Respit de la Mort (1396)

Je fis de Macabré la danse
Qui toutes gens maine a sa tresche
Et a la fosse les adresche
Qui est leur derraine maison.

(Jean Lefèvre de Ressons)

Na capa do livro O tempo entre os nossos dedos (Sto. Tirso, Idioteque, 2024), de Manuel Andrade, o desenho de Gracinda Candeias apresenta-nos um torso distorcido, trémulo e ambíguo, suspenso ou apunhalado por um fio cravado nas costas, desviando o rosto de um ponto de luz intensa, demasiado para ser encarada… a mão estende-se espasmodicamente sob o brilho magnético numa disposição que não coincide com a da outra esboçada na folha de rosto do volume e nenhuma delas parece ter um sentido identificado nas tipologias iconográficas (maçónicas ou outras). A singularidade é enigmática…

Em incipit, uma “Advertência”, dividida entre afirmação, desdobramento concretizador e justificador da mesma e comentário por adversativa:

“Nada neste livro será de fiar.

Não o serão a lógica da narrativa, as citações dos filósofos que aparecem feitas ao correr da pena da lembrança não sustentada ou sequer a inserção de personagens reais, mais não seja porque o mundo onírico e o vígil se abraçam nele de princípio a fim, escancarando ambos – um de cada lado da entrada – o portão verde, alto e largo que abre caminho até à última casa da quinta da imaginação.

Mas também que pode isto importar, se o tempo tudo torna irrelevante e imediatamente minguado, uma mera poeira de memória suspensa no infinito espaço sideral?” (p. 5)

Pese embora o comentário final, a ficção abre com um triplo imperativo ao leitor contrariando essa reconhecida impossibilidade de apreensão do tempo com uma espécie de epifania do mesmo:

“Olha o tempo ali à esquina, muito quieto. Fita-o bem enquanto podes, enquanto não segue, como sempre segue, de fugida.

Olha-o enquanto te é permitido, como um sedento, como um pelém esfaimado – como se, enfim, não houvesse dias vindouros –, pois visão tão explicativa da tua existência não voltarás a encontrar.

Observa-o com atenção enquanto as pupilas que dilatam to permitem, enquanto o coração que ainda te palpita no peito o concede, enquanto andas aqui na terra com o céu da boca quente, neste momento isolado que prontamente será passado.” (p. 7)

A insistência é orientadora: conduz-se o “olhar” para um fenómeno, obrigando-o a fixar-se nele e, por fim, desenvolve-se a “observação”, afinal, a ficção em que cada capítulo é encimado por uma ampulheta lembrando o seu ‘objecto’: o tempo. A fluir, como indica a crescente inclinação das ampulhetas. Minusculado, por inapreensível, embora maiusculado quando personificado como “Senhor Tempo” pouco depois, numa ocorrência pontual (p. 8).

O tempo, afinal, apenas é observável a partir dos sinais que deixa da sua passagem/voragem, porque

“Ele passa sempre numa pressa, passa, numa chispa, esguio gato bravo que quer subir a montanha toda ainda hoje /…/.” (p. 7)

“Ainda agora aqui estava e já lá vai, ainda agora aqui passou por nós e já mal o vislumbras na paisagem, fugidio e esquivo /…/.” (p. 7)

Em suma, incaptável, inobservável, inapreensível, apenas podemos ter dele os vestígios da sua passagem e especular (“…como se…”, “deve estar agora…”, etc.). É, pois, por excelência, matéria para a ficção e para a filosofia: uma concretiza pela efabulação; a outra abstratiza pela teoria.

Eis-nos no portal de uma ficção em que “o mundo onírico e o vígil se abraçam” (p. 5) entretecidos pela reflexão filosófica que evoca, em ponto de fuga, a velha dupla d’A Escola de Atenas (1509-11), de Rafael Sanzio, enciclopédico afresco da cultura ocidental com Platão (com o rosto de Leonardo da Vinci) e Aristóteles (com o rosto de Baciano/Bastianino da Sangallo) no centro geométrico protagonizando a complementaridade do materialismo/empirismo (mundo material) e do espiritualismo/idealismo (mundo das ideias), as duas coordenadas do pensamento ocidental.

