Lenda
Há muitos, muitos anos já – tantos
que o real mal esboçava o corpo
do que viria a ser fantasia e lenda
/…/
- aconteceu, certa feita, terem acordado
as gentes de terra firme, para um estranho
facto: a neblina era pesada e densa
e não se via mais a ilha. Aflitos,
os homens gritaram: " - Desapareceu
a ilha, desapareceu a ilha!"
Parecia terem-na tragado as águas,
era só um mar de chumbo a perder
de vista, um pasmo silencioso sem
o claro rumor de gaivotas e velas brancas
na baía. Quando voltou a surgir,
raiava o sol e a ilha estava no céu,
reclinada entre nuvens e azul,
o insuportável diamante iridiscente
de que ainda hoje guarda o resplendor.(Rui Knopfli - A Ilha de Próspero, 1971)
Knopfli referia-se à Ilha do Lagarto Arco-Íris alongado no mar, sentinela do Índico, rodeada de bancos de areia "empoados" que enganavam os barcos, favorecendo o seu naufrágio (v. História Trágico-Marítima, 1735-36, de Bernardo Gomes de Brito; As Encantadas, 1854, de Herman Melville, sobre as Galápagos, que Darwin visitou em 1835)… ilha de Moçambique como o território de que foi capital (e algumas das suas instituições, como a Universidade Mussa Bin Bique em Nampula) e cujo nome se deveu ao sultão reinante em 1498, quando Vasco da Gama e os seus lá chegaram: Mussa Bin Bique, Mussa Ibn Bique ou Mussa Al-Mbique (Moisés, filho de Mbiki), justificando que os portugueses falassem das "Terras de Mussa Bin Bique".
Era a Ilha de Próspero deserta e mística, onde o exilado duque e mago shakespeareano (A tempestade, 1610-11) controlava os elementos, os espíritos e as criaturas e onde a história “encalhou”… de Pedra e Cal pela monumentalidade de influência europeia e árabe, com blocos de coral e argamassa de cal, que a foi compondo entre o colmo e o caniço das habitações mais tradicionais.
Surpreendendo-nos no meio do mar, eis que as ilhas trazem consigo as brumas dos mitos e das lendas, às vezes tingidas de realidade.
Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
/…/
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
/…/
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
/…/(Sophia de Mello Breyner Andresen - “Deriva VIII” in Navegações, 1983)
“Empoadas”, “brancas”, “encantadas”
Misteriosas… onde se ouviam as sereias que povoaram a imaginação dos descobrimentos, primeiro no Atlântico e, depois, por esse além-mar fora, emergindo na ficção de que fizeram “corsários” autores como Nemésio (O Corsário das Ilhas, 1946), perdidos nas viagens da memória (“Se bem me lembro…”).
“Fantasmas”.
Como a de S. Brandão (ou Insula Fortunata), da Vita S. Brandinis Abbatis clumniacensis in Hybernia. Representada no Mappa mundi de Ebstorf (c. 1235), no Mappa mundi de Hereford (c. 1275-1300), que a localiza nas Canárias com a legenda "Fortunate Insulae sex sunt Insulae Sct. Brandani" (Seis são as Ilhas Fortunadas de S. Brandão), no Atlas Catalão de Abraham Cresques (1375), no mapa do novo mundo (1424), de Pizzigano. Onde contracenou com as homólogas mais fabulosas daquela época (Antilia, Satanazes, Saya e Yamana), no Globo de Martin Behaim (Erdapfel, 1492) e no Mapa de Piri Reis (1513), com os monges de S. Brandão a fazerem uma fogueira nas costas de um monstro marinho (Jasconius), confundindo-o com uma ilha.
Outros exemplos famosos de ilhas “fantasmas” poderiam ser lembrados: Frisland, que apareceu em mapas do Atlântico Norte por mais de um século, supostamente concebida a partir de uma interpretação errónea de cartas de exploradores venezianos; Hy-Brasil, a oeste da Irlanda, descrita pelo folclore celta como um lugar de juventude eterna e abundância, cartografada até ao séc. XIX, sendo avistada "uma vez a cada sete anos" por navegantes; a de Phelipeaux, que figurava no influente "Mapa Mitchell" (1755) como localizada no Lago Superior na América do Norte e que chegou a ser usada como marco geoestratégico para definir fronteiras entre os EUA e o Canadá no Tratado de Paris de 1783, apesar da sua inexistência constatada nas décadas de 1810 e 1820.
