A complexa emergência do Uruguai tornou-o, per se, mais que peculiar, especial. Produto de desígnios ibéricos, assentado em tratados europeus e forjado por interesses mundiais, esse belo país da América do Sul nasceu e se afirmou abraçado às venturas, imediatas e pretéritas, do Brasil, da Argentina e do Paraguai. Fazendo-se notar. Distinguindo-se. Trazendo na memória e na retina as lembranças de Sacramento à Província Cisplatina às tentações da Conferência Argentina às personalidades de Juan Manuel Rosas e Manuel Oribe à tenência de Paulino José Soares de Souza e Honório Hermeto Carneiro Leão ao martírio da Guerra do Paraguai. Permitindo-se, com isso, ser singular, diferente. Ingressando no século XX completamente ereto. Com indicadores econômicos consequentes. Sem – ou com muito poucas – tensões sociais. Um país de avant-garde. Com sistemas de educação de alta qualidade disponíveis a todos. Igualizado em oportunidades e avançado em costumes. Que adotou o divórcio em 1903, o aborto nos anos de 1920 e o voto feminino logo em seguida. Soprando e sorvendo bons ventos do mundo inteiro e internalizando, à sua maneira, tudo que o mundo tinha de bom a oferecer. Como a cultura da França, a economia do Reino Unido e a política dos Estados Unidos. O que, no conjunto, possibilitou-lhe passar aquele século alheio às intempéries das guerras totais.
Aliás, foi durante as guerras totais que a sua balança comercial afirmou-se mais pujante. Gerando excedentes financeiros e econômicos rapidamente traduzidos em distribuição de renda e benfeitorias sociais. Confirmando o Uruguai como modelo de alta performance. Que começou a declinar depois. Depois das guerras, depois de 1945.
Quando os Estados Unidos finalmente reabilitaram-se do choque de 1929 e a Europa começou a se reerguer dos esforços de guerra, por volta de 1950-1955, a economia uruguaia avançou para a entropia e caiu em colapso. Impondo à sociedade experiências inéditas de desigualdade, conturbação social e política. Jogando o país na vala comum das realidades confusas de seus vizinhos. Países dignos, mas que jamais se furtaram a recorrer à força para esmagar divergências e convulsões sociais.
A partir de 1950, o Uruguai estava assim. Igualzinho aos demais. Fazendo emergir, pela primeira vez, clivagens verdadeiramente irreconciliáveis. Todas abraçadas aos ecos de Berlim, da Guerra Fria e da tensão Leste-Oeste. Trazendo à superfície as apropriações latino-americanas dos preceitos daquele outubro russo de 1917. Ao mesmo tempo, novas convicções sobre a guerra da Coreia. Até chegar à aventura de Sierra Maestra, que causou, de fato, a mudança de turnos de seus corações.
Quando os irmãos Castro e Ernesto Che Guevara ostracizaram o ditador Fulgêncio Batista naquele janeiro de 1959, a coalizão dos contrários tomou conta do Uruguai. De um lado, uma esperança incomum invadiu os desclassificados sociais. Por outro lado, os abastados e estabelecidos manifestavam ojeriza por todas aquelas notícias de Havana. Notícias que para eles não passavam de perigosa contravenção.
Essa tensão criou de súbito um ambiente de oposição irreconciliável no país. Uma situação-limite que ficaria ainda mais evidente quando da passagem de Ernesto Che Guevara pela capital, quando foi à Universidad de la República – UDELAR, em 1961.
Foi um dia de júbilo para muitos. Caiu no 17 de agosto de 1961. O expoente da revolução cubana vinha a Montevidéu como paraninfo dos formandos – entre os quais, um chileno de nome Salvador Allende – antes de seguir para a reunião da Organização dos Estados Americanos, OEA, em Punta del Este, onde encontrar-se-ia com o governador do Rio Grande do Sul, Leonel de Moura Brizola, para harmonizar as suas convicções revolucionárias, a sua demarcação à esquerda e o seu repúdio ao imperialismo norte-americano. As mesmas convicções, demarcação e repúdio que ele apresentaria aos universitários uruguaios naquela ocasião. Mal sabendo que Cuba seria suprimida da OEA logo em seguida.
