As horas se passaram bem rápido para François naquele fim de semana em Krantournac. Aproveitando que não havia previsão de chuva, ele passava a maior parte do tempo flanando, vendo paisagens que lhe inspiravam a desenhar. Teria de comprar outro caderno quando voltasse para casa, pois aquele já estava quase acabando, tão produtiva fora sua passagem pela cidade.
O último passeio aconteceu nas últimas horas do domingo. A brisa marítima balançava as folhas e criava sombras diversas, alongadas pelo pôr do sol. O tempo era escasso para aproveitar o resto da luz natural e o rapaz se apressava para pelo menos estruturar os desenhos e alguns detalhes que achasse interessantes.
Fez a última visita à marina antes de se recolher ao hotel – no fim, quase não tinha aproveitado a “boemia” do lugar!… O céu perdia cada vez mais os tons de laranja e vermelho e ganhava a intensidade do azul-quase-negro da noite. As primeiras estrelas despontavam e a Lua, perto de ficar completamente cheia, brilhava cada vez mais.
A temperatura agradável fazia com que mais pessoas estivessem por ali, preparando-se para jantar em algum dos restaurantes ou meramente passeando e conversando. Parecia uma cena de décadas atrás: quase não se usavam celulares e a interação era marcada por olhares e risos.
François trabalhava ao máximo naquele cenário com seu quê oitentista, usando as folhas remanescentes do caderno para registrar cenas inteiras ou detalhes que lhe chamavam a atenção – um olhar apaixonado, uma gaivota observando o horizonte, dois cachorros brincando. Vez ou outra parava por alguns instantes para ver como estava saindo o desenho e, satisfeito, dava mais alguns retoques antes de passar para o seguinte.
Eram cerca de nove e meia quando a fome levantou a mão como um aluno que deseja falar ao professor. O rapaz riu, percebendo o quão absorto havia ficado, e decidiu fazer uma pausa. Como estava perto do hotel, a última grande refeição em Krantournac seria lá, para onde rumou após se levantar e agradecer à noite, com um leve aceno de cabeça.
O salão do L’Élégance estava todo iluminado àquela hora, com alguns dos hóspedes jantando. François nem subiu para seu quarto: só lavou as mãos num lavabo ao lado e escolheu uma das mesas. Foi prontamente atendido pelo garçom da noite e logo escolheu um prato típico da cidade, o filet krantournacien. Como não iria dirigir, pediu também um vinho tinto de Dornaccio para acompanhar.
A refeição foi muito agradável. Acabou pedindo um blansaïme com sorvete como sobremesa e, para arrematar, um espresso. Enquanto tomava o café, respondia mensagens no WhatsApp, além de alternar entre o Instagram e o Pinterest. Foi quando se aproximou alguém com uma voz rouca pelo tabaco.
— Bonsoir, monsieur. – Era Ernest Glouzanne, o crítico – Não pude deixar de notar seu caderno de desenhos.
— Bonsoir. O senhor é M. Glouzanne, não é? Leio suas críticas às vezes, pela Internet.
— Sou eu sim, e fico lisonjeado, M....?
— Pourmondot, François Pourmondot. E fique à vontade para ver o caderno. – virou-o para o crítico, que havia se sentado (não sem antes pedir permissão silenciosamente), e abriu a primeira página – Os desenhos que fiz em Krantournac começam a partir da fita vermelha.
Ernest agradeceu com um aceno e cuidadosamente folheou o livro, como se fosse o manuscrito de uma ópera muito antiga. Em alguns momentos perguntava onde era a paisagem desenhada e, quando passou a ver os desenhos feitos na cidade, elogiava sua fidedignidade.
— Meus parabéns, M. Pourmondot. – disse enfim o crítico, fechando o caderno e devolvendo-o a seu dono – O senhor já pensou em criar cenários de ópera? Com certeza, seu traço seria muito apreciado nos teatros líricos de Terre de Sainte-Sophia.
François pôs-se a pensar por um instante, porque aquilo até então jamais havia passado por sua cabeça. Sem dúvida, seria muito interessante, ainda mais porque alguns teatros no país mantinham a tradução oitocentista dos grandes painéis como cenário.
Percebendo a reflexão do rapaz, Ernest disse:
— Aqui está meu cartão. Quando quiser, entre em contacto: posso apresentá-lo a Beatrice Rizzonato, que, como senhor deve saber, é uma discípula da tradicional escola de Alessandro Sanquirico, ainda em voga em nosso reino – felizmente!
— Ah, conheço sim, e com certeza escreverei para o senhor. Merci beaucoup !
— Não há de quê. – levantou-se – Bonne nuit, monsieur. – Assim que o rapaz respondeu ao cumprimento, o crítico se foi.
A semente plantada com certeza renderia frutos. Naquela noite, sonharia com as possibilidades, sem dúvida, como às vezes lhe acontecia. Depois de agradecer ao garçom, retirou-se para seu quarto, onde juntou suas coisas – principalmente o caderno de desenhos, que guardou com especial esmero – e se preparou para dormir.
A manhã seguinte seria bastante calma: café da manhã (o do L’Élégance era excelente!) às 7h30 e checkout pouco antes das 9h00. Como seu trem de volta para casa sairia só às 11h15, ainda teria algum tempo para visitar sua nova amiga, a Marina de Krantournac, antes de partir.
Andou até lá e aproveitou os raios de Sol que começavam a ficar cada vez mais quentes. Às 10h30 chamou um Uber, que estava na vizinhança, e em poucos minutos chegou à Gare Corneille. Atribuída a nota à motorista, dirigiu-se aos trens – o seu partiria da Plataforma 5.
Numa das lojinhas da estação, tomou mais um café e pegou outro chocolate. Quando o letreiro luminoso anunciou o Train-Concorde em que viajaria, pegou sua mala e se dirigiu a ele, que já aguardava os passageiros. Apresentou seu bilhete online ao fiscal do vagão e entrou – novamente havia escolhido uma poltrona isolada.
Colocou o fone de ouvido e, uma vez selecionada a playlist “Viagens”, acomodou-se. Olhou para a estação pela janela, agradecendo à cidade pelo acolhimento e pela inspiração, e fechou seus olhos ao som da “Élégie” de Massenet.
A música estava na metade quando o trem começou a se movimentar. Logo ganharia velocidade, embalando os sonhos pictóricos do jovem aquarelista.