E será daí que veremos desfilar as representações filosóficas do tempo, dos filósofos e das suas ideias, “[t]udo interrogações, tudo inquietações…” que vêm ter connosco por "esse caminho que o[s] traz até nós”, leitores-“observadores”:

“Tantos filósofos caminharam, sim, caminharam, para chegarem até nós com as suas teorias, com as suas sínteses e antíteses, os seus sofismas, merecedores todos do máximo respeito por tanto terem tentado entender o rolar da existência sobre o mundo.” (p. 9, itálicos meus)

“Olha ali Aristóteles, na Grécia antiga” (p. 9), e Platão, e Alexandre, o Grande, e Heraclito de Éfeso, e Parménides, e Hegel e Kant… ecoando os velhos Cantos Cíprios, os Incas de outrora, os sábios dos Himalaias ou os exploradores dos Descobrimentos…

Afonso é a personagem que acompanharemos, o narrador e eu, leitora, fraternizados pela cúmplice primeira pessoa do plural (“nós”, “nos”), silhueta banhada pelas oscilações entre luz e sombra que “transmutam” a paisagem, cuja crepuscularidade mimetiza a de composições de Dominguez Alvarez (1906-1942), do segundo modernismo português.

Nessa paisagem sombreada pela chegada da noite, vislumbra-se um grupo de “[u]ma dezena de velhas muito mirradas [a encaminharem-se] para a igreja de terços entrelaçados nos braços tombados /…/”, p. 17). Destaca-se uma, Teresa Pereira, pelo sorriso e pela interpelação: “era a jovial empregada do dentista onde em miúdo ia”, que o acarinhava e “lhe prometia ensejos de um mundo novo, /…/ de um globo terrestre composto apenas por rebuçados e por chupa-chupas” (pp. 18-19), que, recordando esse tempo, “lhe disse as inexpressivas frases que soprava de dentro para fora e que eram como um vento vazio” (p. 23).

Afonso “[q]ueria devolver-lhe os mimos que dela recebera em menino”, “todas as boas recordações da infância” (p. 24) e que a amava por “[suster] a [sua] primeira idade” (p. 25), com pais ainda, afagando-a como se fosse o último instante de ambos, como se fosse “o seu último templo de Zeus” (p. 28), entretanto coberto pelas ervas do esquecimento como os palácios dos velhos contos de fadas…

“Entristecido” e “perturbado”, Afonso inicia, no diálogo ensaiado e assimétrico, a viagem pela memória e pelo esquecimento à semelhança da que Proust fizera estimulado pela sua Madeleine. Viagem pela sua melancolia de ocidentalidade feita (Galeno, Aristóteles, Rufus de Éfeso, Albrecht Dürer, Robert Burton, Jean Starobinski, Stanley W. Jackson, etc.). Na sua reiterada pergunta “e o que era feito de… e de…?”, ecoa o coro dos lamentos (de Jeremias diante das ruínas de Ur e de tantos outros) que atravessam as eras, do mesmo modo que o coro das mulheres se substituía a Teresa Pereira na resposta repetindo a diferentes vozes, a informação “Tem Alzheimer, /…/ coitadita!” (p. 33). Uma polifonia parecendo tudo reconduzir a um Réquiem pela vida, pelo tempo, no mesmo templo onde tinha sido baptizada:

“Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua. Que descanse em paz! Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da luz perpétua. Que descanse em paz!” (p. 40)

No diálogo, Afonso afaga Teresa “com a palma da mão que formava uma concha em torno do rosto /…/ como se o moldasse com gesso, querendo perpetuá-lo” (p. 35), reproduzindo inconscientemente o gesto de Cora, filha do oleiro Butades de Sicião, esboçando numa parede o contorno da sombra projetada pelo rosto do seu amado, que partia para longe, procurando, desse modo, manter a sua presença-memória, de acordo com a narrativa de Plínio, o Velho1 sobre a génese do retrato como opus affettuoso.

