Os escritores são sedutores, seduzem tão completamente, que chegam a seduzir as personagens como se fossem gente! E as personagens ganham vida, volume, cor, emoção e depois entram pela porta da frente no nosso coração! Entram na casa dos leitores! Na casa, isto é, no sofá, na cama, na mesinha de cabeceira; mas também no corpo e na alma do leitor, na sua cabeça e nos seus pensamentos! Convivem diariamente conosco!
Diariamente tem lugar uma transfusão do sangue azul da escrita do escritor (e note-se, não do escrevente!), para as várias veias de emoções do leitor. Contaminam-se. Muitas das vezes apaixonam-se e outras vezes discutem entre si os finais felizes ou infelizes da narrativa!
É que o escritor sabe que se vive narrativamente; que a sintaxe da gramática dos livros se cruza com a sintaxe do quotidiano da própria vida. Somos sujeitos que praticam acções num determinado lugar e tempo, de um determinado modo... e é especialmente este modo de fazer, de ser e estar-no-mundo que constitui o estilo de vida do sujeito e que o vai distinguir dos demais; que o vai fazer seduzir alguém...
Assim é com os escritores; cada escritor possui o seu estilo, cada escrita sua tem o seu ADN particular, o seu modo de se fazer encantar com as palavras, de criar ambientes e cores e volumes e afectos e sensações que levam o leitor a ficar cativo desse mesmo escritor!
A partir desse acto de “ler”, que é conhecer por dentro o que vai sendo contado nas páginas do livro, gera-se uma interpretação e consequentemente uma auto-interpretação, que por sua vez leva a uma auto-avaliação por parte de quem lê! Pois, como afirma Paul Ricoeur, “(...) não há interpretações eticamente neutras”!
Segundo Ricoeur, a teoria do texto permitirá expandir a categoria da “explicação” e a da “compreensão” – é por isso que a compreensão enquanto apreensão do “mundo” da obra é, em última análise, a compreensão de si mesmo.
Ao lado de uma linguagem que fala de “acontecimentos”, existe uma outra que fala de “acção humana” e essa acção pode ser considerada como um texto, pois, como os textos, as acções humanas são obras abertas a novas interpretações, além de que o género narrativo é exactamente aquele que visa descrever e reescrever os actos humanos.
Daí que as implicações educativas, segundo a perspectiva ricoeuriana sobre a ética, se situem ao nível da hermenêutica da narrativa e das potencialidades desta última quanto ao seu carácter mediador.
De facto, o texto narrativo existe tendo em vista a acção humana, que é profundamente social e aberta. É somente através da relação com os outros que podemos chegar a nós próprios, tomando consciência do que somos.
Uma consciência que atravessa diacronias e sincronias, que é recuperada através da história, isto é, da interpretação das obras, dos textos onde se manifesta o acto de existir. É a narratividade própria da experiência temporal do existir que o texto configura.
A narrativa torna-se assim uma condição da experiência prática, pois o próprio campo da praxis humana é sempre narrativamente pré-figurado, quer dizer, está sempre articulado por meio de signos, regras, costumes, valores que permitem que as pessoas se entendam ou divirjam na constituição da sua identidade.
Será, pois, extremamente benéfico e propulsor de crescimento o facto de o leitor se “apropriar” do texto no sentido de revisitar o seu mundo, de se autoquestionar e consciencializar o seu lugar no mundo, as suas fragilidades, as suas potencialidades, enfim, enfrentar o palco dos conflitos internos.
Como consequência, o leitor, com a ciência e a arte interpretandi, poderá melhor optar, relacionar e comparar-avaliando, diferentes realidades; valorizar umas em detrimento de outras, reconstituindo a sua identidade.
Torna-se interessante e até pertinente reconhecermos que no nosso agir diário utilizamos “fórmulas literárias” extraídas da tragédia, do romance, dos contos de fadas ou mesmo dos policiais, ex.: “Sinto-me uma personagem de tragédia grega!”, “Não sou nenhum herói!”; “Pareces uma gata borralheira”; “Precisava agora aqui de um Sherlock Holmes!”; “Esta é uma história com final feliz”…
Trata-se apenas de alguns de muitos exemplos que na realidade da acção humana se utilizam como lugares comuns, como representação simbólica de uma situação determinada, o que quer dizer que a matéria-prima da literatura é o mundo real e que este “informa” aquela arte de conteúdos preciosos, de tesouros a descobrir pelo sujeito que os lê e interpreta, descodificando estruturas narrativas que muito têm que ver com as nossas acções e opções.
Atente-se, pois, na evidência de que somos sujeitos, ocupando um determinado lugar/espaço no mundo, situados pois na acção, num tempo, com um determinado modo de agir e pensar, isto é, de comunicar com o que está à minha volta, com uma memória (tempo da narrativa = passado), fazendo história, construindo peripécias... tal como uma personagem de um conto.
No fundo, somos seres feitos de linguagem, fazemos escolhas, até com os pronomes (possessivos; demonstrativos; indefinidos) e com o modo dos verbos (conjuntivo; imperativo), e com os adjectivos e advérbios que utilizamos.
Todos os dias cruzamos a sintaxe do discurso com a sintaxe da vida. É esta consciência educada e ética que a literatura, com a sua função terapêutica, deverá atingir no leitor!