“Enevoadas”, envoltas em “bruma”, “empoadas”. Associadas à poeira de luz (o spray marítimo e o calor) que as escondia, com areias brancas reverberando pela sílica ou quartzo quase puros (a australiana Whitehaven Beach, a filipina Boracay, a americana Siesta Key, as coralinas Seychelles e Maldivas, etc.), deslizavam para a esfera da espiritualidade como refúgios dos "Reis Encobertos" e/ou dos Mares (estes protegendo tesouros submersos), embebidas de uma mística indefinida. Bancos de areia "empoados" que brilhavam como miragens e sumiam com a maré, como num encantamento.
“Encantadas” como aquelas a que Jaime Cortesão dedicou um romance (O Romance das Ilhas Encantadas, 1926), ilustrado por Roque Gameiro. "Espalhadas" e "afortunadas", como as considerava D. Francisco Manuel de Melo. Fantásticas, como as viu Teófilo Braga nas tradições populares, que as ligavam ao nosso sebastiânico “Rei encoberto”, versão nacionalizada desse Rei Artur recolhido em Avalon.
“Desconhecidas”, como as de Raul Brandão (As Ilhas Desconhecidas, 1926), que as transfigurou com uma geografia de isolamento e vulcanismo que as tornava quase místicas.
Envolvia-as um imaginário mítico e lendário que vai de gigantes a povos ocultos e que as constitui como autênticos portais para o divino e o sobrenatural.
Nas Ilhas Faroé, o folclore fala do Huldufólk ("povo oculto"), seres mágicos que vivem em montanhas e cavernas, protetores e capazes de trazer tanto beleza quanto infortúnio. Há também lendas sobre a criação das próprias ilhas, como a de um gigante norueguês que, ao lutar com outro, atirou uma pedra que se transformou nas Ilhas Faroé.
No Lago Titicaca, a mítica Ilha do Sol é reverenciada como o local de morada do Deus Viracocha e berço da civilização inca.
As lendas cipriotas celebram a ilha de Paphos como o local de nascimento de Afrodite, a deusa do amor e da beleza, emergindo das ondas do mar e simbolizando a profunda conexão da ilha com o oceano. E lá podemos visitar os Banhos de Afrodite e a sua Petra tou Romiou (Rocha de Afrodite, onde ela teria surgido), assim como a cachoeira de Adónis e recordar o episódio da paixão de Pigmaleão e Galateia, estátua a que Afrodite deu vida.
Imaginário inesgotável...
Na velha cartografia, eram “fantasmas” que alguns tentaram localizar e nomear (como a de João da Nova), chamando-lhes "ilhas que fogem", suspeitando-as habitadas por seres que não queriam ser encontrados, ou as “que caminham”, que mudavam de forma e de lugar com as correntes fortes, “ilhas baixas” ou “baixos” (como os Baixos da Judia), com perigos desconhecidos que “aparecem e somem”.
Destacam-se as indicadas pelos navegadores portugueses dos séculos XVI e XVII no Canal de Moçambique e no Índico, justificando a atual expressão de "ilhas que chamam" (pelos pescadores de Bazaruto), onde ecoam os velhos mitos de reis e reinos invisíveis que os portugueses embalavam nas suas caravelas.
Sagradas
Refúgios de deuses, centros de peregrinação ou locais de retiro monástico. Como Okinoshima e Miyajima (Japão), dos deuses, Delos (Grécia), dos deuses Apolo e Ártemis, Lindisfarne (Inglaterra) e Rapa Nui (Chile), localmente como "Tepito Terrenua" (Umbigo do Mundo), Patmos (Grécia), onde o Apóstolo João terá tido a visão do Apocalipse, Rodes (Grécia), do Deus Sol, Samotrácia (Grécia), dos mistérios dos deuses, e Selja (Nordfjord, Noruega), para só mencionar estas.
Do paraíso
E, aproveitando o destaque, não resisto a referir as chamadas Ilhas do Paraíso, que o retiram à localização asiática dos mapas TO medievais.
Claro que o turismo designa muitas como “(do) Paraíso” no Índico e no Pacífico, normalmente com praias de branco areal, águas azul-turquesa e recifes de coral: a das Bahamas (originalmente Hog Island, foi rebatizada na década de 60 para atrair visitantes), as Maldivas (em especial, Lankanfinolhu), Bora Bora (Polinésia Francesa), Seychelles, Zanzibar (a "Ilha das Especiarias", na Tanzânia), Koh Lipe (Tailândia), Cíes (Espanha), as do Caribe, etc.