Em ponto de fuga, delidas, recordamos, talvez, as representações das idades do homem, em especial, As Três Idades e a Morte (1510-29), de Hans Baldung, onde a figuração da morte segura uma ampulheta como a que se multiplica neste livro de Manuel Andrade.

Depois, Afonso deixa-se invadir pelas recordações, que afluem, em “galope do tempo” (p. 48), entre símiles como o Rei Lear ou Clint Eastwood, com a caoticidade da emoção ou as “emoções todas num turbilhão” (p. 67)… em vertiginosa corrida “num carro que o leva, mas que, ao mesmo tempo, o devolve ao passado” (p. 54), buscando o “cheiro [que] fora para sempre a marca da sua infância, o seu eterno retorno, como o de Nietzsche” (p. 51), acabando por desejar “ficar [em] paz, /…/ como um bêbado do Malhoa” (p. 67)

Por fim, o reconhecimento de que

“Afinal somos apenas a soma de nós com os instantes que nos são mais relevantes, esses que contam como aqueles que morrem connosco e com os quais, nos entretantos, nos fomos aviando num breviário da existência.

Somos apenas este pó carmesim, apenas esta poalha do existir /…/.” (p. 66)

Antes, porém, da senescência antecipada, “viu[-a] dançando”, qual Afrodite, como se fosse uma dançarina proscrita de Pina Bausch ou de Merce Cunningham”, “ao som da voz amadeirada de Leonard Cohen, /…/ entre as sílabas da sua poética” (p. 74). Inebriado, viveu a paixão com Catarina, até que a diferença etária e de preferências os foi distanciando… e Afonso foi entrando “na madrugada do sonho” (p. 109), onde passado e presente se encontram em acrónica relação, questionando-se sobre o que era real e o que era imaginado, sobre o “que unia o antes e o depois, os sonhos que existiram no Aquém e os que prevalecerão depois no Além” (p. 118)…

… até ao “Clube dos Maningas”, que queria exorcizar a morte, proclamando “Gozar com a morte, por tanto viver a vida” num carpe diem ritmado pelas “grafonolas de coleção que /…/ toca[vam] de Piazzola a Pavarotti, ou mesmo Callas” (p. 137), intimamente cientes do insucesso da tentativa de enganar “a Grande Senhora Dona Morte, essa Digníssima e Excelentíssima Curta!” (p. 137)…

… ou até ao mar da Póvoa e ao concerto de Pedro Barroso, que se despede a solo, “[c]omo numa confissão e quase em jeito de sussurro”, “quase transe” (p. 180).

Depois, um quiçá AVC parece fundir os tempos, a experiência do avô desaparecido e a sua, confundindo tudo o mais: Aristóteles e Plotino com os médicos do hospital, num debate sobre a essência do tempo e da existência a que se juntam Kant, Bergson, Husserl e Heidegger, de novo, Platão e Aristóteles… interrompidos pelo chamamento do anestesista e pelas luzes brancas da sala da cirurgia.

Dominado pela beleza do momento, quer despedir-se de todos os que lhe habitaram a vida até que entrou na dança da morte, esse desfile que a Idade Média designou como Dança Macabra (em alemão, Totentanz) e que invadiu as Artes e as Letras2, carnavalização da vida, mas também seu julgamento final: “em cima de um carro alegórico e em pleno desfile de um Carnaval de despedida”, observa todos os que com ele conviveram e sente que “[o] cortejo [se vai] afastando das gentes que assistem aplaudindo” (p. 216), agradecendo, comovido.

