Nos últimos meses, algo voltou a ganhar força na minha vida e após escrever vários textos dedicados à gastronomia, esse vai ser diferente. Tudo isso porque depois de um tempo focando meu trabalho em consultorias para negócios gastronômicos, fui convidada a dar aulas de cerâmica — e, nesse retorno à educação, percebi que o reencontro foi mais do que profissional. Foi também um reencontro comigo mesma.
Minha formação acadêmica foi em Letras e uma das primeiras formas de ganhar dinheiro na minha vida foi dando aulas, que no caso eram de inglês. Dediquei 10 anos da minha vida a esse mundo, os últimos 6 deles contratando e treinando professores, desenvolvendo atividades e lidando com questões de alunos. Não pensei, quando fiz minha transição de carreira em 2017 para a gastronomia, que voltaria a dar aulas tão cedo, muito menos de cerâmica.
Minha paixão pela argila começou como um hobby que descobri quando voltei a viver no Brasil e fui levando ele de maneira despretensiosa até começarem a surgir cada vez mais encomendas e mais recentemente o convite para dar aulas. Esse novo contato constante com alunos conhecendo a arte cerâmica pela primeira vez tem me trazido cada vez mais reflexões. Pesquisando e vivendo tudo isso nos últimos meses, decidi compartilhar algumas delas nesse texto.
Mais que um hobby, uma forma de auto cuidado
É curioso como as atividades manuais estão hoje sendo redescobertas como uma forma poderosa de cuidar da nossa mente. Trabalhar com o barro, costurar, bordar, pintar, cozinhar... todas essas ações, que exigem presença, sensibilidade e repetição, têm algo em comum: elas nos colocam de volta no corpo. E, talvez, seja exatamente isso que a gente mais precisa nos tempos em que vivemos.
Vivemos nessa era que valoriza a velocidade, a produtividade e o resultado. Somos incentivados a pensar sempre no próximo passo, no próximo projeto, na próxima conquista. O problema é que, nesse ritmo, esquecemos de estar onde realmente estamos. Quando percebo uma aluna moldando o barro pela primeira vez, vejo o quanto esse gesto simples exige coisas que temos desaprendido aos poucos: a paciência e o foco no processo ao invés do resultado final.
Modelar um objeto em cerâmica se torna quase um exercício de meditação. A argila ensina a gente o tempo todo, mesmo sem comunicar em palavras. Ela mostra que não dá pra apressar processos, porque se você tenta pular etapas, o resultado é um trabalho que racha, que quebra, que desaba. Não é uma metáfora que se encaixa em várias situações nas nossas vidas?
Costumo dizer nas aulas que a cerâmica é uma professora generosa, mas exigente. Ela devolve tudo o que você faz. Se estiver distraído, o barro mostra. Se estiver tenso, o gesto endurece junto. Se estiver calmo, a forma flui com mais leveza. Trabalhar com ela é um exercício constante de autoconhecimento, um espelho das nossas emoções — só que em texturas.
E talvez por isso, depois de cada aula, eu sinta uma espécie de paz difícil de explicar. Uma sensação de pausa dentro da correria, um respiro que não tem nada de místico, mas é quase espiritual.
Não é à toa que cada vez mais estudos têm mostrado a relação entre o fazer manual e a saúde mental. Atividades como cerâmica, jardinagem ou bordado ativam áreas do cérebro ligadas à concentração e à criatividade, diminuem os níveis de estresse e até ajudam a reduzir sintomas de ansiedade e depressão. Isso porque existe um motivo biológico para isso: ao nos concentrarmos em uma tarefa manual, nossa mente se desliga por um tempo do fluxo constante de pensamentos e preocupações, entrando em um estado que os psicólogos chamam de flow, que é aquele momento em que o tempo parece parar e tudo o que existe é o que está sendo feito, conexão total com o presente.
Mas não é só sobre neurociência. É sobre presença. É sobre criar algo que passa a existir fora da gente. É o prazer simples de ver o resultado concreto de um gesto. Num mundo cada vez mais digital, onde grande parte do que produzimos não tem forma nem peso, esse tipo de satisfação se tornou uma coisa muito rara.
E o mais bonito é que esse prazer se espalha e reverbera, porque quem começa a praticar uma atividade manual costuma perceber mudanças sutis em outras áreas da vida. A paciência se estende para o trabalho, as relações ficam mais leves, o olhar fica mais atento aos detalhes. É como se o corpo, ao reaprender a agir com calma, ensinasse a mente a fazer o mesmo.
Além disso, trabalhamos muito com questões de expectativa, porque na cerâmica rachaduras e outros imprevistos acontecem, às vezes é preciso recomeçar do zero, o forno pode surpreender — e está tudo bem, tudo isso faz parte dos processos naturais do barro.
Quando penso em saúde mental, costumo lembrar do quanto ela está ligada à sensação de controle. Queremos controlar tudo — nosso corpo, o tempo, o futuro — e é justamente quando aceitamos que não podemos controlar tudo que as coisas começam a se equilibrar. O barro faz isso conosco: ele nos devolve a humildade de quem entende que algumas coisas simplesmente levam o tempo que precisam levar. E acho que é por isso que tantas pessoas têm redescoberto o prazer de fazer algo com as mãos. Porque no fundo, o que buscamos não é apenas uma peça pronta, mas a experiência de estarmos inteiros enquanto fazemos.
Na vida acelerada que vivemos, qualquer atividade que nos reconecte com o presente é uma forma de cuidado. Pode ser o ato de cozinhar, plantar, desenhar, moldar, costurar… o que importa é estar presente no gesto.
Voltar a ensinar cerâmica tem me lembrado diariamente do poder que existe em algo tão simples quanto o toque. Do quanto o trabalho manual é, no fim das contas, uma forma de voltar pra casa e pra dentro da gente.
E, talvez, o que chamamos de autocuidado seja menos sobre velas aromáticas ou skin care e mais sobre esses momentos em que o corpo e a mente se encontram fazendo algo juntos. Quando deixamos o barro correr pelos dedos, o tempo desacelera, e o mundo inteiro parece caber nas mãos.
Como sempre, estou compartilhando todos os detalhes dessa jornada no meu Instagram e te espero lá pra acompanhar todos os passos dessa nova caminhada. Até a próxima!















