O mito de Inanna é mais atual do que nunca. Em um mundo onde o feminino foi reduzido a papéis, imagens e expectativas, a descida simboliza a reapropriação da profundidade psíquica. A mulher que desce até o abismo é aquela que recusa a superfície: abandona títulos, status, máscaras sociais e enfrenta o vazio essencial.
Há uma força antiga que se move sob a pele do tempo. Antes de Ísis, antes de Maria, antes mesmo das palavras "Deus" e "pecado" existirem, havia uma mulher coroada de estrelas e cercada por leões. Ela era Inanna, Rainha do Céu e da Terra, Senhora do Amor e da Guerra. Sua história — gravada há mais de quatro mil anos nas tábuas de argila da antiga Suméria — é a primeira narrativa conhecida sobre morte e ressurreição, uma metáfora cósmica e psicológica da descida da alma ao inconsciente.
Inanna é o arquétipo primordial do feminino que desce para reencontrar a si mesma. Sua jornada não é de submissão, mas de integração: ela se despe de todos os seus poderes, enfrenta o abismo e retorna transformada. É a mãe das iniciações, a Deusa que ensina que a luz só é plena quando conhece a sombra.
A rainha do céu e da terra
Inanna (ou Ishtar, na tradição acadiana posterior) foi uma das mais reverenciadas divindades da Mesopotâmia. Nos textos sumérios, é descrita como filha do deus-lua Nanna e irmã de Ereshkigal, a sombria rainha do submundo. Inanna representa o princípio vital que permeia amor, fertilidade, desejo e também a guerra, a dualidade essencial do feminino que cria e destrói.
Em hinos antigos traduzidos por Samuel Noah Kramer, Inanna é exaltada como “aquela que se ergue em poder, que caminha sobre o céu e que fala palavras de comando”. Ela era a encarnação da energia erótica e cósmica que move o universo: o Eros primordial. Os templos dedicados a ela em Uruk foram centros de poder político, religioso e sexual. Suas sacerdotisas, as entu, praticavam ritos sagrados de união sexual (hieros gamos) com os reis, simbolizando a fusão entre o humano e o divino.
Diferente das imagens posteriores de deusas dóceis, Inanna era ambígua: senhora do amor e da guerra, da fertilidade e da destruição. Sua força era total, circular, não moralizada. Como observa a mitóloga Jean Shinoda Bolen, em “As deusas em cada mulher”, Inanna encarna o aspecto instintivo e inteiro do feminino, anterior à cisão entre corpo e espírito, prazer e culpa.
A descida aos infernos
A narrativa central do mito, “A descida de Inanna ao mundo inferior”, é uma das mais antigas expressões do processo iniciático humano. Nela, Inanna decide visitar o domínio de sua irmã Ereshkigal, a rainha do submundo. Mas para descer, ela deve atravessar sete portões, deixando em cada um símbolo de seu poder: coroa, joias, vestes, insígnias.
A tradução de Diane Wolkstein descreve com precisão esse despojamento ritual:
No primeiro portão, o porteiro tirou-lhe a coroa.
No segundo, os brincos.
No terceiro, o colar.
No quarto, o peitoral.
No quinto, o cinto de pedras.
No sexto, as pulseiras.
No sétimo, a túnica real.
‘Tais são as leis do submundo’, disse o porteiro.
Ao atravessar o último portão, Inanna está nua, vulnerável, despida de identidade e poder. No trono de Ereshkigal, é julgada e morta. Seu corpo é pendurado em um gancho como um cadáver.
A imagem é brutal, simbólica e profundamente psíquica. Carl Jung, ao interpretar os mitos de descida, vê neles a metáfora da jornada do ego que enfrenta o inconsciente e suas forças devoradoras. O mito de Inanna descreve, quatro mil anos antes da psicanálise, o processo arquetípico da morte simbólica do eu e a dissolução necessária para o renascimento da consciência.
O silêncio de Ereshkigal e o mistério da ombra
Enquanto Inanna jaz morta, Ereshkigal lamenta e grita de dores. Essa parte do mito, muitas vezes negligenciada, é a mais enigmática. A sombra feminina, o aspecto reprimido, negado, marginal, se manifesta. Ereshkigal não é vilã; é o reflexo de tudo que Inanna não quer ver: a dor, o limite, o fim.
O ocultista Kenneth Grant, em “The Magical Revival” (1972), interpreta a descida de Inanna como o encontro da sacerdotisa com o “útero escuro da Mãe Cósmica”, o abismo pré-criacional de onde surge toda forma. A morte de Inanna representa o retorno ao caos primordial, à matriz do Ser.