Num último gesto de homenagem, o “Clube dos Maningas dedic[a]-lhe o poema iniciático do “*Cântico Negro*”, enquanto brindam com um Porto” (p. 216), ouvindo as músicas habituais das grafonolas num ciclo que termina com Callas a cantar “*O Mio Bambino Caro*”, numa despedida comovente que o faz chorar “como um bambino”…

E é então que a essência da vida se lhe revela quase epifanicamente: quando “já o cortejo o leva para longe de toda esta beleza em despedida, para longe de todo o certo que conhece e que agora percebe o quanto foi belo e sempre o acompanhou.” (p. 217).

E seremos nós, leitores, que, seguindo nessa longa e absorvente hipotipose, passamos a assistir ao desfile carnavalesco, actualização da macabra dança medieval, carro a carro, alegoria a alegoria, “num mar de gente animada e em romaria” (p. 221): o de Afonso, rei, com a mente “pelas festas populares de outrora” (p. 221), o dos seus antepassados, com os pais e os avós, o alusivo a Mário Soares e a José Mourinho, mas, também, a todas as suas desventuras, recordações da decadência, o das mulheres que tivera…

... à frente, afinal, “o mais deslumbrante carro alegórico de todos, radioso /…/ até à espampanância” (p. 229), vai o “carro do tempo, é o que é, o carro alegórico do saber acerca dele”, “[d]as palavras da experiência, mas também [d]as do saber académico” (p. 229), a começar com as das Confissões de Sto. Agostinho e passando, depois, pelas das redes sociais e pelas de Agostinho da Silva, numa feérica confusão de tempos e de modalidades de comunicação que instauram a “aldeia global” onde todas as épocas se mesclam e todos os protagonistas e figurantes se encontram.

E tudo se torna irrelevante “perante o livro magnífico que soube traçar com o giz redondo do seu compasso, esse tal que soube desenhar como se a sua existência fosse uma circunferência gigante traçada no arco maior da biblioteca nacional” (p. 246): este, O tempo entre os nossos dedos.

O que explica, enfim, “que a prosa de cada vida deve ser lida desde a primeira até à última página, de fio a pavio, embora [Afonso] não tenha qualquer dúvida de que ela será sempre mais bem entendida da frente para trás, quando a leitura tiver terminado e o tempo tiver completado toda a escrita do seu ciclo.” (p. 246). Tudo isso insinuando a esta efabulação a dimensão de um Vado Mori (Preparo-me para morrer) actualizando essa tradição poética medieval.

Na última linha, a ampulheta que se fora inclinando progressivamente nas aberturas dos capítulos está deitada (), deixando de assinalar a passagem do tempo: oferece-se como símbolo da eternidade e do infinito onde ainda não podemos penetrar… deixando-nos o enigma da areia verticalmente disposta em cada um dos balões que a constituem.

Referências

Referência mencionada no título: Manuel Andrade, "O tempo entre os nossos dedos", Sto. Tirso, Idioteque, 2024. Por comodidade, as citações são localizadas no corpo do texto.
1 Na sua História Natural (capítulo 12 do livro XXXV, pp. 77-79). Cf.
2 Um dos mais marcantes e fundadores exemplos de uma Dança Macabra ou da Morte foi o hoje desaparecido afresco pintado no Cemitério dos Santos Inocentes (Paris, 1424), com versos em legenda, mas muitos outros se lhe seguiram: em Londres (c. 1430), Basileia (um de c. 1440 e outro de c. 1480), La Chaise-Dieu (c. 1460-70) e Lübeck (1463), para lembrar os mais destacados. Mas o tema foi obsessivamente tratado nas diversas modalidades artísticas e literárias até à modernidade: p. ex., Charles Baudelaire dedicou-lhe um poema ("La Danse Macabre"), Frank Liszt, uma suíte (Totentanz, 1849), Camille Saint-Saëns, um poema sinfónico (La Danse Macabre, 1886), etc.