Não parece irônico desejar uma conexão genuína e, quando essa oportunidade chega, o ser humano insiste em forçar e parecer ser interessante o tempo todo? Será que o que ele deseja é mesmo uma relação recíproca ou apenas outro alguém, além de si, que valide sua existência medíocre e aplauda seu show de horrores, enquanto gozam juntos?
Mesmo que seja, mesmo que não seja, aquilo que é considerado interessante é também subjetivo, no entanto, em algum momento do dia não há nada de interessante a ser compartilhado. A não ser o confortável silêncio que cria o espaço para que algo realmente interessante possa surgir.
Por isso, aquele que não pensa profundamente e sistematicamente sobre si e sobre a sua postura nas relações está fadado a viver preso no majestoso lugar que a ilusão o coloca. Limita-se tanto às suas opiniões, se enxerga tanto como uma pessoa admirável (e interessante), que se engana e divaga. Não percebe a própria insignificância entranhada em si.
Agora, aqueles que se dizem tão interessantes, colocam suas mãos e pés no fogo pela própria conduta, devem conhecer também uma lógica simples: se uma pessoa é interessante, para isso ela também precisa ser necessariamente desinteressante em algum nível, maior ou menor. A lei da polaridade não falha: noite/dia, vida/morte, escuridão/claridade, e como até mesmo Freud explora: felicidade/infelicidade.
Por isso, até para ser uma pessoa interessante é preciso conhecer suas próprias banalidades, sua irrelevância, sua existência ordinária. É preciso estabelecer uma forte amizade com aquilo que é tedioso, monótono e maçante: nós mesmos. Mas, antes de tudo, é preciso admitir que se é e que se pode ser.
Em Poema em Linha Recta, Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, escancara a hipocrisia e falsidade das relações humanas e da postura das pessoas que insistem em se olhar como príncipes na vida. Criando uma comparação de sua própria existência com as aparências alheias, ele se despe de suas fraquezas e coloca as vulnerabilidades à vista, humanizando sua existência e se distanciando daqueles que se dizem interessantes a todo tempo. Poema em Linha Recta rejeita a máscara de perfeição e desabafa, com sabor e coragem, quem realmente somos.
Poema em Linha Recta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, [...]
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. [...]
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? [...]
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.(Álvaro de Campos)
A arte tem o poder de responder às nossas angústias como ninguém poderia, e Álvaro de Campos faz isso com maestria. E no fim das contas, existe uma liberdade gritante em admitir que nem sempre temos algo transformador a dizer e também não há a necessidade de procurar desesperadamente para preencher algum vazio, alguns vazios precisam de espaço e só.
O paradoxo curiosamente está no momento em que você deixa de perseguir essa imagem, pois é ali que se torna tudo realmente interessante: você está sendo você, com suas luzes e sombras. Ser interessante é ser tudo o que se pode ser. A performance já não é mais a resposta correta para descobrir a si mesmo; ela, na verdade, limita a experiência de uma existência. A tarefa adulta é tentar abandonar a necessidade de se exibir como uma obra de arte que quer ser admirada, mas não deseja ser tocada.
A maturidade também passa por reconhecer o próprio desinteresse. Admitir que somos, em muitos aspectos, repetitivos, contraditórios, previsíveis e ordinários é a forma mais lúcida de autoconhecimento. Afinal, somente quem consegue olhar para a própria mediocridade sem desespero pode desenvolver alguma profundidade. Quem passa a vida fugindo de suas banalidades acaba condenado a representar uma versão idealizada de si mesmo.
Ser interessante nunca deve ser o objetivo. O objetivo é caçar humanidade dentro das suas características, entendendo que seres humanos são, inevitavelmente, fascinantes e tediosos, brilhantes e medíocres, extraordinários e comuns. A ideia é integrar para ser. Aquele que aceita essa condição deixa de buscar aplausos para a própria existência e passa a habitá-la.
Fernando Pessoa encontrou a arte como sua expressão para explorar as diversas nuances de sua personalidade, sem julgamentos. O poeta concluiu sua missão em vida, mas o heterônimo Álvaro de Campos continua vivo e mais do que nunca, humano.















