I
Among twenty snowy mountains,
The only
moving thing Was
the eye of the
blackbird.
II
I was of three minds,
Like a
tree In which there are
three blackbirds.
III
The blackbird whirled in the
autumn winds. It was a
small part of the pantomime.
(…)(Wallace Stevens)
O trabalho de Marisa Ferreira (n. 1983), na perspetiva do visitante, opera no campo da perceção e da experiência espacial e encontra-se numa linhagem moderna (suprematismo e o design moderno), atualizando questões que produziram uma fissura, em parte, resolvida pelo abstracionismo geométrico e o minimalismo numa batalha apaixonante contra a figuração e a paisagem.
A partir do uso de formas geométricas elementares, a artista convoca regularmente as atmosferas visuais do suprematismo, verificável na presença do quadrado, do retângulo e do triângulo numa perspetiva tridimensional.
A cor surge como forma construtiva, mas essencialmente instigadora ao nível da perceção que, aliada à simplificação das formas, procura um movimento de aproximação do visitante. Este ver com o corpo, ver para crer, é uma das grandes virtudes da sua obra escultórica. A nossa curiosidade só se completaria se pudéssemos tocar. Perceber que afinal a superfície angular das suas obras é feita de matéria fria: alumínio, aço inox e vidro.
Será nesta aproximação que se desfaz a ilusão de que estamos perante imagens pictóricas, planas. Este zigzag, esta diferença entre um longe e um perto, é justamente o que o seu trabalho contém de mais estimulante por nos colocar em permanente dúvida. A ambiguidade (abertura) da obra (pensando em Umberto Eco) permite a multiplicidade da experiência estética num apelo à imaginação assim como à inteligência.
Com a obra de Marisa Ferreira, do estranhamento passamos à experiência sensível a partir de uma tensão ou cissura que recoloca os termos da pintura, mas também da escultura. O processo pode passar pela afirmação de Alain Badiou de que o real da arte é impureza ideal a caminho de uma qualquer purificação, o que na obra da artista se revela pela depuração da forma, da cor e do reflexo espelhado do alumínio, aço e vidro.
A obra da autora reclama uma hermenêutica da escuta (Ricoeur), pede para ser “ouvida” de forma a ser compreendida, para além de tudo o que sabemos sobre arte, exigindo capacidade de nos colocarmos no lugar da artista, falando com a obra para a interpretar e assim vivermos pelo outro, pela arte.
A certeza de que o seu trabalho é comprometido com o real e com o outro, trouxe-me a sua peça Shall we dance? (2017/2019) que a artista construiu no espaço público, transformando um antigo parque de estacionamento numa zona pedonal, em Oslo. Neste parque a música convida as pessoas a dançarem num pavimento pintado, inspirado na estética das composições construtivistas.
Também a sua intervenção para o espaço público, Lost future (2020) evoca um projeto urbano de Le corbusier (1925), nunca construído em Paris. Marisa Ferreira projeta a obra utilizando desenhos de arquivo de Le corbusier, construída com vidros e espelhos usados numa estrutura de aço inoxidável, num exercício crítico sobre a utopia moderna.
A influência do design moderno pode ser uma possibilidade de acesso à expressividade das suas obras pelas formas e linhas simples, geometrias básicas sem ornamentos usando tecnologia vinda do fluxo industrial. Marisa Ferreira herda o gesto moderno atualizando a dialética entre arte e artesania industrial sendo que a forma serve uma função, agora estética, para uma receção ativa.
Por fim, diremos que a herança moderna na obra da artista se sente igualmente na presença ostensiva da grelha (R. Krauss) que opera enorme importância na qualidade das suas esculturas no campo da perceção, sendo um elemento estruturante e que confere às suas peças uma espécie de gesto expansivo.
Esta expansão altera a espacialidade porque lhe confere ilusão de profundidade, escalas dinâmicas na relação com o afastamento ou proximidade do visitante, modelação de volumes. Concomitantemente a estrutura geométrica, nas suas peças, ultrapassa os limites físicos da peça, interferindo na arquitetura do espaço expositivo colocando o espectador em movimento.
Nas pinturas e esculturas de Marisa Ferreira, como no poema de Stevens, o olhar salta em várias direções, guiado por uma imagética geométrica, estruturada, serial e fria.
(Texto de José Maçãs de Carvalho)










