Soul complex parte de uma pergunta colocada pelo arquitecto indiano Aditya Prakash no poema Chandigarh – a presentation in free verse: terá Chandigarh uma alma? A resposta surge no próprio poema: “this is a city with a soul, with a throbbing heart, and with a thinking sensitive brain”. É desta ideia — a possibilidade de uma cidade possuir uma vida interior — que nasce o título da exposição.

Construída de raiz na década de 1950, Chandigarh tornou-se um dos mais ambiciosos projectos urbanos do século XX. Concebida após a independência da Índia, a cidade foi pensada como um símbolo de modernidade e de futuro. O plano geral e os edifícios institucionais mais emblemáticos foram desenvolvidos por Le Corbusier, em colaboração com Pierre Jeanneret, Jane Drew, Maxwell Fry e numerosos arquitectos e urbanistas indianos. No centro desta visão ergue-se o Capitol Complex, conjunto monumental que inclui o Palácio da Assembleia, o Secretariado e o Tribunal Supremo — estruturas de grande escala onde a arquitectura se afirma como gesto escultórico e político.

Ao longo do seu trabalho em Chandigarh, Inês d’Orey fotografou interiores e espaços institucionais desta cidade, explorando a forma como a arquitectura constrói atmosferas e experiências sensoriais. A luz, a matéria e a escala tornam-se elementos centrais, enquanto os espaços — muitas vezes monumentais — revelam uma tensão entre ordem geométrica e presença humana. Nas fotografias de grande formato apresentadas nesta exposição, muitas delas dedicadas ao Capitol Complex, a arquitectura surge como um corpo vivo, carregado de memória e de intenção.

A exposição reúne fotografias em grande formato, caixas de luz, e uma instalação dedicada a duas arquitectas importantes na construção de Chandigarh: Jane Drew e U. Eulie Chowdhury. Embora tenham contribuído para numerosos edifícios e para a definição do tecido urbano da cidade, os seus nomes permaneceram durante décadas menos visíveis na narrativa dominante da arquitectura moderna.

Ao trazer estas duas arquitectas para o centro da exposição, Inês d'Orey prolonga uma linha de investigação que tem marcado o seu trabalho recente: a pesquisa, identificação e fotografia de obras concebidas por arquitectas pioneiras da primeira metade do século XX. Este gesto procura não apenas revisitar a história da arquitectura, mas também reequilibrar a forma como essa história é contada.

Soul complex propõe assim um encontro entre arquitectura, imagem e memória. Entre a monumentalidade das estruturas modernistas e as histórias humanas que as atravessam, a exposição regressa à pergunta inicial de Aditya Prakash: pode uma cidade ter alma? Nas imagens de Inês d'Orey, Chandigarh surge como um organismo complexo, simultaneamente racional e sensível, onde o espaço construído parece guardar a energia daqueles que o imaginaram.