Embora popularmente muitas pessoas utilizem as palavras linguagem, língua e fala para designar uma mesma realidade. Esses conceitos, porém, não devem ser confundidos, já que revelam aspectos diferentes de um processo amplo, que é o da comunicação humana.
Não é tarefa fácil definir o que é linguagem. Julia Kristeva, em seu livro História da linguagem, afirma que cada época ou cada civilização, em conformidade com o conjunto de seu saber, de suas crenças, de sua ideologia, tem um conceito diferente de linguagem e propõe que, em vez de se tentar responder à pergunta “O que é a linguagem?”, a substituamos por outra: “Como a linguagem pôde ser pensada?”.
Convém observar ainda que o termo linguagem recobre fenômenos bastante diversos. Ao lado de uma capacidade humana, o termo aparece em expressões como linguagem dos animais, linguagem dos computadores, linguagem corporal, linguagem cinematográfica, entre outras.
A linguagem já foi pensada como expressão do pensamento. Essa concepção aparece na obra Lógica ou arte de pensar, texto do século XVII de Arnaud e Lancelot. Para esses autores, “as palavras são sons distintos e articulados de que os homens fizeram sinais para o que se passa em seu espírito”.
A linguagem também já foi pensada como instrumento de comunicação. Por essa concepção, a língua é concebida como um código por meio do qual se estabelece a comunicação entre um emissor (aquele que codifica) e um receptor (aquele que decodifica).
Tal concepção foi bastante difundida entre nós. O conhecido esquema da comunicação com seus seis elementos (emissor, receptor, mensagem, código, contexto e canal) e as funções da linguagem, cada uma correspondendo a um desses seis elementos (emotiva, conativa, poética, metalinguística, referencial e fática), propostos pelo linguista russo Roman Jakobson, no texto Linguística e poética, durante muito tempo serviu de fundamento para o ensino de língua materna e esteve presente em muitos livros didáticos de Língua Portuguesa.
O esquema da comunicação de Jakobson foi alvo de muitas críticas, muitas delas injustas. Uma das principais críticas residia no fato de que não bastaria que emissor e receptor partilhassem de um mesmo código para que houvesse comunicação. Seria preciso também que eles pertencessem a meios culturais semelhantes e possuíssem conhecimentos pelo menos parcialmente comuns.
Os críticos do esquema de Jakobson assinalam também que o código linguístico não é homogêneo: os falantes não falam exatamente a mesma língua, assim como não têm a mesma competência linguística, o que é verdade.
Outra crítica repousa no fato de ser um esquema bastante redutor, já que a língua não pode ser definida apenas como um código, o que também é verdade. Um outro dado relevante que Jakobson não considerou em seu esquema é o papel intercambiável dos parceiros na situação comunicativa, pois todo emissor é simultaneamente seu próprio receptor e todo receptor é um emissor em potencial. Estudos linguísticos e filosóficos vão enfatizar o caráter dialógico da linguagem humana. Aquele que se apropria da língua (o sujeito falante), no ato da apropriação, constitui um interlocutor (um tu/você a quem se dirige), que, quando toma a palavra, passa a ser o eu, e aquele que no instante anterior era eu passa a ser tu/você, como bem mostra a conversação, na qual os interlocutores estão o tempo todo se alternando nos papéis de emissor e receptor.
Posteriormente, a linguagem passa a ser pensada como forma ou processo de interação entre sujeitos. Por essa concepção, os falantes não utilizam a língua apenas para exteriorizar seu pensamento ou estabelecer comunicação, mas a usam para realizar ações, para atuar sobre o outro, ou seja, é pela linguagem que interagimos com os outros e produzimos sentido numa dada esfera social, histórica e ideológica. Os falantes são sujeitos histórica e ideologicamente constituídos que ocupam lugares sociais. Na medida em que a linguagem é forma de interação entre sujeitos, o que a caracteriza é o diálogo em sentido amplo. Valentin N. Volóchinov, na obra Marxismo e filosofia da linguagem, ressalta que:
[...] para observar o fenômeno da linguagem, é preciso situar os sujeitos – emissor e receptor do som –, bem como o próprio som, no meio social. Com efeito, é indispensável que o locutor e o ouvinte pertençam à mesma comunidade linguística, a uma sociedade claramente organizada. E mais, é indispensável que estes dois indivíduos estejam integrados na unicidade da situação social imediata, quer dizer, que tenham relação de pessoa para pessoa sobre um terreno bem definido.
Essa concepção está presente em diversas correntes dos estudos da linguagem, tais como a semiótica discursiva, a linguística textual, a análise do discurso, a análise da conversação e a semântica argumentativa, assim como nos estudos ligados à pragmática. Não cabe, nos limites deste artigo, explorar cada uma dessas correntes teóricas. Mas chamamos a atenção para o fato de que cada uma delas enfatiza algum aspecto da interação linguística.
A semântica argumentativa, por exemplo, ressalta que utilizamos a língua com fins argumentativos, isto é, usamos a língua não para falar do mundo, mas para convencer nosso interlocutor. A pragmática, que trata dos usos que os falantes fazem da língua, bem como das intenções que eles pretendem alcançar: convencer, intimidar, assustar, enganar, ironizar etc., nos mostra que o homem não utiliza a língua só para dizer coisas, mas também para fazer coisas, ou seja, a pragmática chama a atenção para o caráter performativo da linguagem humana. Quando, por exemplo, um juiz diz “Eu te condeno a 15 anos de reclusão”, não está apenas dizendo que condena; ele está de fato condenando o réu a 15 anos de reclusão.
Nos limites deste artigo, daremos o nome de linguagem a todo sistema de sinais convencionais pelos quais sujeitos interagem com os outros. Existem inúmeras linguagens: a linguagem dos sinais de trânsito, a linguagem das bandeiras em corridas de automóveis, a linguagem corporal, a língua que falamos em nossos atos de comunicação cotidianos etc.
De acordo com o sistema de sinais que utiliza, a linguagem é classificada em:
a) verbal: aquela cujos sinais utilizados para atos de comunicação são as palavras. A palavra verbal provém do latim verbale, que, por sua vez, provém de verbu, que significa palavra. Como exemplos de linguagem verbal, podemos citar as línguas naturais: português, inglês, espanhol, francês, japonês, árabe etc.
b) não verbal: quando tem por base qualquer outro tipo de sinal, como cores, gestos, desenhos, sinais sonoros etc. Os sinais utilizados para comunicação por pessoas que não têm ou perderam a capacidade da fala são um exemplo de linguagem não verbal. Da mesma forma, o conjunto dos sinais de trânsito utilizados para orientar os motoristas e os diversos sinais com os quais tomamos contato no nosso dia a dia, como aqueles que indicam acesso a deficientes, banheiro masculino e feminino, proibido fumar, proibido o uso de celular, constituem um tipo de linguagem não verbal.
É frequente que se faça o uso desses dois tipos de linguagem num mesmo texto. Como exemplo, podemos citar textos enviados pela internet em que haja palavras (linguagem verbal) acompanhadas de emoticons (linguagem não verbal); placas com desenhos acompanhados de palavras; um gráfico com legendas etc. A esse tipo de linguagem, damos o nome de linguagem sincrética ou ainda multissemiótica.















