Estávamos em bando caminhando as trilhas de dentro das matas e cachoeiras dos setes vales atravessados. Da Busca à Morte, subimos e descemos as montanhas do existir. Todas as vezes, porém, resistimos, tanto para sair do lugar em que estamos, avançar, quanto para chegar onde precisamos, parar. Da vitalidade dos princípios, ao silêncio profundo dos fins, vamos nos rendendo aos poderes da arte e da natureza. No princípio, buscamos respostas, encontramos por hora, criamos, mas elas passam que nem vento no pensamento, fáceis de esquecê-las. Já no fim, sem pé nem cabeça, no coração, descobrimos que somos, sem nada saber. Somos o que? Diamantes em processo de lapidação. Somos multifacetadas e responsáveis pela criação da vida e criatura humana na perpetuação da espécie.

Mulheres Diamantinas é uma iniciativa de arte-cultura e cura, integrativa, prática, instrutiva e inspiradora, que reúne Mulheres com a Dança, a Natureza e os Elementos criativos e culturais de ambas, com o propósito de fortalecer a Autonomia e a Presença artística e atuante de Mulheres rurais no cenário cultural do Vale do Capão, distrito rural de Caeté Açú / Palmeiras / Chapada Diamantina, além de ampliar a visibilidade para o mundo, por meio de comunicação e mídias digitais, visa beneficiar a expressividade e saúde dos corpos femininos, bem como abrir espaço para formação de base, a partir da criação de rede de apoio transdisciplinar, inicialmente através de comunidade digital.

Atributos da dança e da natureza

Utilizando dos atributos da Dança e da Natureza, como principais eixos de pesquisas e linguagens artísticas, a iniciativa transita por outras nuances das artes cênicas / visuais, como teatro, música, literatura e ritos ancestrais, na transversalidade cultural da sua proposta estética, expressiva e instrutiva. A Iniciativa propõe Oficinas experimentais de Dança, com práticas corporais sensoriais, expressivas, além de ritualísticas e coletivas, para criação de Eco performance corporal, chamando atenção para a relação criativa e ambiental, entre os elementos da Dança, da Natureza e Corpos femininos.

É parte dos seus objetivos, a formação de rede de apoio transdisciplinar, que acolha, partilhe culturas e saberes e cuide de quem certamente já cuidou de alguém, e agora acima dos 50 anos, atravessa dificuldades e instabilidades com a estima, saúde, autocuidado e bem estar do corpo/mente emoções, além dos seus ambientes afetivos. A iniciativa culminará com apresentação artística local no final das suas Oficinas. A Eco Performance Corporal intitulada: Histórias escritas em nos Nossos Corpos.

Situado no centro oeste do interior da Bahia, o município de Palmeiras e seus artistas e agentes culturais, ainda encontram dificuldades para fazer parte do circuito cultural do estado e do país, assim, atividades de fomento às Artes são escassas, e acontecem em sua maioria, por persistente esforço de artistas, agentes culturais, e captação de recursos independentes. Abrangendo algumas localidades rurais, entre elas o distrito de Caeté-açu, conhecido internacionalmente como o Vale do Capão, nasce a iniciativa através do fomento às artes, da Política Nacional Aldir Blanc, beneficiando Mulheres maduras e grande parte da cadeia produtiva da Dança dentro do Vale, fomentando arte como possibilidade cultural, feminina e criativa, tendo como ferramentas a Dança e a Natureza para o auto desenvolvimento de si e da comunidade em seu entorno, ambas precisando de cuidados e proteção.

A cultura está no fazer diário e ancestral

Abrindo espaço para as experiências e investigações com o corpo, co criação de suas histórias, escuta sensível, auto expressão, saúde preventiva, e conexão com os elementos da dança e natureza, além de informar e partilhar maneiras de cuidar de si, apresenta abordagens da cultura feminina, que ajudam a tratar e prevenir muitos desequilíbrios e desconfortos fisiológicos, de corpos que adentram a metanóia, esse momento vulnerável, de transformação profunda, que traz à consciência, a fundamental necessidade de mudança da forma de viver, sentir e pensar a vida, daí em diante. A iniciativa crê que a Dança e a Natureza necessariamente deveriam fazer parte da vida das Mulheres, sobretudo nessa fase.

A Cultura está no fazer diário e ancestral, no mecanismo da criação humana ou natural. A união dos elementos da dança com os elementos da natureza, integradas ao ambiente natural, dentro de um processo criativo favorecem sobremaneira à cultura da arte e espaço de criação coletiva, além de mover corpos e almas femininas para o sentido da Arte, na criação fraterna e partilha do objeto criado com o mundo fora de nós, restabelece o equilíbrio dos 4 corpos que a iniciativa trabalhará nas Oficinas: Corpo Terra (Físico), Corpo Água (Emocional), Corpo Ar ( Mental) e Corpo Fogo (Cênico-espiritual) organizando a criatividade e saúde dos sistemas corporais, nesta fase significativa de transição que mulheres cinquentenárias atravessam, de muitas mudanças físicas e metabólicas.

