O saber do povo sempre está em pauta. Entre ações, vontades e fé, o povo se mobiliza para driblar o sistema diante das peripécias do poder. Nesse sentido, o pedagogo Paulo Freire, relata que não basta só ter consciência, é necessário agir. No mesmo viés, o escritor mexicano Gabriel García Marquez, afirma, que o maior feitíço que existe no mundo é a vontade. Daí, temos, ação e vontade, elementos que não podem faltar no trabalho com o povo. Para tanto, reflexão e ação, revelam o cunho político no enfrentamento dos agentes externos e internos que trabalham com o povo.
Toda essa dimensão, ressalta que o povo é juiz de seus próprios interesses, que vão desde moradia, segurança, educação, saúde, salário, entre outras reivindicações. Então, o agente trabalhador do povo deve contribuir com autolibertação do povo com o compromisso de estabelecer laço orgânico como inserção indispensável, para compreender o cotidiano nas periferias das grandes metrópoles, por exemplo. O agente trabalhador do povo é ao mesmo tempo um extensionista e um comunicador. Ele deve conhecer as condições vivas do povo, ter acesso às reações do povo e principalmente compreender o sentido do popular.
Também, é bom ter em mente - O discurso sobre a servidão voluntária, o livro de Étienne de La Boétie e ao mesmo tempo as teorias de Karl Marx, onde a economia é o motor da história. Conhecer a comunidade e seu território, favorecem o agente trabalhador do povo na construção social, na potencialização das próprias atitudes do povo, em benefício de sua comunidade. Respeito e sábias intervenções, colaboram no desenrolar das tarefas do agente trabalhador do povo.
O agente trabalhador do povo pode ser jornalista, antropóloga(o), socióloga(o), padre, freira, historiadora(or), assistente social, pedagoga(o), educadora(or) social, entre outros que atuam na área de humanas e tem como prioridade o amor ao povo. Pois, sem amor ao povo, segundo Clodovis Boff, não é possível um trabalho libertador. (Boff, 1988, p. 40) "Sem amor ao povo, sem simpatia e bem-querer para com as pessoas do povo, não é possível um trabalho libertador. Para isso, importa um contato vivo com o povo. Só a partir daí pode se estabelecer com ele uma ‘conexão sentimental’ (Gramsci) que seja fecunda." (Boff, 1988, p. 40)
Mas, o que seria o povo? Para Clodovis Boff o povo é um “conteúdo concreto de conjunto de pessoas". É o pessoal, a gente, a comunidade. Não é um conjunto de entidades abstratas e anônimas, que, naturalmente, seria impossível amar.” (Boff, 1988, p. 40).1
Há de se considerar, vários conceitos de povo que interpretam suas ações e vontades. Temos a compreensão marxista, de povo oprimido; o de soberania popular que apareceu na Idade Média; o de Jean-Jacques Rousseau onde ele fala da capacidade de ação coletiva que permite definir o povo. Outros conceitos são: o povo na constituição; a ideia de cidadão do Estado diante da democracia, liberdade e justiça; o povo de Deus pela teoria da libertação; a igreja do povo; povos indígenas; o povo como base sociocultural; como também existe atualmente, o conceito de povo pelos argumentos de Bauman, caracterizado pela fluidez, focado no consumo na era digital.
“De modo que o pertencimento ao ‘povo’ é uma realidade ética e histórica que pede atitudes morais, escala de valores e estruturas que correspondam a elas” (Scannone, 2015, p. 250-251)2. Ou seja, pensar no povo, é pensar nas culturas populares, nos costumes, nos direitos humanos, nos movimentos sociais e nas lutas de classes. Nesse sentido, cabe ressaltar que a tradição e a modernidade caminham juntas para evidenciar a construção social de seus territórios.
Vale salientar que as veias econômicas de dominação atravessaram e atravessam as culturas populares. Tornando indissociáveis o massivo do popular. Segundo Bauman, buscamos salientar o processo de globalização pela comunicação na produção de significados extraterritoriais.
Assim, sabemos que a pastoral popular, a CEBs - Comunidades Eclesiais de Bases3 contribuíram e contribuem no diálogo entre o agente trabalhador do povo e as comunidades, para facilitar ações práticas dos atos políticos, em benefício do bem comum de todos.
Trata-se então, que o agente trabalhador do povo deve vivenciar suas práticas e experiências a partir da compreensão das culturas populares nas comunidades. E, também, como se evidencia a participação popular e suas técnicas na era digital.
Antes da era digital tínhamos como metodologias: o diálogo, a participação, a comunidade, entre o ver, o julgar e o agir, que são pautados na realidade e nos problemas de lutas do povo por uma percepção crítica, e de uma grau de consciência, inseridos nos movimentos sociais.
Não que hoje seja diferente, mas, com o mundo das redes sociais, a visibilidade desses movimentos trouxeram à tona a não separação entre costumes e direitos humanos. Onde também ocorre que o massivo e o popular se condensam com a incorporação da globalização no processo de hibridização, e que por sua vez, o povo se mobiliza por propostas fragmentadas de suas necessidades.
