«Adormeci à sombra da árvore.
Ao acordar dourado pingo de sol dançava sobre meu peito.
Pensei que era meu.
Senti-me rico.
Quis agarrá-lo.
Meu gesto de cupidez assustou-o. E a luz se foi»

(Hermógenes, 2004)

É uma ilusão pensarmos que estamos preparados para dizer “adeus”. Saber que aquele ser que ora estamos perdendo, como que ao simples cruzar de uma linha de chegada, passa a pertencer ao nosso passado. Saber (e sentir...) que nunca mais ele estará ao alcance de nossos sentidos. Saber (e sentir...) que ele jamais voltará... Tudo isso é por demais avassalador para nós humanos, mortais que somos todos.

Muitas vezes, tudo o que resta daquele que fez parte de nossa vida, em alguns casos por longos anos - e que nessa convivência aprendemos a amar - são apenas e tão somente algumas fotos, um quadro na parede ou uma simples imagem mental, que cada vez mais se desvanece...

De imediato, por um momento que se confunde com a eternidade, o impacto da perda e o imenso vazio em que de chofre nos sentimos imersos nos fazem cair num estado de profunda letargia e perplexidade. Isto, no entanto, já faz parte do processo de luto e elaboração da perda, e o confronto com a dimensão da vida sobre a qual não temos controle.

Quando decresce a agudeza da dor e o sentir cede espaço para o pensar, nos deparamos com a transitoriedade e a fugacidade das coisas, da vida e das pessoas, fato que nos remete à nossa própria finitude. No planeta em que vivemos nada é eterno. Tudo muda e tudo se acaba. Até mesmo nosso maior objeto de amor, nossa âncora e nossa referência afetiva, pode nos ser arrancado de repente e sem mais delongas.

Em seu livro Saúde na Terceira Idade, o Prof. Hermógenes ressalta que uma das maiores fontes de sofrimento em qualquer pessoa é o apego àquilo e àqueles que, ilusoriamente, supomos nos pertencer exclusiva e eternamente. Assim, abnegar-se, renunciar, desprender-se, desapegar-se, são atitudes necessárias e saudáveis, mas difíceis aos que, ainda jovens, veem-se engajados em seu próprio crescimento e independência. Na realidade, tudo o que julgamos possuir – dinheiro, cargos, amigos, parentes, status, obras de arte, diplomas, títulos – por ser fugaz e destrutível pelo tempo, nada vale. “Nada persiste, portanto, nada merece apego”, reitera o autor. Desta forma, o homem inteligente espontaneamente elimina desejos, apegos, aversões e medos. Chega-se à felicidade pelo simples abrir mão da pesada e volumosa carga penosamente acumulada às próprias costas.

Mesmo para aquele que não está disposto a fazer grandes reflexões sobre a vida, o ato de viver se apresenta como uma empreitada bastante desafiadora e exige que se tenha uma estrutura e uma personalidade forte que seja capaz de resistir e de sobreviver à angústia do inexorável, à face obscura da morte. Ou se não temos, ‘nos tornamos’ ao longo do caminho e das experiências.

Deixar ir aquilo que já se foi. Soltar-se. Desprender-se é uma arte a ser aprendida e dominada.

Fernando Sabino afirma em seu poema Praticando o desapego:

«Sempre é preciso saber quando uma etapa chega ao final.
Se insistirmos em permanecer nela mais do que o tempo necessário...
Perdemos a alegria e o sentido das outras etapas que precisamos viver.

Encerrando ciclos, fechando portas, terminando capítulos.
Não importa o nome que damos, o que importa é deixar no passado os momentos que já se acabaram.
As coisas passam, e o melhor que fazemos é deixar que elas possam ir embora».

Na maioria das vezes não temos controle para decidir sobre quando alguma coisa se acaba, e o que nos cabe é simplesmente aceitar que acabou. E aprender a se relacionar com a vida e com o que nos rodeia de outra maneira. O momento presente é apenas um flash de algo que amanhã já não estará mais aqui.

Aprender a aceitar que tudo é transitório e que todas as coisas que julgamos que possuímos na realidade nos são ‘emprestadas’. O outro, seja ele quem for, é nosso momentâneo parceiro de jornada. Tornamo-nos mais sábios à medida que extinguimos crônicos sentimentos de posse e desejamos cada vez menos.

Nada é perene neste planeta. Estamos a todo o tempo exercitando o “Adeus”. Confrontando-nos com o aparente negrume de nossa própria solidão.

Mas é no silêncio da solidão que conseguimos enxergar novas sementes que estão germinando. Sementes de um novo processo. Um novo devir.

Fernando Sabino disse ainda em seu poema:

«Desapegar-se, é renovar votos de esperança de si mesmo,
É dar-se uma nova oportunidade de construir uma nova história melhor».

Não vamos nos esquecer jamais que a vida não termina na morte, mas uma nova oportunidade nos é apresentada através do renascimento. Este é um ciclo que constantemente se repete. Basta olhar para as estações do ano: a vida parece morrer no inverno para renascer na primavera.

A dor, no entanto, tudo indica ser algo inerente a este processo de vida e morte / morte e vida. Não há como alijar-se da dor, que parece atingir seu ponto culminante na hora do adeus. Ela é a mais genuína expressão de nossos sentimentos, uma marca humana, por excelência.

Referências:

Hermógenes: Saúde na Terceira Idade. 12ª. ed. Rio de Janeiro, Editora Nova Era, 2004.