Em termos psicológicos e simbólicos, Inanna e Ereshkigal são duas faces da mesma consciência. Uma domina o mundo da forma; a outra, o da dissolução. A integração entre ambas é o que Jung chamaria de “processo de individuação”. A mulher contemporânea que reencontra sua Ereshkigal interna se reconcilia com o silêncio, o luto e o limite e, ao fazer isso, torna-se inteira.
O renascimento e o amor de Dumuzi
Três dias e três noites depois de sua morte, Inanna é resgatada. Os deuses intercedem e seres neutros, os galatur, criados por Enki, o Deus da sabedoria, descem ao submundo. Eles não julgam, não combatem — apenas ouvem o sofrimento de Ereshkigal e a consolam. Em troca, a rainha do submundo permite que o corpo de Inanna seja devolvido à vida.
Esse detalhe é crucial: Inanna renasce não pela violência, mas pela empatia. O poder transformador do feminino não vem da dominação, mas da escuta. Ao retornar à superfície, porém, Inanna encontra seu amante, Dumuzi, celebrando e não lamentando sua morte. Em ira e justiça, ela o entrega como substituto ao submundo.
Esse gesto final — de vingança e justiça — não é punição, mas equilíbrio. O ciclo de morte e vida se perpetua. Dumuzi torna-se o Deus do ciclo agrícola: metade do ano morto, metade vivo. Inanna inaugura, assim, o mito do eterno retorno, a consciência de que toda criação exige destruição, todo nascimento, uma morte anterior.
O arquétipo da descida no feminino contemporâneo
O mito de Inanna é mais atual do que nunca. Em um mundo onde o feminino foi reduzido a papéis, imagens e expectativas, a descida simboliza a reapropriação da profundidade psíquica. A mulher que desce até o abismo é aquela que recusa a superfície: abandona títulos, status, máscaras sociais e enfrenta o vazio essencial.
Nas teorias junguianas, esse mito é visto como metáfora do processo de autoconhecimento feminino. O “submundo” não é inferno moral, mas o inconsciente. Descer é aceitar o luto, a perda, o corpo que envelhece, o desejo que muda e, ao atravessar tudo isso, reencontrar um novo centro de poder.
O mito de Inanna também inspira práticas contemporâneas de espiritualidade feminina. Rituais de descida simbólica realizados em círculos de mulheres, templos de sabedoria corporal e movimentos de reconciliação com a sombra repetem, conscientemente ou não, o mesmo gesto ancestral: o retorno à caverna interior para renascer inteira.
Como observa Mircea Eliade, em “O sagrado e o profano”, o sagrado não é o que nega o mundo, mas o que o transfigura. Inanna ensina essa alquimia: descer à dor, ao sangue e à perda é o modo mais profundo de relembrar o divino.
A mulher que morre e retorna
Inanna não é uma heroína no sentido clássico. Ela é o processo. Sua morte é necessária, sua dor é caminho, seu retorno é conquista. Diferente das narrativas patriarcais, onde a mulher é passiva ou instrumento, aqui ela é o sujeito absoluto da jornada.
A descida de Inanna é o paradigma de todas as iniciações, da alma mística, do artista, da curadora, da mulher que enfrenta a perda e o renascimento de si. Cada vez que alguém abandona um antigo eu, atravessa o medo e retorna com nova sabedoria, Inanna desce e sobe novamente no interior da psique humana.
Inanna hoje: espelho e ressonância
No século XXI, Inanna ressurge como símbolo de uma nova espiritualidade, não transcendental, mas encarnada. Sua força inspira pensadoras, artistas e místicas que veem no corpo feminino não um fardo, mas um templo de sabedoria.
A descida de Inanna continua acontecendo em cada mulher que ousa olhar para dentro, enfrentar sua sombra, atravessar o silêncio e renascer em potência. Sua história é, em última instância, a narrativa de toda alma que busca reintegrar corpo e espírito, eros e logos, vida e morte.
O coração do submundo
Ao final, Inanna emerge da escuridão trazendo em si algo que não possuía antes: consciência. Ela compreende que reinar sobre o céu só é possível para quem conheceu o inferno.
E é assim que o mito nos fala, mesmo milênios depois, com a clareza das pedras antigas:
No fundo do submundo está o coração que pulsa em todos os mundos.
Inanna é esse coração. A primeira mulher a morrer por amor à própria alma e a renascer por amor à própria sombra.















