Desde tempos imemoriais, irritar o outro e perder a razão fazem parte da coreografia das relações humanas. Quantas vezes já lhe cutucaram, provocaram ou ironizaram com uma “brincadeira” que de inocente nada tinha, até que você perdesse a chamada “razão”? E, com a mesma honestidade, quantas vezes você empurrou alguém nesse abismo emocional, consciente ou inconscientemente, apenas para observar o momento em que o outro se desestabilizaria?

Com o passar dos anos, aprendi que razão não é grito, não é a última palavra, tampouco é vitória. Razão, para mim, é aquilo que originalmente significa: a capacidade de raciocinar, atributo inato ao ser humano. Porém, no convívio social, esquecemos essa definição simples. Passamos a confundir razão com poder, argumento com violência e diálogo com disputa. O sábio, como dizia Dostoiévski, é aquele que percebe “o ridículo de nossa própria vaidade” e, justamente por perceber, não se envolve em discussões vis e infantilizadas. Ele sabe que a fúria nada constrói e que a verdade raramente nasce das gargantas exaltadas.

O amadurecimento — esse processo que não tem diploma, mas ensina mais do que qualquer faculdade — nos obriga a abandonar a crença romântica de que “tudo vai dar certo”. A certeza incerta desaba, e no lugar dela nasce um olhar mais sóbrio, quase impiedoso, que já não se impressiona com quem fica, com quem vai ou com quem trai. E, quando questionado, esse olhar treinado percebe a fragilidade de quem responde atacando, virando o espelho ao acusador como estratégia desesperada para não enfrentar a própria sombra.

O cenário: a mulher que não faz escândalos

Quero ilustrar com calma — e com vida — a cena da mulher que ousou expressar um desconforto.

Pois bem,

Imagine-a: como uma mulher comum, dessas que seguram o mundo com uma mão e equilibram a própria ternura com a outra. Ela trabalha o dia todo, sem direito de se cansar, e vive com aquela inquietação mental que só quem amou de verdade conhece. Traumas psicológicos não fazem barulho: eles sussurram.

Mesmo com medo de ter certeza — ela senta-se à mesa, observa o marido e, com voz firme, porém vulnerável, diz que a colega do trabalho dele tem se insinuado. Não acusa, não esperneia, não dramatiza. Ela apenas tenta conversar. É o pedido de transparência que nasce do amor, não da posse.

E qual é a resposta dele?

A mesma que tantas mulheres ouvem: acusação invertida. Ele diz que isso é paranoia dela, que ela inventou tudo, ou pior — que ela só perguntou porque é ela quem trai.

E aqui reside o crime silencioso: não é traição, é destruição. É transformar o outro em suspeito de sua própria dor.

Mas repare: essa mulher não quebra copos.

Não amassa panelas.

Não vira a mesa e nem joga a sobremesa na parede para compor a cena dramática digna de novela.

Não.

Ela apenas respira. Longa e profundamente.

E nesse sopro nasce a ruptura.

Porque ela não precisa fazer escândalo para que sua alma estremeça, na verdade — nesta hora ela já está para lá de estremecida. O barulho que importa não é externo; é o ruído alto que sai da rachadura de seu interior, aquela que só quem já se quebrantou por dentro sabe identificar.

Essa mulher recua. Não porque é fraca, mas porque foi ferida na parte mais sensível: em seu direito de sentir.

O silenciamento que mata lentamente

Com o tempo — e não é muito tempo, uma noite mal dormida é o suficiente — para que aquela mulher passe a se calar. Não, porque concorde com o marido e sua moral duvidosa, mas porque entende que ali, naquele território emocional, a fala virou risco.

Ela muda seus movimentos.

Torna-se mais observadora.

Vigia os flertes distantes, os galanteios disfarçados, os egos inflados que o marido alimenta como um adolescente tardio que acredita ser desejado por todas as luzes que piscam ao redor.

E a mulher?

A mulher vai murchando devagar.

Logo de início, começa a se achar feia, mal-amada, e inadequada para o homem que amou, inadequada para a vida que construiu, inadequada para o papel que pensava desempenhar tão bem.

Mas sua revolução não é teatral.

Não é cinematográfica. É real.

Ela não joga as roupas dele pela janela.

Não invade o trabalho da colega.

Não escreve mensagens impulsivas às três da manhã.

Ela apenas… se cuida.

E aos poucos começa a se amar.

E, amando-se, desapega não do homem — mas da ilusão que tinha de quer amada.

A inpermanência do amor

Aquela mulher, agora mais madura, compreende que o “para sempre” não é uma promessa: é, só uma mentira bem colada, como já dizia a sabedoria popular. Ela entende que eternos são apenas os ciclos — não as pessoas. E que, no fundo, o amor só se mantém vivo se houver três ingredientes indispensáveis: verdade, liberdade e pacificidade.

O resto é contrato, papel timbrado, fotografia sorridente posada para atender as redes sociais.

Dostoiévski escreveu que “o sofrimento é a única causa da consciência”. Talvez seja por isso que tantas relações só se despertam quando já estão mortas. Amamos as idealizações, não pessoas. Criamos personagens para seduzir, porque a carência humana é tão infinita quanto o universo que ela tenta preencher.

O teatro e a verdade

Nós, seres humanos, somos inconsequentes. Mentimos para ganhar uma discussão. Inventamos realidades para preservar o ego. Criamos versões melhoradas de nós mesmos para impressionar quem mal conhecemos e dormimos sozinhos. Sonhando com um amor verdadeiro, E, enquanto isso, o amor — esse ser frágil e exigente — não encontra espaço para nascer e muito menos para florescer.

O amor não é como a flor de lótus que nasce no lodo.

Ele é planta que precisa de verdade, luz e silêncio.

Epílogo

E a mulher? Ela é aquela que já se sentou na beira do vulcão e viu a lava subindo…, mas não correu. Quanto a mim?

Ah! Eu casaria comigo um milhão de vezes (risos).

Mas, por ora, o melhor mesmo é tomarmos um café e discernirmos tudo isso com calma — antes que mais uma convicção cheia de incerteza vire tragédia doméstica ou tese existencial.

Com gratidão.