Se você não tem uma história com algum livro, certamente um dia terá. Seja por ter ganhado de presente, por ter dado a alguém, por ter comprado como objeto de decoração para a casa, ou até nos casos que viram romance de loucos apaixonados… daqueles que não se largam, do tipo que, para onde quer que vá, leva o seu parceiro, não importando se for físico ou ebook.

Outro dia, em uma palestra sobre o livro-objeto — volto, em outra oportunidade, para falar somente sobre isso —, fiquei pensando sobre o surgimento do livro mesmo com o palestrante dando uma breve iniciação sobre o assunto. O fato é que, assim que surgiu a escrita, surgiu a necessidade de se fazer um registro; portanto, a história do livro começa justamente aí.

Assim como tudo o que conhecemos, o livro é fruto de uma evolução. Ele acompanhou os avanços tecnológicos de acordo com a época, moldando-se às necessidades do tempo.

No começo, placas de argila, cascas de árvores, pedra, madeira, barro e folhas de palmeiras eram usados como materiais. Os povos babilônicos, egípcios, gregos, sumérios, entre outras sociedades, usavam-nos com o intuito de fazer registros comerciais, leis, mitos, fábulas e poesias. O processo consistia em moldar a argila úmida no formato de placas e escrever nelas com um objeto pontiagudo (palito ou osso) para depois deixar secar ao sol ou cozinhar em um forno para uma maior durabilidade. Eram duráveis, porém pesadíssimas e, no caso da necessidade de um transporte, poderiam quebrar.

Com o passar do tempo, o papiro, cuja matéria-prima é feita da medula do caule da planta de mesmo nome, que cresce às margens do Nilo, ganhou espaço (mesmo as placas sendo amplamente utilizadas enquanto o papiro conquistava o seu espaço). Este é considerado um dos antigos suportes para a escrita.

Na época do papiro, no Egito antigo, os escrivães eram os guardiães responsáveis por manusear os escritos; ou seja, essas pessoas designadas podiam fazer a leitura e a produção de textos nesse material. Os registros em papiros formavam rolos enormes e pesados, pois as folhas eram unidas umas às outras.

Para se produzir um escrito em papiro, era necessário colher a planta, cortá-la em tiras e, em seguida, organizá-las em duas camadas transversais. Depois de prensadas e secas ao sol, deveriam ser polidas para formar folhas para poderem ser unidas em rolos. O papiro foi fundamental para a administração egípcia, registros históricos e textos religiosos. E, claro, além da escrita, a planta era usada como fonte para construção de barcos e utensílios, como esteiras, sandálias e cestos, devido à sua resistência. Atualmente, a planta voltou a ser cultivada como forma de atração turística e indústria artesanal.

Diante da necessidade de melhorar o volume e a durabilidade dos registros, surgiram os pergaminhos, muito utilizados pelos monges copistas da Idade Média, religiosos responsáveis por transcrever manualmente os manuscritos. Os pergaminhos eram um material feito de pele de animal tratada (carneiro, cabra, ovelha). Foram o principal meio físico de registro da escrita na época da invenção da imprensa de Gutenberg.

Vale ressaltar que, na Idade Média, a produção textual era voltada somente para textos com fins religiosos e uma parcela pequena da sociedade sabia ler. Textos com temas que envolviam história, astronomia, literatura e filosofia ficavam mantidos em um local secreto a um público mais restrito ainda. Com o surgimento da burguesia e o declínio do sistema feudal, somados à Reforma Protestante na Europa, a Igreja foi perdendo sua força e abrindo um espaço antes inexistente para outras formas de expressão existirem.

Isso fomentou a elaboração de alguns métodos novos, como a prensa de tipos móveis desenvolvida na China por Pi Sheng e, posteriormente, a prensa aperfeiçoada pelo alemão Johannes Gutenberg (1398-1468). E é então, durante a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, que esse método surge, por volta do século XV.

Como principais elementos, o método de Gutenberg possuía tipos móveis metálicos, ou seja, moldes para fundir letras idênticas, usando um tipo de liga de chumbo, permitindo a montagem e desmontagem de páginas. Dispunha de uma prensa de parafuso, adaptada de prensas de vinho, pois esse mecanismo aplica uma pressão uniforme sobre o papel e, com isso, garante alta qualidade. Ele também desenvolveu uma tinta espessa, ideal para fixar o metal.

Gutenberg produz um primeiro livro, com aproximadamente 180 exemplares, e o batiza de “Bíblia de Gutenberg”, por volta de 1450-1455. Esse novo sistema de impressão é capaz de ampliar o acesso aos livros para o restante da população.

O livro no Brasil

O livro chega ao Brasil no período colonial, trazido pelos portugueses, principalmente pelos jesuítas, grupo que catequizou os indígenas e que introduziu a educação formal no país. No século XX, o escritor Monteiro Lobato teve papel importante na disseminação dos livros em território brasileiro, que, segundo ele, “Um país é formado por homens e livros.”.

Pessoalmente, eu prefiro a citação de Antônio Cândido, sociólogo e crítico literário: “Negar a fruição da literatura é mutilar a nossa humanidade.”, pois ele defendia que a leitura e a literatura são um direito humano fundamental e uma necessidade universal de humanização. Cândido dizia que a literatura não deveria ser vista como artigo de luxo.

E talvez seja justamente por isso que o livro, em todas as suas formas, continue sendo tão relevante.

E por falar em formas...

Há muitas questões para se debater em torno do tema livro; sempre haverá. Penso que ainda bem… Normalmente temos resistência com o novo e com tudo aquilo que propõe alterar a ordem do que estamos acostumados. Um exemplo é o eterno debate entre livro físico e o ebook, mas o que não podemos esquecer é que, por mais que lutemos por um conhecimento democrático e que a literatura alcance cada vez mais um espaço notável, o mundo é digital e a materialidade do objeto livro necessita ser atraente para lutar contra o mundo hiperconectado que briga pela nossa atenção. O tipo de papel para uma leitura confortável, as edições incríveis, as ilustrações magníficas, entre outros detalhes, acaba sendo muito bem pensado pelo mercado editorial, para que esse item tão lindo na estante possa ser mais cativante que um vídeo de trinta segundos na palma da nossa mão.