ora intempestivos. Absorver a sua energia através das gotículas, das ondas revoltas, que se me pousam na pele e abismar-me com a sua grandeza e beleza.

Observaria, com nostalgia, as artes pesqueiras, nas manhãs em que as houvesse e incorporava as várias procissões aos santos do mar.

Aventurava-me, ao cair da noite ou aos primeiros raios de sol, a levar a cana para o pontão e a tentar a minha sorte com algum peixe digno de refeição.

Enquanto observava a cana a agitar-se com a ondulação ou com o vento, ouvia de outros pescadores os truques do ofício: como empatar anzóis, isco, engodo, peixes, marés.

Também me entretinha com as histórias deles, que tinham em comum o peixe colossal que acabara por fugir. Todos eles exemplificavam fervorosamente com as mãos, o tamanho e a luta que o bicho dera.

Dei-lhe linha e recolhi, dei-lhe mais linha e recolhi. Estava sempre atento se ele não se metia nalgum buraco da rocha. Foi uma luta de mais de uma hora, e de repente, zás, a linha cedeu e o malandro fugiu.

Não só de pesca falaríamos: acompanhados de cervejas e boa-disposição, qualquer tema podia ser discutido: carros, motas, ferramentas, mulheres, desporto, o país, tudo era assunto.

A minha casa teria dois andares, alguns quartos e casas-de-banho para receber qualquer visitante que pernoitasse.

Imagino uma fachada branca, límpida, com linhas grossas em azul a contornarem as portas e janelas. O rodapé exterior, também, seria azul e com muitos desenhos alusivos ao mar: algas, peixes, estrelas-do-mar, golfinhos, cavalos-marinhos, fosse o que fosse.

Uma porta imponente e bonita, de madeira entalhada, havia de servir de entrada. Mas as dobradiças bem oleadas permitiam que um gentil empurrão a abrisse e deixasse qualquer pessoa entrar. Na minha casa todos são bem-vindos e todos são recebidos de braços abertos.

A minha cozinha havia de ser aberta, rústica, em U com península; bem ao estilo americano em que se conecta com a sala de estar; sem barreiras, sem limites. No balcão central podia confecionar os partos portugueses que tanto gosto ou simplesmente sentar-me numa das cadeiras altas a beber um chá quente.

Uma porta dava para as traseiras onde um terreno — nada muito grande — era onde eu tinha algumas árvores de fruto e plantava uns legumes. Havia de ter uma grande variedade de ervas aromáticas e outras especiarias como têm os grandes cozinheiros que aparecem na televisão. Junto à porta, uma montanha de lenha cortada para a lareira. É raro acendê-la, só mesmo se as visitas merecerem.

Já estou a imaginar os meus dias. Pela manhã, bem cedinho, os meus cães — dois arraçados de Border Collie — acordam-me com alguns latidos, querem que lhes abra a porta traseira para se irem espojar na relva. Abro-lhes caminho e entra pela casa adentro a fragrância da estação. Aproveito para regar às verduras, enquanto o sol está fraco e, também, para apanhar alguma fruta da época.

Depois de me arranjar e de comer qualquer coisa, saio à rua. Os canídeos andam à vontade sem nunca se afastarem da minha pessoa. Caminho até ao café mais próximo, frequentemente encontro a Dona Regina, ocupada nas suas lides: ora pendura a roupa, ora rega as plantas, ora faz a suas compras, mas nunca nega uma boa conversa às pessoas que encontra. Comigo não é exceção e o que era um simples bom dia torna-se uma conversa de largos minutos.

Os miúdos descem a rua de mochila às costas, no caminho vão apanhando os colegas que também saem de casa e, em grupo, deslocam-se à escola.

No Café Barreto reúnem-se os primeiros clientes ávidos do elixir. O Zé padeiro, que entregou lá a saca de pão, bebe o seu, muito rápido. Liberta meia dúzia de palavras aos restantes, mas não se demora, tem que fazer mais entregas e a manhã passa rápido.

Peço um galão e uma torrada ao Sr. Barreto, mas é a sua mulher que o traz à mesa. Enquanto beberrico a bebida e trinco uma parcela da torrada, ouço as conversas dos idosos madrugadores; saudosamente recordam os tempos em que "Era assim e que já não é. Tudo era diferente!", e que ocasionalmente libertam um nostálgico “Esses eram os tempos!”.

Depois do passeio meto-me a trabalhar ao computador. Hoje em dia, com uma boa ligação pode-se trabalhar em qualquer lado. Estou sempre em comunicação com o chefe e assim faço o meu trabalho, planeio as reuniões, envio os ficheiros, ninguém tem nada a apontar. No final do expediente aproveito ali duas horas para escrever mais umas páginas do meu livro.

Ao final da noite dou mais uma volta com os cães. No paredão junto ao areal não se vê muito do mar que está adiante, mas o ruído das ondas transmite a mesma serenidade como se estivéssemos a vê-lo. Os cães escapam-se para brincar na areia; não me preocupo, com uma assobiadela eles sacodem-se e voltam para a minha beira. Apesar de soprar algum vento ou frio, o calor humano das pessoas que passeiam bem-dispostas, aquece-nos a alma. São sorrisos aqui e ali, crianças que correm a dar carícias aos cães, falo com este e com aquele. Talvez beba uma cerveja nalgum bar e só depois vá para a harmonia de casa, onde ligo o aquecimento por alguns minutos e vejo um pouco de TV antes de cair no sono.

Gostava de comprar uma casa. Se tivesse dinheiro gostava que fosse assim.