O projeto abrirá esse espaço criativo de acolhimento e prática para essas mulheres rurais, desenvolvendo a criatividade, treinando equilíbrio e coordenação motora, induzindo o relaxamento, fortalecendo a presença cênica mais que corporal, sensibilizando os sentidos físicos e extra sensoriais, devolvendo para elas, o pertencimento e a conexão consigo e com a comunidade ao seu redor. Sendo assim, visa contribuir para que o envelhecimento dessas mulheres, seja criativo, ativo, preventivo e saudável, bem como, em promover saúde mental e autonomia, protagonismo cultural, além de criar redes afetivas entre elas, de vida ativa, bem estar, artes e culturas, redes de convivência e apoio mútuo.

Escrever com o corpo o que linguagem alguma é capaz de traduzir em palavras

Mulheres 50 + atravessam períodos de grandes transformações físicas, psíquicas e sociais, processos intensos vividos nos corpos do mover, do pensar, do sentir, muitas vezes mal compreendidos, mal nutridos e desamparados. É um momento delicado de mudanças hormonais, celulares e espirituais, em seus corpos, que precisam ser aceitos, entendidos e acompanhados com empatia, amor e muita Dança.

O projeto vem justamente para oferecer esse suporte que a arte em si promove, inspirando novos movimentos para a vida, e aprendizados para a reconexão com o corpo, a estima, a confiança em si, e contato autêntico com os elementos da natureza, além de toda potência que a Dança tem, de escrever com o corpo o que linguagem alguma é capaz de traduzir em palavras, é uma eficiente ferramenta, capaz de remover bloqueios, descobrir sentidos, libertar amarras, devolver a criatividade, fortalecer os sistemas corporais, esvaziar a mente, são muitos os atributos da dança que favorecem ao restabelecimento físico e espiritual, da saúde e bem estar das mulheres 50 +.

Embora a Dança seja uma linguagem corporal, não está separada da mente, tampouco da emoção e do espírito, seu motor propulsor de gestos e afetos no espaço tempo, tanto da sua existência, quanto da sua manifestação, na dança, o corpo e a subjetividade se confluem e fluem num contato humano com a criação, por isso seu poder mobilizador. Desde as sacerdotisas do período neolítico, é parte de cerimoniais sagrados, colapsados aos deuses com caráter artístico, além de simbólico e cultural.

No livro da Dança, muitas verdades estão escritas, muitas lições de vida, histórias vivas revividas no corpo, muitas orientações para aquelas que buscam no mover da vida, um mecanismo sensível de expressar sentido na forma, sem precisar de nada falar. Fomentando a Dança entre elas e a natureza, mulheres rurais 50+ encontrarão o remédio, o antídoto para as dificuldades físicas, mentais, emocionais, para aquilo que está desregulando seus sistemas fisiológicos corporais, muitas vezes, aquilo que não foi possível expressar, que não foi possível ser dito, compreendido, superado por elas.

O alimento para a alma expressar, o corpo dançar, e a vida curar

Mas a boa notícia é que a dança é especialista em ser capaz de expressar por si, tudo aquilo que está preso dentro, e precisa sair transformado. Para isto, pesquisas sensoriais, investigações corporais, construções cênicas, práticas e técnicas de aprimoramento dessa arte curativa, criando espaço de acolhimento para toda e qualquer emoção, sensação, impulsos internos e também externos. Um lugar que fornecerá o ambiente, o contexto e conjuntura ideais, para que, as história contadas pelas suas corporeidades, sejam elas próprias, o alimento para a alma expressar, o corpo dançar, e a vida curar. Esta é a hora que a dança acontece, quando os gestos fluem no espaço a beleza do sentir. Descobrir os tesouros que cada corpo traz na sua composição, textura, dinâmica, volume, clareza da forma, cientes das suas limitações, é desafiante e até extraordinário, pois que, é com a dança que ele, o corpo vai desenvolver eficiência através do movimento e flexibilidade nas couraças emocionais.

Dançar, sobretudo fortalece o músculo espiritual

A Dança cria, encanta, cura, circula o inanimado para ser transformado, circula vida para curar feridas e tudo continuar em harmonia com o criador. Corporeidade é a volta aos sentidos para dançar a vida. Escutar o corpo é fascinante, dançar nos conecta com um carrossel de emoções, sensações, sentidos da existência. Dançar, sobretudo fortalece o músculo espiritual. A linguagem da Dança ao se comunicar é capaz de articular o que sobra. É a escuta do corpo, antes de falar para ele o que fazer, escutar o fluxo das informações...escutar um balanço sem precisar de música, escutar uma oração sem precisar sabe-la, Falar sem precisar nada dizer.