A dependência é aquele inquilino abusivo que se instala na nossa vida sem fiador, não paga renda e não sabemos sequer como ele entrou, mas ansiamos desesperadamente por uma ordem de despejo.
Residimos embriagados no estado do “eu consigo”, mas colocamos a nossa liberdade nas mãos de alguém, deixamos de querer mandar na nossa própria vida. Será medo? Será credibilidade? Ou falta de amor próprio?
Quando damos conta, já entregamos as chaves da casa ao inquilino. Abdicamos de saber tomar decisões, ir a sítios ou pior, já não queremos pensar. Assumimos não ter culpa, mas essa é a maior falácia que contamos a nós mesmos.
Quando se fala em dependência, o moralismo social aponta imperiosamente o dedo ao álcool, ao tabaco, ou até mesmo a substâncias ilícitas. Pura ingenuidade, confesso. A pior, arrisco-me a dizer, que talvez, só talvez, a mais agressiva é a mais silenciosa das dependências; não se fuma, nem se bebe em copos de balão. Falo-vos da dependência emocional.
A terrível necessidade de depender de um terceiro para exercer aquilo que, em teoria, deveria ser um direito básico, mas do qual abdicamos sem querer: a nossa liberdade de escolha. Colocando o outro numa situação de poder que também não pediu. Chega a ser ingrato...
Lembram-me as aulas de filosofia. Recordam-se das conversas poéticas que tínhamos nos intervalos da escola sobre o “livre-arbítrio”? Pois bem, Freud deve estar neste momento glorioso com a nossa “descoberta”. Achamos que somos nós a tomar as nossas decisões, que controlamos o volante, mas na realidade nunca saímos da autoescola; há sempre quem esteja com os pés nos pedais. Ou então, estamos apenas no banco do pendura da nossa própria existência. É perigoso deixar o tempo passar sem tomar rédeas do assunto.
A ironia do adulto moderno é deliciosa. Crescemos, tornamo-nos profissionais competentes, enchemos o peito, pagamos impostos e organizamos a lida da casa. Até já entendemos o IRS! De fora, um sucesso! Mas por dentro, somos dominados por uma solidão atroz.
Estamos focados na aprovação alheia, mas, na verdade, nunca cortámos o cordão umbilical; apenas passamos a vida a ligá-lo a tomadas diferentes. Será que podemos assumir que crescemos? O dilema desta dependência é que não há grupos de “Alcoólicos Anónimos” para quem não consegue tomar uma decisão sozinho. E, quando o caso aperta, qual é o conselho de ouro da sociedade moderna? “Procura um profissional.”
E aqui reside a grande farsa. A falácia da sociedade. Encaminhar pessoas com dependência emocional para terapeutas é, muitas vezes, apenas rematar a bola para o outro lado e trocar a morada do problema. Ora, mais uma tomada diferente...
Às vezes o que nos parece uma solução chama-se apenas “ganhar algum tempo”. Substituímos a dependência do parceiro, amigo ou familiar pela dependência do “Doutor”, todas as terças-feiras às 17h. Ainda pagamos por isso. Assim, em vez de conseguirmos procurar e ter autonomia, optamos por subcontratar a nossa sanidade mental e a nossa capacidade de raciocínio a um estranho com um bloco de notas. Não resolvemos a falha, apenas pagamos a alguém para nos segurar a trela. “Tentar” é um termo errado, “fazer” é o verbo certo. Mas a dependência emocional é uma faca de dois gumes, um crime com duas vítimas. Por um lado, a do próprio. A incompetência de domar a própria vida. Por outro, enfiamos o outro numa posição ingrata, numa posição que ele não pediu.
Acorrentando-o à nossa narrativa como se fosse o oráculo ou culpado da nossa condição. É uma preguiça emocional mascarada de outro nome. E uma condição que não prejudica um só ser. Parece complicado? Mas não tem de ser. Tomar as rédeas da nossa vida é talvez a coisa mais assustadora da vida adulta. Não falo de gerir finanças ou planear o menu da semana, isso a bem ou mal se faz. Falo de calar o ruído, estar em silêncio connosco mesmos, ouvir a nossa cabeça e não entrar em pânico. Saber escutar as nossas decisões e entender os nossos receios. Às vezes, só temos de saber estar sós. Nós e o mundo.
A cura, se é que se pode aceitar esse termo, é menos “tu” e mais “eu”. É aceitar que a história só deve ter uma personagem principal e não se pode escrever a quatro mãos. A minha utopia é simples. Talvez a solução de todos os problemas. Exagerei, claro, mas de alguns!
Uma autocaravana, uns trocos no bolso, o nosso animal de estimação e uma estrada vazia. Aprender a encontrar o caminho sem perguntar a ninguém qual a nossa próxima paragem. Não será justo colocar em alguém essa decisão. O outro não tem culpa da incoerência a que nos subjugamos.
O cérebro humano parece que às vezes tem de voltar a aprender a pensar sozinho e nós temos de perder, de uma vez por todas, este receio crónico da nossa própria companhia. Assim farei.