De toda sorte, a sua manifestação foi uma fala costumeira. Ao estilo do novo regime de Havana. Mas, por estar em Montevidéu, fez questão de ressaltar as peculiaridades positivas daquela sociedade uruguaia; sociedade que ele conhecia tão bem. Peculiaridades positivas que não eximiam o Uruguai de estar em queda francamente livre e acelerando a marcha para a condição de banana republic.
Com clareza de supostos e luminosa presença, como em muitas partes, Ernesto Che Guevara dominou o ambiente. Fazendo o momento inesquecível. Levando o auditório ao êxtase. Impondo àquela juventude – e também muitos crescidos – a acreditar na máxima do tudo é possível. Mesmo que uma revolução seja requerida. O que, nitidamente em suas palavras, ainda não era o caso concreto no Uruguai. Mas era o caso de vigiar. Pois poderia chegar o bom momento. Momento onde o modelo de Havana poderia servir de inspiração. Uma inspiração, claramente, não partilhada por quem estava fora daquele auditório. Que, tão logo informados do conteúdo da conferência do líder cubano, passaram a contestá-lo, difamá-lo e hostilizá-lo. E, se isso não bastasse, também tentaram eliminá-lo fisicamente.
Sim: na saída da universidade, Guevara foi vítima de um atentado.
Certo: não deu certo. Mas o recado estava dado. Restando aos bons e aos maus entendedores levar tudo aquilo a sério e, enfim, entender. Guerra é guerra. E, doravante, a guerra entre os uruguaios estava mais que lançada.
Bem antes desse incidente, em 1957, o advogado Raúl Sendic já tinha iniciado a mobilização das esquerdas no país. Primeiro com a organização do Partido Socialista. Em seguida, com a conjugação dos movimentos à esquerda – Movimento de Apoio Camponês, Movimento de Esquerda Revolucionário e Federação Anarquista do Uruguai. Adiante, com a ampliação da instrução e conscientização à esquerda das massas urbanas e rurais empobrecidas. Especialmente mediante a organização de sindicatos e partidos. Em 1959, às voltas com os feitos de Havana, ele desferiu um fulgurante rechaço à internalização do receituário liberal e liberalizante do Fundo Monetário Internacional no Uruguai e, em contrário, passou a elogiar ostensivamente os modelos revolucionários mundo afora. Notadamente o cubano, mas também a experiência guatemalteca e a resistência argelina.
Quando, então, agora, Ernesto Che Guevara escapara de ser assassinado na capital uruguaia, a afluência socialista, em particular, e esquerdista, em geral, era mais que evidente no país. Tanto no campo quanto na cidade.
Tanto que naquele mesmo ano de 1961 o mesmo Raúl Sendic começou a organizar os trabalhadores do corte de cana ao norte do país, no departamento de Artigas, às margens do rio Quaraí, divisa com o Brasil pelo Rio Grande do Sul. E, consequentemente, ainda em 1961 colaboraria para o surgimento da União dos Trabalhadores Açucareiros de Artigas – UTA. Uma plataforma sindical que começou a militar por melhores condições de trabalho, melhores retornos salariais e pela reforma agrária no país.
Notando-se Artigas distante e isolada do eixo dinâmico do Uruguai – que sempre foi Montevidéu –, Raúl Sendic e as lideranças do UTA organizaram a famosa marcha hacia Montevidéu em 1962. Quando começou a circular a nominação tupamaros. Uma designação que remetia aos tempos coloniais. Quando tupamaros eram aqueles que resistiam às investidas da Coroa. E, nesse espírito, agora, seriam aqueles que, organizados e unificados, resistiriam aos desmandos das elites, dos potentados e dos imperialistas.
Essa marcha à capital, em 1962, foi o primeiro turning point da organização das esquerdas no Uruguai. O próximo momento expressivo ocorreria no ano seguinte, em 1963, quando, de braço com sindicatos, comandos das esquerdas organizadas moveram-se à cidade de Nueva Helvécia para assaltar o Clube de Tiro Suíço. Deu certo. Os tupamaros levaram muitas armas, especialmente fuzis. Mas a repressão do governo frente ao movimento inaugurou-se implacável. Levando à dispersão do movimento e ao ingresso de Raúl Sendic na clandestinidade.
Clandestino e em fuga, Raúl Sendic calculou que a luta armada conjugada à guerrilha urbana seria a única saída para as esquerdas no Uruguai. Essa convicção acabou por precipitar a fundação do Movimento Nacional de Libertação Tupamaros, MNL-T, e a designação de seus líderes: Eleuterio Fernández Huidobro, Jorge Manera Lluveras, José Mujica Cordano e Raúl Sendic.
