O clássico de Elisabeth Kübler-Ross, publicado pela primeira vez há mais de 50 anos, faz-nos refletir sobre o enfrentamento do fim. A autora, médica psiquiatra, dedicou-se aos estudos da morte iminente e como ela comove e impacta o próprio paciente terminal, a família e as pessoas à volta.
No livro Sobre a morte e morrer, Kübler-Ross indica que a morte continua a ser um acontecimento temível e vista como um tabu. É como um medo universal. Falar sobre ela torna-se algo sombrio, pois a sociedade deixou de enfrentar a morte calmamente, e hoje ela pode ser até mesmo “mais solitária, mecânica e desumanizada”.
A autora fez entrevistas com mais de 200 doentes terminais e algumas pessoas das respectivas famílias para tentar aprender com essas pessoas sobre as atitudes perante a morte e o processo que a ela conduz. Os doentes tinham necessidade de falar. Sentiam falta de uma escuta atenta. Tudo aconteceu de acordo com os pacientes, ou seja, quando eles se sentiram prontos para conversar e falar dos seus sentimentos e preocupações perante a situação em que se encontravam. Os familiares próximos, muito afetados, também precisavam desse acolhimento de escuta atenta e sem julgamentos.
Nestas entrevistas, a médica psiquiatra mapeou as cinco fases pelas quais os pacientes passam, como um luto das perdas importantes que se aproximam. A primeira delas é a negação e isolamento. Depois do choque de saber sobre o estado de saúde irreversível, a defesa da negação é a forma mais comum de lidar com essa situação desconfortável e, muitas vezes, dramática. A segunda fase é a ira; a questão que emerge é “por que eu?” Nessa fase, o paciente descarrega a ira em quem está próximo, quando ainda há falta de compreensão dos dois lados. A terceira fase é a negociação, uma fase que pode ser curta, onde o paciente tenta ganhar um prêmio, geralmente mais tempo de vida, por bom comportamento. Ele quer “negociar” com Deus ou com a medicina. É a fase das promessas de uma vida dedicada à igreja ou à caridade, se conseguir a cura, por exemplo. A quarta fase é a depressão, quando o paciente não consegue mais negar e sente que está prestes a perder todas as pessoas que ama.
Ao paciente nessa fase, deve ser permitido expressar suas mágoas e angústias para que ele alcance mais facilmente a quinta etapa, a aceitação final. A autora diz que nessa fase, o paciente “não estará nem deprimido e nem zangado com o seu destino”, principalmente se ele teve oportunidade de expressar seus sentimentos anteriores. E contemplar o fim, de certa forma, serenamente, onde o paciente encontrou alguma paz e aceitação, pode se dar melhor com a comunicação não-verbal, de acordo com a experiência de Elisabeth a acompanhar os pacientes no hospital.
É uma “tarefa monumental” atingir a etapa da aceitação, pois essa conduz a decathexis – a separação gradual do intelecto, das emoções, do corpo. É uma entrega total ao desapego.
A autora compreende que o doente terminal, ao alcançar a fase da aceitação – já enfraquecido e mais cansado na maioria dos casos –, diminui seus interesses, deseja ficar mais sozinho ou sem muito conhecimento de problemas do mundo exterior e prefere o silêncio. As visitas podem não ser desejadas e não há disposição para conversar. É o silêncio que transcende as palavras, na voz da autora.
De acordo com a psicanálise, a primeira infância é uma época de narcisismo primário em que o eu é tudo o que existe. Elisabeth Kübler-Ross entende que talvez no fim dos nossos dias, depois da nossa caminhada, regressemos à fase em que começamos e o ciclo da vida se encerre.
“A observação da morte serena de um ser humano lembra-nos uma estrela cadente; uma de entre milhões de luzes na vastidão do céu que brilha durante um breve momento para desaparecer para sempre na noite interminável.”
Com este estudo, entendi que a esperança é tornar-nos mais humanos. Enfrentar e compreender o fim é saudável para nos relacionarmos de forma mais presente conosco e com as pessoas à nossa volta. E enquanto há luz, há caminho.
Pude concluir que terapia é importante em toda a vida, principalmente para as pessoas que foram condicionadas a negar as emoções e a não expressar seus sentimentos. A disposição para olharmos para nós mesmos num processo terapêutico leva-nos ao crescimento e maturidade, o que faz toda a diferença nas nossas relações com os outros e com a vida, incluindo a finitude do seu tempo.
O livro Sobre a morte e morrer tem citações das obras Pássaros perdidos, Gitanjali e O fugitivo, de Tagore; o que torna a obra sensível e original. As últimas palavras do livro traduzem a grandeza do mistério:
“Cintilante é a água numa bacia; escura é a água no oceano. A pequena verdade tem palavras claras; a grande verdade tem um grande silêncio.” Tagore, in Pássaros perdidos, CLXXVI.