No entanto, há uma que acumula a dupla designação de “Ilha do Paraíso”, quer a solo, quer como parte do arquipélago a que pertence: a Ilha de Santa Carolina, em Moçambique, sendo o título edénico extensível a todo o Arquipélago do Bazaruto (ao largo de Vilankulo e Inhassoro, Inhambane, com as ilhas Bazaruto, Benguerra, Magaruque, Santa Carolina (Ilha do Paraíso) e Bangue) e ao das Quirimbas (ao longo da costa da Província de Cabo Delgado, com cerca de 27 a 30 ilhas coralinas, das quais as mais conhecidas são Ibo, Quirimba, Medjumbe, Quilalea, Vamizi, Matemo e Rolas).
Mas também “do amor" e “das pérolas”
Atrai-me esta pela confluência lendária na ilha de Sta. Carolina, do arquipélago do Bazaruto.
A bruma começa no nome: teria sido batizada em honra de uma mulher portuguesa de grande beleza, D. Carolina, esposa de um antigo comandante da guarnição militar, que teria morrido durante o parto na ilha, sendo sepultada perto do que viria a ser a pista de aterragem local. Ou seria homenagem a uma santa, refletindo a forte influência católica na região.
E influi na lenda dos peixes voadores que domina a costa de Inhambane: peixes que se transformaram em seres alados para fugir da pesca excessiva, tornando-se mensageiros do mar que protegem a ilha de pescadores desrespeitosos…
A modernidade reinterpretou-a. As visíveis ruínas de um antigo e luxuoso hotel da década de 70 surgem como cenário de fantasmas, espíritos do passado, especialmente de prisioneiros da época em que a ilha servia como colónia penal antes de se tornar um resort. Cenário que, antes, alimentara a lenda moderna de “Ilha do Amor”, onde os casais em lua de mel obtinham a graça da felicidade conjugal… e onde Bob Dylan teria estado refugiado e compondo “Whispering your secret emotion/ Magic in a magical land” (canção "Mozambique", 1975).
“Pérola do Índico” ou “Ilha das Pérolas” (mais uma vez, extensível ao seu arquipélago), pela fama de as ter fornecido à célebre Rainha do Sabá (Makeda na tradição etíope ou Bilqis no Islão), remontando a tempos bíblicos e fenícios: tão perfeitas, que ela as elegeu para se adornar na visita a Salomão, iniciando uma ligação amorosa da qual teria nascido Menelik I, imperador da Etiópia, primeiro de uma linhagem imperial de grande importância cultural e política conduzindo ao Preste João das Índias "demandado" pelas navegações portuguesas.
Referem-se a este episódio textos religiosos antigos, tradições orais africanas e crónicas de exploração (desde a Bíblia e o Alcorão, passando pelo Kebra Negast/A Glória dos Reis às crónicas seiscentistas com a lenda de Ofir e às lendas de Vilankulo e Bazaruto que a referem como local sagrado onde as pérolas eram colhidas por "homens vindos do mar" para serem levadas a uma grande rainha no norte).
Curiosamente, Giovanni Boccaccio, em sua obra De mulieribus claris (Sobre as mulheres famosas, 1362), refere-se à Rainha de Sabá afirmando que ela possuía um palácio luxuoso numa "ilha muito grande" chamada Meroé, perto do rio Nilo, numa região descrita como "praticamente no outro lado do mundo", refúgio de luxo e poder.
No regresso à Europa, além da “Pérola do Atlântico” (ilha da Madeira), local dos amores de Machim e Ana d'Arfet, outra ilha do Amor surge aos nautas lusos pela pena de Camões, cujo V Centenário festejamos: a que os pluraliza (“dos Amores”) no Canto IX d' Os Lusíadas, construção divina de Vénus, móvel e flutuante, edénica e com enseada amena e acolhedora, que intercepta a armada de Vasco da Gama no seu regresso de Moçambique e da Índia.
Enfim, ilhas que são “soluço[s] de pedra ao sabor da monção” (Rui Knopfli)…
Nas águas mornas onde o azul se esquece,
Ergue-se a ilha, altar de sal e luz,
Onde a areia, em pó, ao sol fenece
E o dhow, de vela aberta, nos conduz.É a "ilha que foge", branca e empoada,
Espectro de coral que a maré traz,
Pela bruma de um rei, talvez, guardada,
Em reino de silêncio e de paz.Lá, onde a Rainha o sangue ordena
E o Xeique reza à lua o seu destino,
A história é uma pérola, serena,
No mar do Índico, eterno e cristalino.Não é mapa, é miragem de um passado,
De impérios, de sultões e de ventura,
Um paraíso em coral desenhado,
Pousado na linha da cintura.(Autor Anónimo)