Hoje há fome e também existe a fome de justiça pelos reconhecimentos das mulheres, pela escala 6 x 01, pelos benefícios dos enfermos, pelas doenças neurodivergentes, pelos direitos humanos e por diversos problemas onde a velocidade dos algoritmos permitem um novo olhar de como trabalhar com o povo. Todavia, devemos ficar atentos na construção de relatos que permeiam nossas realidades. Os relatos culturais podem ser transformados em fake news e isso pode causar fragmentos no trabalho do agente do povo.
Antes do aparecimento do wi-fi, poderíamos perguntar por exemplo, conte-me algo que você viu no jornal e que chamou sua atenção? Hoje, os relatos são transformados em memes, em dancinhas para o aplicativo do tik tok, em postagens sobre filmes no Instagran, em podcast, em notícias ninja, e em relatos de fake news regados pela folkcomunicação.
Novas articulações surgiram a partir das redes sociais. Para tanto, o agente trabalhador do povo não pode se acomodar em apenas um propósito. Mesmo porque a globalização, altera a mutabilidade do processo econômico.
Trabalhar com o povo na era digital requer uma leitura entre participações, interesses, ato político e redes sociais. Nesse sentido, Canclini afirma em seu livro - As Culturas Populares no Capitalismo o cuidado com as características fundamentais para entender essas culturas, que são: estão interessadas em projetos a curto prazo, em suprir suas necessidades imediatas e demonstram muitas vezes resistência ao novo, ao desconhecido.
As culturas populares são feitas pelo povo em comunidade. E, é na comunidade que um ensina ao outro, um é o professor do outro, como afirma Clodovis Boff. A comunidade é um lugar sagrado, é o coletivo aconchegante, como diz Bauman.
Nesse campo, tudo se configura, formam-se laços, estreitam relações, e o parentesco se moldam aos amigos que trabalham na luta pelo povo. São elos de proteção que vão se configurando para construção social local.
Digamos, que as técnicas do trabalho popular é produzir autonomia aos interessados. Os recursos na era digital são baseados nas redes sociais, na velocidade dos algoritmos e para tanto, são impulsionadores de denúncias, engajamentos, protestos, marchas, reuniões, mutirões, visitas, celebrações, caminhadas, concentrações e encontros.
Os mecanismos que envolvem as ações diretas de uma comunidade passam pelas redes sociais, e são elas, as novas articulações das culturas populares.
Movimentos, como busca por moradia, busca por auxílios a uma determinada doença, relatos de importunação sexual, feminicídio, entre outros são vistos primeiro nas redes sociais.
Assim, como desfiles de agremiações carnavalescas, ou manifestações populares são exibidas simultaneamente pela internet. Hannah Arendt afirma que “Não há dois mundos pois a metáfora os une”.
O agente popular ou o agente do povo deve compreender que as mobilizações do povo são feitas pela fé. A vida social nas comunidades são movidas pela fé.
Pois, onde tem muitas festas, tem muito do sagrado, e onde tem o sagrado, tem uma riqueza do imaginário. Em todo lugar que tem festa, tem o povo organizando seus interesses.
O agente popular na era digital deve ser conhecedor dessa dimensão existente nas culturas populares. Buscar no ato político a fé é compreender que cada mobilização é transformadora.
Cada passo dado é conquista. Nesse sentido, vale destacar que o agente popular não é um advogado, é um pacificador, está mais para um orientador, uma espécie de guru, alguém de tamanha confiança que está disposto a ajudar em todas as esferas.
O agente do povo será composto de muitas faces, ou seja, terá que ter versatilidade para saber lidar com a comunidade e com os poderosos.
Por isso, não confunda, agente do povo, com agente de saúde, não que o agente de saúde não seja popular, mas, está restrito a um segmento.
Hoje em dia, muitos agentes do povo passaram a ser produtores culturais. Alguns ainda permanecem em sua função, como o Padre Júlio Lancellotti em São Paulo, a Irmã Aurieta Xenofonte criadora do Centro Educacional Turma do Flau de Brasília Teimosa, Recife-PE, entre outros, que fazem um belíssimo trabalho junto a CEBs na melhoria das periferias.
O educador social também faz o papel de agente do povo. Como Fábio André, do Galpão das Artes, de Limoeiro, em Pernambuco, que faz um trabalho de educação patrimonial, de artes, de teatro, de cidadania no município a partir de políticas culturais.
O agente do povo traz em sua bagagem, a vontade de transformar o local pelos interesses do povo. Somam forças combinadas com o mundo digital e fazem uma leitura da realidade com o futuro.
Eles são importantes e necessários nas comunidades, sendo eles de outras ou comunidades ou das mesmas. Porque, como dizia Leonardo da Vinci, “todo nosso conhecimento decorre de nossa sensibilidade.”
No Recife, eu descobri o que era o mundo!
(Clarice Lispector)
Notas
1 Boff, Clodovis. Como Trabalhar com o povo. ed. 8º Ed. Vozes, Petrópolis, RJ, 1988.
2 O conceito de “povo” no contexto da interculturalidade e da heterogeneidade social.
3 CEBs do Brasil.