Munida da opção pela guerrilha urbana, a primeira ação do MNL-T foi o reconhecimento físico e espiritual da cidade de Montevidéu. A guerrilha seria urbana e executada na capital. Metade dos 2,8 milhões de habitantes do país estava nela. De modo que era imperativo conhecê-la plena e profundamente. Mapeado o espaço, a sua topografia, a sua paisagem, a sua demografia e a sua volição. Assim se fez.
Adiante o grupo foi ampliando a sua extensão. Angariando mais integrantes e cristalizando simpatias através da “conscientização das massas”. Uma “conscientização” manejada pela crítica acerba ao funcionamento do sistema financeiro no país. Um sistema financeiro que, na avaliação dos tupamaros, era a materialização do corpo e da alma do capitalismo selvagem no país.
Adiante e nesse espírito, os tupamaros começaram a, efetivamente, invadir casas e símbolos financeiros do país. A primeira operação ocorreu na capital e resultou na invasão de uma das maiores casas bancárias de Montevidéu com o propósito de demonstrar o grau de espoliação de que os uruguaios eram objeto. Nessa ocasião, não se levou dinheiro. Apenas documentos, que seriam tornados públicos, que pretensamente evidenciavam as atividades extorsivas dos bancos no país.
Depois disso, no triênio 1964-1966, a ofensiva expandiu-se para instituições públicas e privadas, nacionais e estrangeiras. Sempre com o interesse de atrair atenção, ampliar a “conscientização das massas” e angariar-se maior adesão ao movimento.
Entre os estudantes, em todos os níveis de formação, a interação era quase absoluta. Entre trabalhadores, sindicalizados ou não, também.
Assim, em pouco tempo, o movimento ultrapassou o número de milhares de simpatizantes. O que insuflava a demanda por mais ações revolucionárias. Levando o país à conflagração permanente. Onde, em qualquer dia e lugar, tudo de absurdo poderia acontecer. Como aconteceu no ataque a bomba deflagrado contra a sede da Bayer em 1965 ou, ainda, no ataque ao setor comercial da embaixada do Brasil nesse mesmo ano.
No mês de dezembro do ano seguinte, 1966, sagrou-se vencedor das presidenciais o general Óscar Diego Gestido Pose. Membro do Partido Colorado, mas, mesmo assim, positivo aos ideários do MNL-T.
O MNL-T considerava o novo presidente, antes de tudo, um sujeito simpático. Não simplesmente por ser irmão do universalmente conhecido e querido Álvaro Gestido, titular da seleção uruguaia de futebol que conquistou a Copa do Mundo de 1930. Mas por sinalizar um retorno ao statu quo ante. Aquele mais nacionalista e mais protecionista anterior a 1945. O que, na avaliação dos tupamaros, trazia esperanças de melhoramentos sociais significativos. Impondo-lhes, taticamente, assim, congelar ou recuar em suas ações para sentir a qualidade dos ventos trazidos por Gestido.
Por infortúnio, a presidência de Gestido Pose durou pouco. Começou em abril e terminou em dezembro de 1967, quando da morte do general. Fato e feito que deram passagem à ascensão de Jorge Pacheco Areco, vice-presidente eleito na chapa com Gestido Pose.
Jorge Pacheco Areco era um jornalista uruguaio reputado. Não tinha passado militar. Mas, não por menos, revelou-se imediatamente um espécime da linha dura uruguaia. Bem ao contrário do general falecido.
Para não espelhar dúvida de sua raison d’être, tão logo assumiu a presidência, Jorge Pacheco Areco aproximou-se e assenhorou-se das forças mais radicais à direita e à extrema-direita disponíveis no Uruguai. Se isso não bastasse, passou a ignorar demandas sociais, sindicais e não sindicais. Amordaçando liberdades civis e liberdades de expressão. Intervindo nos espaços universitários. Chegando à ignomínia de desprezar o Parlamento e governar por decreto.
Nessa ambiência, restou ao MNL-T voltar a organizar-se, mobilizar-se e praticar suas ações. Além das invasões a casas financeiras, eles começaram, então, a inovar. Sendo a sua nova tática o sequestro de personalidades. Tudo de modo mais organizado e profissional. Estava maduro e consolidado o movimento.















